segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Terceira Guerra Mundial
Objetivo Irã: os riscos de uma Terceira Guerra Mundial
As consequências de um ataque mais amplo por parte dos EUA, da OTAN e de Israel contra o Irã são de grande alcance. A guerra e a crise econômica estão intimamente relacionadas. A economia de guerra é financiada por Wall Street que, por sua vez, se ergue como credor da administração dos EUA. Por sua vez, “a luta pelo petróleo” no Oriente Médio e Ásia Central serve diretamente aos interesses dos gigantes do petróleo anglo-estadunidense. Os EUA e seus aliados estão “batendo os tambores da guerra” na altura de uma depressão econômica mundial, para não mencionar a catástrofe ambiental mais grave na história da humanidade. O artigo é de Michel Chossudovsky, diretor do Centro para Investigação sobre a Globalização.
Michel Chossudovsky - Global Research
Centro para a Investigação da Globalização (Global Research on Globalization)
A humanidade está numa encruzilhada perigosa. Os preparativos de guerra para atacar o Irã estão em estágio avançado. Sistemas de alta tecnologia, incluindo armas nucleares, estão totalmente desenvolvidos. Esta aventura militar está colocada sobre o tabuleiro de xadrez do Pentágono desde meados da década de 1990. Primeiro o Iraque, depois o Irã, segundo documentos desclassificados de 1995, do Comando Central dos EUA.
A escalada é parte da agenda militar. Além do Irã, próximo objetivo junto com a Síria e o Líbano, esse desdobramento estratégico ameaça também a Coréia do Norte, a China e a Rússia. Desde 2005, os EUA e seus aliados, incluídos aqui os Estados Unidos da OTAN e Israel, estão envolvidos numa ampla atividade e no armazenamento de sistemas de armas avançados.
Os sistemas de defesa aéreos dos EUA, os países membros da OTAN e Israel estão totalmente integrados. Trata-se de uma tarefa coordenada pelo Pentágono, pela OTAN e pela Força de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), com a participação ativa de militares de vários países da OTAN e não só, incluindo os estados árabes de primeira linha (os membros da OTAN do Mediterrâneo e a Iniciativa de Cooperação de Istambul), Arábia Saudita, Japão, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, Singapura, Austrália, entre outros. A OTAN se compõe de 28 estados membros. Outros 21 países são membros do Conselho da Aliança Euro-Atlântica (EAPC); o Diálogo Mediterrânico e a Iniciativa de Cooperação de Istambul contam com dez países árabes e Israel.
O papel do Egito, dos Estados do Golfo e da Arábia Saudita (dentro de uma aliança militar ampliada) é de particular relevância. O Egito controla o trânsito de barcos de guerra e de barcos petroleiros pelo Canal de Suez. Arábia Saudita e os Estados do Golfo ocupam a costa ocidental do sul do Golfo Pérsico, o estreito de Ormuz e o Golfo de Omã.
Em princípios de junho deste ano o Egito informou que permitiu a onze barcos dos EUA e de Israel passar pelo Canal de Suez, numa aparente sinalização ao Irã. Em 12 de junho, vozes da imprensa regional informaram que os sauditas haviam dado a Israel autorização para sobrevoar seu espaço aéreo (Mirak Weissbach Muriel, Israel Insane War on Iran Must Be Prevented, Global Research, 31 de julho de 2010). Na doutrina militar consagrada após o 11 de setembro, o estabelecimento massivo de armamento militar se definiu como parte da chamada Guerra Global contra o terrorismo, dirigido para organizações terroristas não estatais, como a Al Qaeda e os chamados Estados patrocinadores do terrorismo, entre eles o Irã, Síria, Líbano e Sudão.
A criação de novas bases militares dos EUA, o armazenamento de armas avançadas, incluindo as armas nucleares táticas, etc. foram levadas a cabo como parte da preventiva doutrina militar defensiva debaixo do guarda chuva da "Guerra Global contra o Terrorismo".
Guerra e crise econômica
As consequências de um ataque mais amplo por parte dos EUA, da OTAN e de Israel contra o Irã são de grande alcance. A guerra e a crise econômica estão intimamente relacionadas. A economia de guerra é financiada por Wall Street que, por sua vez, se ergue como credor da administração dos EUA.
Os produtores de armas dos EUA são os destinatários de bilhões de dólares do Departamento de Defesa do país, pelos contratos de aquisição de sistemas de armas avançadas.
Por sua vez, “a luta pelo petróleo” no Oriente Médio e Ásia Central serve diretamente aos interesses dos gigantes do petróleo anglo-estadunidense. Os EUA e seus aliados estão “batendo os tambores da guerra” na altura de uma depressão econômica mundial, para não mencionar a catástrofe ambiental mais grave na história da humanidade. Por amarga ironia, a British Petroleum, uma das maiores jogadoras do tabuleiro de xadrez geopolítico da Ásia Central no Médio Oriente, antigamente conhecida como Anglo-Persian Oil, causou a terrível catástrofe ecológica no Golfo do México.
Meios de desinformação
A opinião pública, influenciada pelo barulho dos meios de comunicação, oferece apoio tático, indiferente ou ignorante dos possíveis impactos daquilo que se mantém propositalmente como um fator punitivo da operação dirigida contra as instalações nucleares do Irã em lugar de uma guerra total.
Os preparativos de guerra incluem o aumento da atividade dos fabricantes de armas nucleares dos EUA e de Israel. Neste contexto, as consequências devastadoras de uma guerra nuclear são banalizadas ou simplesmente não se mencionam. A crise “real” que ameaça a humanidade é o “aquecimento global” e não a guerra.
A guerra contra o Irã é apresentada à opinião pública como um tema banal entre tantos outros. Não é apresentado como uma ameaça à Mãe Terra, como é o caso do aquecimento global. Não se noticia com destaque. O fato de que um ataque contra o Irã poderia levar a uma potencial escalada e o desencadear uma guerra global não é motivo de preocupação.
Culto à morte e a destruição
A máquina global de matar é sustentada pelo culto à morte e pela destruição que impregnam muitos dos filmes de Hollywood, e por não mencionar as guerras no horário nobre. E também pelas séries de televisão sobre delinquência.
Este culto à matança está respaldado pela CIA e pelo Pentágono, que apóia, financiando, produções de Hollywood como instrumento de propaganda de guerra.
O ex-agente da CIA Bob Baer disse: "Existe uma simbiose entre a CIA e Hollywood e revelou que o ex-diretor da CIA, George Tenet, se encontra atualmente em Hollywood, conversando com os estúdios. (Matthew Alford and Robie Graham, “Lights, Camera Covert Action: The Deep Politics of Hollywood”, Global Research, 31 de janeiro de 2009).
A máquina de matar se desenvolveu em nível global dentro do marco de estrutura de comando de combate unificado. E é mantida habitualmente por instituições de governo, meios corporativos, altos funcionários e intelectuais que se colocam à disposição de uma Nova Ordem Mundial a partir de um grupo de pensadores de Washington e dos institutos de investigação de estudos estratégicos, como instrumento indiscutível da paz e da prosperidade mundial. É a cultura da morte e da violência gravando-se na consciência humana.
A guerra está amplamente aceita como parte de um projeto social: a Pátria tem que ser defendida e protegida.
A violência legitimada e as execuções extrajudiciais contra os terroristas são mantidas nas democracias ocidentais como instrumentos necessários de segurança nacional.
Uma “guerra humanitária” é sustentada pela chamada comunidade internacional. Não é condenada como um ato criminoso. Seus principais idealizadores são recompensados por suas contribuições à paz mundial. Em relação ao Irã, o que se está desenvolvendo é a legitimação direta de uma guerra em nome de uma idéia ilusória de segurança mundial.
Um ataque aéreo “preventivo” contra o Irã levaria a uma escalada. Na atualidade existem três teatros de guerra no Oriente Médio e Ásia Central: Iraque, Afeganistão/Paquistão e Palestina.
Se o Irã se tornar objeto de um ataque “preventivo” por forças aliadas, toda a região, desde o Mediterrâneo Oriental até a fronteira da China com o Afeganistão e o Paquistão poderia arder em chamas, o que nos conduz, potencialmente, a um cenário de Terceira Guerra Mundial.
A guerra se estenderia ao Líbano e a Síria. É muito pouco provável que se os ataques, caso se concretizassem, ficassem circunscritos a instalações nucleares do Irã, como afirmam as declarações oficiais dos EUA e da OTAN. O mais provável será um ataque aéreo tanto a infraestruturas militares como civis, sistemas de transporte, fábricas e edifícios públicos.
O Irã, com dez por cento estimados do petróleo mundial, ocupa o terceiro lugar em reservas de gás, depois da Arábia Saudita (25%) e o Iraque (11%), pelo tamanho de suas reservas. Em comparação, os EUA têm menos de 2,8% das reservas mundiais de petróleo. (Cf. Eric Waddell, The Battle for Oil, Global Research, dezembro de 2004).
É de grande importância o recente descobrimento no Irã, nas regiões de Soumar e Halgan, das segundas maiores reservas mundiais conhecidas que se estimam em 12,4 bilhões de pés cúbicos. Apontar as armas ao Irã não só consiste em recuperar o controle anglo-estadunidense sobre o petróleo e a economia de gás, incluindo-se as rotas de oleodutos, mas também questiona a influência da China e da Rússia na região.
O ataque planificado contra o Irã faz parte de um mapa global coordenado de orientação militar. É parte da “longa guerra do Pentágono”, uma proveitosa guerra sem fronteiras, um projeto de dominação mundial, uma sequencia de operações militares.
Os planificadores militares dos EUA e da OTAN têm previsto diversos cenários da escalada militar. E são também muito conscientes das implicações geopolíticas, como por exemplo, saber que a guerra poderá se estender para além da região do Oriente Médio e da Ásia Central. Os efeitos econômicos sobre os mercados do petróleo, etc. são também analisados. Enquanto o Irã, a Síria e o Líbano são os objetivos imediatos, China, Rússia, Coréia do Norte, sem contar Venezuela e Cuba, são também objeto de ameaça dos EUA.
Está em jogo a estrutura das alianças militares. As atividades militares da OTAN-EUA-Israel, incluindo manobras e exercícios realizados na Rússia e suas fronteiras próximas com a China têm uma relação direta com a guerra proposta contra o Irã. Estas ameaças veladas, incluindo o seu calendário, constituem um claro aviso aos antigos poderes da época da Guerra Fria, para evitar que possam ou venham a interferir em um ataque dos EUA ao Irã.
Guerra Mundial
O objetivo estratégico em médio prazo é chegar ao Irã e neutralizar seus aliados, através da diplomacia dos tiros de canhão. O objetivo militar em longo prazo é dirigir-se diretamente à China e a Rússia.
Ainda que o Irã seja o objetivo imediato, o desdobramento militar não se limita ao Oriente Médio e a Ásia Central. Uma agenda militar global está estabelecida. O avanço das tropas de coalizão e os sistemas de armas avançadas dos EUA, da OTAN e seus sócios, está se configurando de forma simultânea em todas as principais regiões do mundo.
As recentes ações dos militares dos EUA em frente as costas da Coréia do Norte em forma de manobras são parte de um desenho global. Os exercícios militares, simulações de guerra, o deslocamento de armas, etc. dos EUA, da OTAN e seus aliados que se estão realizando simultaneamente nos principais pontos geopolíticos, visam principalmente a Rússia e a China.
-A península da Coréia, o Mar do Japão, o estreito de Taiwan, o Mar Meridional da China, ameaçam a China.
- O deslocamento de mísseis Patriot para Polônia, o Centro de Alerta próximo à República Checa, ameaça a Rússia.
- Avanços navais na Bulgária, na Romênia e Mar Negro, ameaçam a Rússia.
- Avanços de tropas da OTAN e dos EUA na Geórgia também.
- Um deslocamento naval de grande dimensão no Golfo Pérsico, incluindo-se submarinos israelenses, dirigidos contra o Irã.
Ao mesmo tempo, o Mediterrâneo Oriental, o Mar Negro, o Caribe, América Central e região andina da América do Sul, são as zonas de militarização em curso. Na América Latina e no Caribe, as ameaças se dirigem à Venezuela e a Cuba.
“Ajuda militar” dos EUA
Por sua vez, transferências de armas em grande escala foram feitas sob a bandeira norte americana como “ajuda militar” a países selecionados, incluindo-se cinco bilhões de dólares num acordo de armamento com a Índia que se destina a melhorar as capacidades bélicas da Índia contra a China. (Huge U.S – Índia Arms Deal To Contain China, Global Times, 13 de julho de 2010).
“Isto (a venda de armas) significa melhorar as relações entre Washington e Nova Delhi e, de forma deliberada ou não terá o efeito de conter a influência da China na região”. (Citado em Rick Rozoff, Confronting both China and Russia: U.S. Risks Military Clash With China in Yellow Sea, Global Research, 16 de julho de 2010).
Os EUA conseguiram acordos de cooperação militar com alguns países do sul da Ásia Oriental, como Singapura, Vietnã e Indonésia, incluindo sua “ajuda militar”, assim como a participação em manobras militares, sempre dirigidas pelos Estados Unidos, na órbita do Pacífico (julho/agosto de 2010). Esses acordos são de apoio às implementações de armas dirigidas contra a República Popular da China. (Cf. Rick Rozoff, op. Cit.)
Do mesmo modo e mais diretamente relacionado ao ataque planificado contra o Irã, os EUA estão armando os Estados do Golfo (Bahrein, Kuwait, Qatar e os Emirados Árabes Unidos) com o interceptador de mísseis terra-ar Patriot Advanced Capability-3 (THAAD), assim como os baseados nos modelos de mísseis mar-3, interceptadores instalados em barcos de guerra de classe Aegis no Golfo Pérsico. (Cf. Rick Rozoff, NATO’s Role in the Military Encirclement of Iran, 10 de fevereiro de 2010).
Calendário de provisão e armazenamento militar
No que diz respeito à transferência de armas dos EUA para sócios e aliados, o crucial é o momento da entrega e do seu desdobramento. O lançamento de uma operação militar dos EUA ocorrerá, uma vez que esses sistemas de armas estejam em seu lugar mediante o desenvolvimento efetivo da aplicação e da capacitação do pessoal preparado. (Por exemplo, a Índia)
Estamos falando de um desenho militar mundial cuidadosamente coordenado e controlado pelo Pentágono, com a participação de forças armadas combinadas de mais de quarenta países. Esse desdobramento militar mundial é, com certeza, o maior desdobramento de sistema de armas avançados da história.
Por sua vez, os EUA e seus aliados têm estabelecido novas bases militares em diferentes partes do mundo. “A superfície da terra está estruturada como se fosse um enorme campo de batalha” (Cf. Jules Dufour, The Worldwide Network of US Military Bases, Investigación Global, 01 de julho de 2007).
O Comando Unificado da estrutura geográfica dividida em comandos de combate tem como base uma estratégia de militarização em nível global. “Os militares norte americanos têm bases em 63 países. E novas bases foram construídas a partir do 11 de setembro de 2001 em sete países. No total, existem 255.065 militares dos EUA distribuídos por todo o mundo”. (Cf. Jules Dufour, op. Cit.)
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O cenário da Terceira Guerra Mundial
Esse desdobramento militar se produz em várias regiões e ao mesmo tempo sob a coordenação dos comandos regionais dos EUA com a participação de aliados no armazenamento de arsenais norte americanos, inclusive antigos inimigos, como o Vietnã e o Japão.
O contexto atual se caracteriza por uma acumulação militar global controlada por uma superpotência mundial que está utilizando seus aliados para desencadear numerosas guerras regionais.
A diferença que se estabelece com a Segunda Guerra Mundial, que foi também uma conjunção de distintas guerras regionais, é que com a tecnologia de comunicações e sistemas de armas da década de 1940, não havia estratégia em “tempo real” para coordenar as ações militares entre grandes regiões geográficas.
A guerra mundial se apóia num desdobramento coordenado de uma só potência militar dominante, que supervisiona as ações de seus aliados e sócios.
Com exceção de Hiroshima e Nagasak, a Segunda Guerra Mundial se caracterizou pelo uso de armas convencionais. A planificação de uma guerra mundial se baseia na militarização do espaço ultra terrestre.
Se uma guerra contra o Irã se inicia, não somente o uso de armas nucleares, mas toda uma gama de novos sistemas de armas avançadas, incluindo armas eletrônicas e técnicas de modificação ambiental, seria utilizada.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas
O Conselho de Segurança da ONU aprovou em princípios de junho último uma quarta rodada de sanções de grande alcance contra a República Islâmica do Irã, que incluem o embargo de armas e “controles financeiros mais estritos”.
Em amarga ironia, esta resolução foi aprovada poucos dias depois da negativa pura e simples do mesmo Conselho de Segurança em adotar uma moção de condenação ao Estado de Israel em seu ataque à Frota pela Liberdade em Gaza em águas internacionais.
Tanto a China quanto a Rússia, pressionados pelos EUA, têm apoiado o regime de sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas em seu próprio prejuízo. Suas decisões no CS contribuem para enfraquecer sua própria aliança militar, a Organização de Cooperação de Xangai (OCS), onde o Irã tem o estatuto de observador. A resolução do Conselho de Segurança congela os respectivos acordos de cooperação militar e econômica da China e da Rússia com o Irã. Isto tem graves repercussões no sistema de defesa aérea do Irã que, em parte, depende da tecnologia e da experiência russas. A Resolução do Conselho de Segurança outorga, de fato, “luz verde” para liberar uma guerra preventiva contra o Irã.
A inquisição estadunidense: construção de um consenso político para a guerra
Em coro, os meios de comunicação ocidentais têm qualificado o Irã como uma ameaça à segurança mundial por seu suposto (inexistente) programa de armas nucleares. Fazendo eco com as declarações oficiais, os meios de comunicação estão exigindo agora a aplicação de bombardeios punitivos dirigidos contra o Irã, a fim de salvaguardar a integridade de Israel.
Esse mesmos meios de comunicação fazem soar os tambores de guerra. O propósito é incutir na mente das pessoas, a partir da repetição de notícias até a exaustão, a idéia de que a ameaça iraniana é real e que a República islâmica deve ser “banida”.
O processo de criação de um consenso para fazer a guerra é similar ao da Inquisição espanhola. Requer e exige submissão à idéia de que a guerra é uma tarefa humanitária.
Contudo, conhecida e documentada, a verdadeira ameaça à segurança global vem da aliança EUA-OTAN-Israel; na verdade, a realidade por um ambiente inquisitorial é exatamente o seu oposto: os belicistas parecem estar comprometidos com a paz, enquanto as vítimas da guerra se apresentam como protagonistas do conflito.
Considerando que em 2006 quase dois terços dos norte americanos se opunham a uma ação militar contra o Iraque, uma recente pesquisa feita em 2010 pela Reuter-Zogby, indica que 56% dos estadunidenses são favoráveis a uma ação militar da OTAN contra o Irã. A construção de um consenso político que se nutre de uma mentira não pode, contudo, confiar somente na posição oficial daqueles que são a fonte da própria mentira.
Os movimentos pacifistas nos EUA, que em parte têm sido infiltrados e cooptados, assumiram uma posição fragilizada em relação ao Irã. O movimento contra a guerra está dividido. A ênfase se coloca contra as guerras que estão em andamento (Afeganistão e Iraque) ao invés de se oporem vigorosamente a guerras que estão sendo preparadas e que se encontram sobre o tabuleiro de xadrez do Pentágono.
Desde a posse de Barack Obama, o movimento contra a guerra perdeu muito da sua força. Por outro lado, aqueles que se opõem ativamente às guerras no Afeganistão e no Iraque, não se opõem necessariamente à realização de “bombardeios punitivos” contra o Irã, nem consideram essas ações como atos de guerra. Guerra esta que poderia ser o prelúdio da Terceira Guerra Mundial.
A escalada de protestos contra a guerra em relação ao Irã tem sido mínima em comparação com as enormes manifestações que precederam os bombardeios de 2003 e a invasão do Iraque.
Mas a verdadeira ameaça à segurança do mundo vem da aliança EUA-OTAN-Israel. À operação Irã, não se opuseram, no âmbito diplomático, tanto a China quanto a Rússia, sendo que conta também com o apoio dos governos dos estados árabes de primeira linha que integram o diálogo OTAN - Mediterrâneo. Conta também com o apoio tácito da opinião pública ocidental.
Fazemos aqui um apelo às pessoas de todos os países, nas Américas, Europa Ocidental, Turquia, Israel, em todo o mundo, a levantarem-se contra este projeto militar, contra os seus governos que apóiam a ação militar no Irã, a levantarem-se contra os meios de comunicação que servem para dissimular as devastadoras conseqüências de uma guerra contra o Irã. Esta guerra será uma insanidade.
A Terceira Guerra Mundial é terminal. Albert Einstein sabia dos perigos da guerra nuclear e da extinção da vida na terra, que já começou com a contaminação radioativa resultante do urânio empobrecido. “Não sei com que armas se fará a luta numa III Guerra Mundial, mas na IV Guerra Mundial se lutará com paus e pedras”. Os meios de comunicação, os intelectuais, os cientistas e os políticos, em coro, ofuscam a verdade não contada, ou seja, que a guerra que utiliza ogivas nucleares destrói a humanidade e que este complexo processo de destruição gradual já começou.
Quando a mentira se converte em verdade, já não há volta atrás. Quando a guerra se invoca como uma “tarefa humanitária”, a justiça e todo o sistema jurídico internacional são tomados ao contrário: o pacifismo e o movimento contra a guerra são criminalizados. Opor-se à guerra se converte num ato criminoso.
A mentira deve ser exposta como aquilo que é e o que faz: sanciona a matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças. Destrói famílias e pessoas. Destrói o compromisso das pessoas com os seus semelhantes. Impede as pessoas de expressarem sua solidariedade pelos que sofrem. Defende a guerra e o estado policial como a única saída. Destrói o internacionalismo.
Impedir a mentira significa impedir um projeto criminoso de destruição global. Nela, a busca do benefício é a força primordial. Este benefício, movendo a agenda militar, destrói os valores humanos e transforma as pessoas em zumbis inconscientes. Vamos inverter essa maré.
Desafio aos criminosos de guerra em seus altos cargos e em suas poderosas corporações, bem como aos grupos de pressão que os apóiam: fim da inquisição dos Estados Unidos da América. Fim da cruzada militar EUA-OTAN-Israel.Fechem as fábricas de armas e as bases militares. Retirada das tropas dos campos de guerra. Os membros das Forças Armadas devem desobedecer às ordens e negarem-se a participar de uma guerra criminosa.
(*) Michel Chossudovsky é laureado autor, professor (emérito) de Economia na Universidade de Ottawa e diretor do Centro para Investigação sobre a Globalização (CRG), Montreal. É autor de ‘La Globalización de la Pobreza y el Nuevo Orden Mundial’ (2003) e de ‘La guerra de América contra el terrorismo’ (2005). Também é colaborador da Enciclopédia Britânica. Seus escritos são publicados em mais de vinte idiomas.
Tradução do espanhol de Izaías Almada.
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Anistia
Brasil, sábado,14 Agosto 2010
Editoral
Anistia e reparação: questão de justiça
Qual é a abrangência de uma anistia política? Ela se limita ao "esquecimento" de acontecimentos que, na ditadura, foram considerados criminais por representarem a resistência contra o arbítrio, ou envolve também a reparação material de prejuízos causados pela perseguição política?
Estas são questões que voltam à pauta após a decisão do Tribunal de Contas da União de revisar pagamentos feitos a perseguidos políticos pela ditadura de 1964. A decisão envolve 9.371 benefícios já concedidos, com indenizações que atingem cerca de 4 bilhões de reais já pagos ou aprovados, entre eles a anistia a Carlos Lamarca e a reparação a seus familiares.
A decisão do TCU significa uma reinterpretação da lei que determina aquelas reparações. Ela não revê a condição de anistiado, mas os valores pagos, decisão que a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça considera anticonstitucional, chegando inclusive a encará-la como uma ameaça à Carta Magna. É uma tentativa de colocar limites - no caso, financeiros - à aplicação da lei que define a responsabilidade do Estado pelas violações de direitos humanos ocorridas sob sua égide.
As reparações são reguladas pelas leis 9140/95, que determina o reconhecimento pelo Estado por mortos e desaparecidos políticos, e 10559/02, que abrange todos os atos ditatoriais, incluindo tortura, prisão arbitrária, demissão e transferência por motivo político, sequestro, compelimento à clandestinidade e ao exílio, banimento, expurgos estudantis e vigia ilegal de adversários políticos. No caso de perseguidos políticos que perderam o emprego, a lei manda pagar os vencimentos retroativos a 1988, data em que a Constituição foi promulgada e considerada, assim, o marco final da ditadura militar de 1964.
A legislação brasileira que determina as reparações representa um avanço em uma área ainda marcada por limitações importantes, como a imunidade dos torturadores e agentes da repressão da ditadura militar, e a falta de acesso a informações completas sobre o destino de muitos que, em mais de vinte anos da Constituição de 1988, ainda são dados como desaparecidos.
Mas há um espírito democrático que orienta a legislação brasileira que obriga ao reconhecimento da responsabilidade do Estado e determina reparações simbólicas e materiais para as vítimas. Elas representam o ônus dos crimes cometidos por agentes da repressão e envolvem - diz o advogado Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça - um processo pedagógico de reconhecimento daquelas violações e também do direito aos povos de resistir contra a opressão, sendo por isso essencial para a democracia e sua consolidação.
Nesse sentido, qualquer restrição aos direitos dos anistiados a qualquer dessas reparações (simbólica e material) só pode ser avaliada como um atentado à democracia. A questão não é financeira, mesmo porque o volume dos valores envolvidos é proporcional ao número de pessoas anistiadas e à dimensão dos crimes cometidos pela repressão política da ditadura. A questão é política e diz respeito à responsabilização do Estado e seus agentes pelos danos causados pelos crimes da repressão. É uma questão de justiça.
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Portal Vermelho
Revisão das indenizações a anistiados é golpe contra democracia
“Quando o TCU se auto-concede competência que não está prevista na Constituição enfraquece a democracia”. A manifestação foi feita pelo presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Paulo Abrão, em entrevista coletiva nesta quinta-feira (12), para analisar a decisão do Tribunal de Contas da União, tomada ontem (11) de rever todas as reparações financeiras concedidas as vítimas da ditadura militar.O órgão quer revisar 9.371 benefícios já concedidos pela Comissão de Anistia, alegando que os valores são altos e que a medida representa economia para os cofres públicos.
Abrão apresentou justificativas jurídicas, políticas e históricas para se opor a decisão e disse que o Ministério da Justiça pretende adotar todas medidas cabíveis para evitar que ela se efetive. “A Comissão de Anistia manifesta preocupação no sentido de que a decisão do TCU incorra em um equívoco jurídico, político e um retrocesso histórico”, diz a nota da Comissão distribuída aos jornalistas
Para Paulo Abrão, a proposta do TCU, baseada no argumento de que as pensões dos anistiados políticos equivalem aos benefícios pagos pela Previdência Social, vai de encontro a lei criada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional. A lei, de 2002, diferencia as pensões pagas aos anistiados ao criar o “regime jurídico do anistiado político” e estabelece que os valores pagos são de caráter indenizatório.
E lembrou ainda as regras de decadência do Estado para rever atos, lembrando que se passaram 10 anos e já foram julgados 57 mil casos, faltando apenas nove mil, que devem ser concluídos no período de dois a três anos, encerrando o “projeto de reconstrução cívica entre o cidadão e o seu próprio Estado que o violou no passado”.
“Criar procedimento revisor, que não foi declarado às vítimas, causa incerteza e insegurança”, alerta ele, enfatizando que representa uma “dupla violação” às vítimas da ditadura.
Ponto positivo
Segundo o Presidente da Comissão de Anistia, se existe um ponto positivo nessa proposta é permitir o debate sobre o assunto. “O ponto positivo é criar oportunidade para que as vítimas do regime usufruam de mais palanque para contar suas histórias”, destaca Abrão.
Ele se queixa de que todos os casos de arbitrariedade e mortes cometidos pela ditadura julgados na Comissão de Anistia não receberam a mesma atenção da imprensa como fatos como esses, quando se questiona as reparações feitas pelo Estado brasileiro às vítimas da repressão.
A proposta do TCU assim como a decisão da Justiça do Rio de Janeiro de suspender o pagamento de pensão de 55 camponeses do Araguaia representam reveses na condução do processo de redemocratização do País. Segundo Abraão, “nós ainda vivemos um estado de negação. A ausência da abertura dos arquivos da ditadura mantém um estado de questionamento, que representa um prejuízo horroroso e dá espaço para essas atitudes”, avalia.
E acrescenta que a negação, a relativização (como a definição de ‘ditabranda’ pelo jornal Folha de São Paulo) ou transformação em questão contábil é justificação para as violações.
A coletiva foi acompanhada por dezenas de anistiados. Após a fala de Paulo Abrão, o vice-presidente da Associação de Ex-Presos Políticos de São Paulo, Ivan Seixas, também falou. E disse que “nós enfrentamos a tortura, os assassinatos, vamos enfrentar essa medida”.
De Brasília
Márcia Xavier
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Guerra Afegã
Chico Villela
Um site e um livro fazem mais que dez mil discursos para expor sem retoques o fracasso da política de guerra no Afeganistão e da política de alianças para a ‘Guerra ao Terror’ capitaneada pelos EUA e seguida, sem voz nem opinião, pelos aliados da OTAN. O site é http://wikileaks.org. O livro , “Diplomacia Suja”, do ex-embaixador britânico no Uzbequistão Craig Murray, escocês beberrão, namorador e de coragem digna de monumento, será analisado em texto próximo.
Pinçado de discurso de campanha de BHObama: "Eu não quero apenas pôr fim à guerra; eu quero pôr fim à atitude que nos leva à guerra em primeiro lugar".
No dia 25 de julho passado, simultaneamente, os jornais The New York Times e o britânico Guardian e a revista alemã Der Spiegel dedicaram várias páginas ao tema que abala os governos aliados no momento. Fornecidos pelo coletivo de ativistas políticos conhecido pelo nome WikiLeaks, fundado em dezembro de 2006, os três meios expuseram suas leituras de cerca de 75 mil registros militares dos EUA e de países da OTAN na guerra do Afeganistão, nomeados de Diário da Guerra Afegã. Os arquivos haviam sido passados aos jornais e à revista tempos antes, com a condição de que analisassem e só iniciassem a divulgação de suas leituras no dia 25 de julho.
WikiLeaks reúne um restrito grupo de jornalistas, especialistas em segurança eletrônica e analistas, apoiados por cerca de 800 voluntários em todo o mundo, que se dedicam a revelar segredos principalmente de governos, serviços de Inteligência e grandes corporações. O intuito do grupo é trazer ao debate público temas de elevada gravidade que, por isso mesmo, quase nunca chegam às fontes de divulgação. Em entrevista à Der Spiegel online, Julian Assange, 39 anos, fundador e condutor do Wikileaks, sumariza: “Não é Wikileaks que decide revelar algo. É um ‘whistleblower’ ou um dissidente que decide revelar. Nosso trabalho é garantir que essas pessoas sejam protegidas, o público seja informado e o registro histórico não seja negado”.
Em 2009, Wikileaks recebeu o prêmio Mídia da Anistia Internacional pela revelação das mortes extra-judiciais de responsabilidade da polícia do Kenia. Antes dessa maciça distribuição de registros secretos, o coletivo WikiLeaks havia revelado um vídeo militar gravado em Baghdad que mostra dois soldados dos EUA num helicóptero matando cerca de uma dezena de civis numa praça. Dois deles eram repórter fotográfico e auxiliar de fotógrafo da agência Reuters. O fato foi comentado em blog desta NovaE. A abertura do texto destaca os objetivos do Wikileaks.
Do total de cerca de 91 mil registros, pouco mais de 15 mil foram separados para posterior análise mais aprofundada e divulgação. Os 75 mil registros abordam temas como IED (mecanismos explosivos improvisados, maior responsável por mortes de aliados); operações ofensivas; fogo inimigo; encontros com possíveis forças hostis; diálogos com velhos líderes tribais em aldeias; número de feridos, mortos e detidos, entre civis, soldados aliados, tropas afegãs e combatentes inimigos; seqüestros; informação de inteligência mais ampla e avisos explícitos de ameaças interceptadas via rádio; relatos locais da polícia e tropas afegãs; considerações sobre falta de equipamentos e suprimentos. O período coberto vai de 2004 ao fim de 2009.
Encontram-se também registros de Inteligência dos marines, de embaixadas dos EUA, relatos de corrupção do governo local e trabalhos de desenvolvimento no país. Todos os 75 mil registros podem ser encontrados catalogados neste endereço, Diário da Guerra Afegã, que apresenta também, em inglês, esclarecimentos necessários à sua plena compreensão e um mapa com as locações dos fatos registrados. Uma tradução para português pode ser vista nesta edição do site resistir.info.
Alguns aspectos destacados
BHObama - O presidente BHObama foi praticamente forçado a vir a público dizer algumas palavras sobre o maior vazamento de informações secretas da história militar dos EUA de uma guerra em andamento. Previsivelmente, afirmou que as revelações não são originais, e que nenhum fato novo surgiu dos registros. Curiosamente, faz o percurso contrário de alguns dos seus mais altos conselheiros, que alegam ser o vazamento uma ameaça aos soldados em campo e à segurança do país. Não é bem assim. Não há fatos novos para o presidente e altos conselheiros, o que os coloca, aliás, em situação incômoda perante tantos crimes e acobertamentos.
Mas há uma realidade absolutamente nova: o mundo inteiro pode ter acesso aos fatos sempre ocultos que agora podem ser vistos nos registros. Não existem ameaças, e há revelações sem conta, algumas de elevada gravidade. E há fatos que, mesmo conhecidos, como a morte de civis acima do que a grande mídia divulga, ganharam peso decisivo pela magnitude dos números e a manipulação de informações.
Mortes de civis - Analistas enxergam a morte indiscriminada de civis como a grande fonte de recrutamento do Taleban: a cada aldeia atingida, mais e mais jovens aderem à guerra. E ganham para tanto, o que, num país miserável, é dado de relevância.A mídia só divulga raramente. O site destaca as vítimas civis, “pequenas tragédias”que nunca merecem notícia pela mídia, mas que formam a maior parte das mortes e dos ferimentos e nutrem o crescente ressentimento da população contra os invasores.
A análise mostrou que há gradações de ênfases e verdades conforme variam os focos dos registros. A falsificação de dados começa em campo. “No relato de suas próprias atividades, as unidades euamericanas inclinam-se a classificar mortes de civis como morte de insurgentes, reduzir o número real de mortos ou apresentar desculpas para si mesmos.” Os relatos sobre outras unidades são mais verdadeiros, mas com raro criticismo. Já relatos sobre ações dos aliados tendem à franqueza e ao criticismo. E relatos sobre o Taleban e outros grupos de combatentes trazem detalhes e exposição de comportamentos condenáveis.
Nas palavras de Assange em entrevista à ativista Amy Goodman: “Então esse gênero de relato corrupto começa no campo e então é movido para cima através do Pentágono e do pessoal de relações com imprensa e é então colocado em uma forma politicamente digerível”. Assange reage com ironia à afirmação de Goodman de que o Pentágono empenha-se na identificação criminal das fontes: declara que, antes de preocupar-se com as fontes, o governo deveria ocupar-se em investigar os crimes de guerra relatados nos registros.
Segurança pessoal - Sobre sua segurança, Assange revelou que pessoas informadas como o celebrado repórter investigativo Seymour Hersh fizeram chegar a ele recomendações para cuidar-se. Um ex-diplomata australiano e jornalista especializado em segurança nacional alertou-o de que o governo dos EUA tentou articular-se com o pessoal de Inteligência australiano (Assange é cidadão do país) para vigilância e posterior detenção do pessoal do Wikileaks na Austrália. Segundo a fonte, o governo australiano rejeitou com ênfase a colaboração, por razões políticas.
Quanto à vigilância no Reino Unido, que é conhecida e permanente e foca milhares de pessoas, Assange não teme conseqüências, pelas extensas repercussões que teria qualquer ação na mídia e nos meios políticos e de governo locais. E, claro, não pretende ir aos EUA.
Esquadrões da morte - Outra revelação de peso foi a confirmação do papel de grupos secretos, esquadrões da morte pesadamente armados formados por militares ou agentes das CIA, nas mortes de civis. A ação desses grupos tem origem no gabinete do ex-vice de Bush, Dick Cheney, que montou um grupo ligado ao Pentágono (as suas relações com a CIA não eram boas) dedicado a assassinatos de alvos escolhidos mundo afora, e entregou seu comando ao general Stanley McChrystal, anterior comandante das forças invasoras no Afeganistão. O tema já foi tratado em alguns artigos desta NovaE.
O que se torna transparente nos registros é a falta de informação segura e de critérios para os agentes, que se deslocam pelo país, em geral em ações noturnas, para assassinar líderes insurgentes. Em centenas de casos, mulheres e crianças e outros inocentes foram vítimas desses assassinos. Como anota o NYT, a CIA pagou durante o período as despesas da agência afegã de Inteligência, e usa seus serviços como se fosse os de uma subsidiária. Um erro reconhecido dos invasores foi instituir pagamento em espécie para denúncias de presença e operações inimigas. Na impossibilidade ou lentidão de verificação sobre a veracidade da denúncia, a máquina de matar move-se mais rápido.
Artigo do analista Alex Lantier no World Socialist Web Site descreve dois desses momentos colhidos nos registros. Em 11 de junho de 2007, na busca por um líder taleban próximo a Jalalabad, no leste afegão, um comando da Task Force 373 foi surpreendido pelas luzes de um holofote. Um helicóptero de combate chamado pelo comando à cena eliminou a ameaça e revelou a surpresa: sete policiais afegãos foram mortos e quatro, feridos, no que se conhece como “fogo amigo”.
Em outro evento comando da Task Force 373 aproximou-se da aldeia de Nangar Khel, província leste de Paktika, onde presumivelmente se encontrava abrigado o líder Abu Laith al-Libi. O plano previa o disparo de seis mísseis e posterior ataque por terra. Além de não encontrar o líder taleban, verificou-se que seis adultos locais e oito crianças de uma madrassa (escola muçulmana) foram mortos. Os adultos foram descritos como insurgentes do Taleban.
(Dia 5 de agosto o governo afegão liberou o resultado de um inquérito sobre um raid aéreo das forças da Otan durante uma batalha na região de Sangin, província de Helmand, segundo eles, com 'insurgentes'. Uma casa foi bombardeada. Dentro da casa, morreram 39 mulheres e crianças, que haviam se abrigado ali para fugir do fogo cruzado. Nenhum adulto, nenhum insurgente. A Otan havia declarado que haviam morrido 6 pessoas, a maioria, militantes.)
A voz de Julian Assange e a origem dos registros
Julian Assange concedeu recentemente entrevistas após o início da divulgação pelos três meios citados. Um dos aclaramentos de Assange é que o WikiLeaks, ao contrário do que se pensa e divulga, não é um site “colaborativo”, como a Wikipedia. Ninguém consegue postar revelações e denúncias, apenas encaminhá-las ao grupo de direção. O site só publica material inédito. Todas as informações são criteriosamente checadas. Não são aceitas, por exemplo, revelações de ordem pessoal, apenas políticas, econômicas, militares, de Inteligência, etc.
O Guardian estampou artigo de Nick Davies, um dia após o início das publicações pelo jornal, reproduzido pelo site ativista Countercurrents, com a história da origem dos registros da guerra afegã. Para Davies, o receio de Washington é que WikiLeaks detenha material mais sensível ainda, algo como dezenas de milhares de mensagens de embaixadas sobre acordos de armamentos, conversações de comércio, reuniões secretas e opiniões sem censura de governos. O Wikileaks nega a afirmação, atribuída a Manning pela revista Wired, de que tenha recebido “260 mil despachos de embaixadas” euamericanas de todo o mundo.
Assange relata que foi instado pela área de investigações criminais do Pentágono a auxiliar a interromper a corrente de informações, mas recusou-se. Nos dois últimos meses, WikiLeaks recebeu muita informação, “material de alta qualidade”, de fontes militares. Amparado por lei sueca (os provedores alojam-se em países que resguardam o sigilo das fontes, como Suécia e Noruega), Wikileaks jamais revela as suas fontes, e todo material encaminhado é cuidadosamente analisado para que eventuais pistas sobre fontes sejam eliminadas.
Davies relata que o Pentágono agiu devagar. Segundo o que se divulga e que a revista Wired publicou, em novembro passado, alguém a trabalho em uma unidade de alta segurança numa base militar do Iraque iniciou há meses a cópia de materiais secretos. Em 18 de fevereiro, Wikileaks publicou documento classificado altamente comprometedor da embaixada dos EUA em Reikjavik, Islândia. Alguns colaboradores de WikiLeaks no país passaram a informar sua impressão de estarem sendo seguidos.
Bradley Manning - Em maio, um hacker californiano, Adrian Lamo, amigo do editor da revista Wired, foi contatado por chat por alguém com nome Bradass87, que se abriu de imediato: “olá... tudo bem? ... sou um analista de inteligência do exército, alojado em baghdad... se você tivesse acesso sem precedentes a redes classificadas, 14 horas por dia, 7 dias por semana por 8 meses, o que você faria?” Davies (Assange) relata que, por uma semana, Bradass87 abriu seu coração com Lamo. Tinha acesso a duas redes secretas: Secret Internet Protocol Router Network, SIPRNET, que transmite informações diplomáticas e militares classificadas como “secretas”, e a Joint Worldwide Intelligence Communications System, que usa um sistema de segurança diferente para transmitir material classificado como “ultra secreto”.
Bradass87 declarava que via coisas terríveis, inacreditáveis, a versão não oficial de fatos e crises, e que aquilo precisava cair no domínio público. Bradass87 indicou a Lamo que “alguém conhecido intimamente”(logo após, contou que ele mesmo fazia o serviço) estava baixando, comprimindo e criptografando o material e enviando a alguém chamado Julian Assange. Em 23 de maio, Lamo (anteriormente condenado por invasão do site do NYT) contatou autoridades militares nos EUA; dia 25, encontrou-se com oficiais do Pentágono numa lanchonete e forneceu as pistas de Bradass87. No dia seguinte, 26, um jovem de 22 anos, Bradley Manning, analista de Inteligência numa base próxima a Baghdad, foi preso e enviado a uma prisão militar no Kwait.
Solidariedade - Manning acha-se hoje preso numa base nos EUA, em Virginia, e deverá enfrentar corte marcial. Pesam contra ele oito acusações que podem somar 52 anos de prisão. Seu nome já foi incluído em vários sites de ativistas militares (veja um exemplo de site) entre os perseguidos que necessitam defesa perante acusações como traição, deserção etc. Um trecho da carta enviada aos assinantes do site afirma: “Agora, o analista de Inteligência Bradley Manning está na berlinda e pode passar décadas na prisão por liberar um vídeo de um massacre em Baghdad”. A corrente se amplia, como se vê nesse movimento do site Courage to Resist.
Outra iniciativa é o blog criado pelo radialista Mike Gogulski, de Los Angeles, dedicado à defesa de Bradley Manning. Notícia da página do blog informa sobre um show promovido pela rádio KPFK com apoio de Scott Horton, titular do site Antiwar.com. O programa anunciou entrevistas com Daniel Ellsberg e Julian Assange. O site de Ellberg traz entrevista sobre os registros da Wikileaks.
O Pentágono ainda não sabe se há mais envolvidos, e quantos seriam, e o único acusado por enquanto é Manning. O analista do Pentágono que revelou nos anos 1970 os famosos “Papéis do Pentágono”, Daniel Ellsberg, anunciou que Assange corria risco físico, e que as agências de Inteligência euamericanas fariam tudo para tornar o caso exemplar. Por cautela, Assange cancelou uma viagem programada a Las Vegas e permaneceu na Europa.
Acerto - A estratégia de oferecer os dados aos dois jornais e à revista, com data marcada para o início do noticiário, mostrou-se acertada e segura, e garantiu divulgação mundial aos registros da guerra afegã. Agora, Assange confirmou ao Guardian que está de posse de milhões de registros de operações dos EUA pelo mundo, e que em breve irá publicar. Alega possuir informações de todos os países acima de 1 milhão de habitantes. Fica evidente que a estratégia da Wikileaks é condicionada e tornada possível pela existência e abrangência democrática da internet.
Assange manifesta receio de ver o site crescer e não poder honrar os materiais que, pensa, vão fluir cada vez mais ao WikiLeaks. Conta que, após revelar a morte de 51 civis num incidente no Afeganistão, houve aumento substancial de ofertas. Nas suas palavras, “a coragem é contagiosa”. E não vê diferenças entre os fatos do período dos registros e a situação atual sob BHObama: “As forças armadas dos EUA são um barco grande demais para fazer meia-volta”.
Mistério – Uma semana após a liberação do Diário da Guerra Afegã, o site do WikiLeaks passou a exibir um “arquivo de segurança”, de 1,4 gigabytes. Muitas especulações vêm sendo levantadas sobre o fato. Alguns imaginam que seja algo que possa ser aberto mediante senha em caso de ocorrer algo a Assange ou seus colaboradores. Nesse caso, constituiria uma medida preventiva, e a senha seria fornecida por alguém já designado. Outros imaginam que sejam os 15 mil registros que ainda não foram divulgados, ou mesmo os tais 260 mil memorandos e despachos de embaixadas citados como de Manning pela revista Wired e negados pelo WikiLeaks.
Paquistão e Inter-Services Intelligence – ISI
Uma das revelações, ou reforço de conhecimento, mais explosiva dos registros refere-se ao papel do ISI, agência de Inteligência paquistanesa, perante as forças combatentes no Afeganistão, em especial o Taleban. Durante a invasão soviética, entre 1980 e 1989, os combatentes muçulmanos foram armados e treinados por agentes do ISI, que intermediava verbas, armamento e orientações da CIA, e não raro os próprios agentes da CIA assumiam a frente dos eventos. O ISI fortaleceu-se sob as benesses da CIA e a colaboração com o Taleban. Afastado o ditador Pervez Musharraf, e após a morte de Benazir Bhuto em atentado, seu viúvo Azif Ali Zardari assumiu a Presidência. Havia sido ministro voltado para indústrias e empresas, em governo anterior de Bhuto, ocasião em que ficou conhecido pela vasta corrupção.
O Paquistão é uma sociedade dominada por poucas famílias com fortunas, também grandes proprietárias de terras, que residem nos EUA, em Dubai e no Reino Unido. Recente pesquisa mostrou que 6 em cada 10 paquistaneses consideram-se inimigos dos EUA e querem os invasores fora do Afeganistão. Boa parte do ISI é formada por profissionais, e são esses profissionais que emergem dos registros como apoiadores, orientadores e fornecedores de armamento para o Taleban. Criado em 1947 pelos britânicos, como solução para alojar a parcela muçulmana da região, o Paquistão tem fronteira artificial com o Afeganistão, e a maior parte dessa fronteira, a Linha Durand, montanhosa e inóspita, é habitada dos dois lados pelos mais de 20 milhões da milenar etnia pashtun, base social do Taleban.
Ajuda - A colaboração do ISI com o Taleban coloca problemas de difícil solução para o governo dos EUA. Bilhões fluem todo ano para os cofres do governo, e sem dúvida para bolsos também, em nome da “ajuda” dos EUA ao país, e seus atuais governantes e chefes militares são beneficiários dessas verbas. O Paquistão detém armas nucleares, e é um assunto delicado manter a fidelidade dos seus mandantes aos combalidos princípios da ‘Guerra ao Terror’, cada vez de mais difícil defesa.
A citada ajuda é sempre basicamente militar. Em entrevista há uns meses ao londrino The Times, o ex-ditador Musharraf declarou que boa parte das verbas para ações anti-terrorismo sempre foi empregada em compra e desenvolvimento de armamento. O analista Gulam Mitha sintetiza o significado da ajuda para a população: “a) inflação crescente; b) carência de alimentos; c) aumento de ataques terroristas; d) instabilidade em ascensão; e) pouca energia e combustíveis; f) mais pretextos de assassinatos de civis pelos drones”. O jornal paquistanês Dawn informa que a proporção que reflete a ineficiência desses bombardeios por drones é avassaladora: para cada 1 insurgente morto, morrem 140 civis. Como no Afeganistão, isso alimenta a oposição e o ódio da população aos EUA.
Amigos e pressões - Entre 17 e 24 de julho ocorreu na região intensa movimentação de autoridades aliadas. Mitha cita: enviado especial Richard Holbrooke, conhecido como “Bulldozer”, dia 17, um dia após os primeiros-ministros da Índia e do Paquistão se encontrarem / Hillary Clinton chegou dia 18, e ambos se encontraram com o presidente Zardari, o primeiro-ministro Gilani, o ministro do Exterior Qureshi e o chefe militar Kayani / O secretário da OTAN, general Anders Rasmussen, chegou dia 21 / O comandante geral euamericano Mike Mullen veio dia 24, após dois dias de visita à Índia. A movimentação pode ter relação com os rumores de ataques ao Irã e a “um país árabe”, talvez a Síria. Pouco antes, o primeiro-ministro britânico David Cameron havia cumprido visita oficial à Índia.
O combate das forças armadas paquistanesas aos insurgentes Taleban que se alojam do lado paquistanês da fronteira tem sido inconvincente aos olhos de planejadores da guerra euamericanos e aliados, e o fato de o ISI agir contra as diretrizes do governo-cliente dos EUA gera graves dúvidas sobre o desenrolar dos acontecimentos. As revelações dos registros sem dúvida reforçam a posição dos falcões que desejam ampliar a guerra sem fronteiras, incluindo até mesmo o Irã. Mas, ao mesmo tempo, abalam e relativizam os planos e jogam sombras densas sobre as certezas de quem é “amigo” e quem é “inimigo”, dado que nem mesmo no Afeganistão ocupado é claro.
A rede de comunicação árabe Al JAzeera analisou a questão em artigo recente. Apoiada na análise do NYT, Al Jazeera afirma que os documentos mostram que o Paquistão (leia-se áreas do ISI) “estimula representantes de seu serviço de Inteligência a contato direto com o Taleban em sessões estratégicas secretas para organizar redes de grupos militantes para lutar contra os soldados americanos no Afeganistão, e até mesmo empreender complôs para assassinar líderes afegãos”. O embaixador paquistanês nos EUA reagiu como se esperava: “Estados Unidos, Afeganistão e Paquistão são parceiros estratégicos e acham-se juntos dedicados a derrotar Al Qaeda e seus aliados Taleban militar e politicamente”.
A revelação de que o Taleban tem derrubado aviões e helicópteros com mísseis terra-ar surpreendeu os meios leigos que acompanham a guerra e levantou interrogações sobre a procedência do armamento, pela qual são acusados o Paquistão-ISI e o Irã, talvez para não se perder esta chance de demonizar o Irã mais uma vez. O ISI também é associado nos registros à formação e treinamento, a partir de 2006, da rede de combatentes suicidas que se explodem para eliminar tropas e outros alvos. O ex-chefe do ISI entre 1987 e 1989, general da reserva Hamid Gul, periodicamente é acusado, como neste momento, de manter laços com o Taleban.
Complicantes - Outros fatores complicantes são, além da citada presença de armas nucleares em mãos militares, o uso do território paquistanês como forte pólo de apoio logístico para abastecimento das tropas no Afeganistão e os citados bombardeios de partes do território paquistanês com aviões sem pilotos (drones), para "desalojar fortalezas da Al Qaeda e do Taleban". No panorama desvendado pelos registros, as resistências no governo e no país podem vir a afetar o desempenho das tropas aliadas nos combates. Morrem sempre mais civis inocentes que combatentes em qualquer bombardeio, principalmente nesses bombardeios pretensamente “cirúrgicos”, em todo o mundo.
Atores - Mas acima dos complicantes paira a situação estratégica do Paquistão e das forças apoiadas e as opostas ao seu papel regional. As facções afegãs armadas dos wardruglords Gulbuddin Kekmatyar e Jalaluddin Haqqani recebem apoio paquistanês, mas as forças da Aliança do Norte, basicamente compostas por tadjiques e uzbeques, que perfilam com o governo de Karzai e os aliados, são apoiadas pela Índia, adversária do Paquistão, com o qual já entrou em guerra três vezes desde 1947, e gozam da simpatia da Rússia. O imbroglio completa-se com o fato de o maior aliado do Paquistão ser a China. Um ataque às forças paquistanesas arrastaria toda a região para uma perigosa e incerta situação de confronto generalizado.
Para o analista indiano Aurobinda Mahapatra, em artigo no site russo Strategic Culture Foundation, pode ser que o recado principal das revelações dos registros seja indicar a necessidade inevitável de ações conjuntas regionais, acima da ação isolada dos EUA, para que a situação possa ter possibilidade de desenlace. Mahapatra cita também a essencial participação de Rússia, Índia e China numa aproximação multilateral para solucionar a complexa equação chamada Afeganistão.
Choques - Ao tratar do tema num dos artigos de lançamento mundial dos registros do dia 25 de julho, com a manchete “Paquistão ajuda insurgentes no Afeganistão, afirmam registros”, o NYT anota: “Os registros sugerem, no entanto, que os militares paquistaneses têm agido duplamente como aliados e inimigos, já que sua agência de espionagem age como o que oficiais americanos há tempos suspeitam ser um jogo duplo – concordando com certas demandas para cooperação enquanto se esforçam para exercer influência no Afeganistão por meio das mesmas redes de insurgentes que os americanos tentam eliminar”.
Na semana passada, agências noticiaram que o chefe do ISI, general Ahmed Shujaa Pasha, cancelou visita que faria a Londres acompanhado de experts seniores para discutir cooperação e segurança. A medida decorreu de declarações do primeiro-ministro britânico, David Cameron, em visita a Bangalore, Índia, de que o Paquistão exporta terroristas e faz “jogo duplo”. A declaração enfureceu os meios militares e de governo paquistaneses, não tanto pelo seu teor, sem novidade, mas pelo fato de ter sido feita durante visita oficial à arquiinimiga Índia. As acusações vêm sendo estendidas também aos agentes espiões do Afeganistão, já que há registros com informações de que alguns deles também colaboram com o Taleban. Ocorrem também deserções de tropas afegãs treinadas e armadas pelos invasores, com freqüência acompanhadas de armamento pesado a até mesmo veículos.
O atual comandante das forças armadas paquistanesas, autoridade suprema sobre as ações de combate à Al Qaeda e ao Taleban e homem forte do regime, general Parvez Ashfaq Kayani, dirigiu o ISI entre 2004 e 2007, período ao qual se referem muitos dos registros de cumplicidade da organização com o Taleban. Tudo indica que atualmente há satisfação da parte dos EUA com as medidas de “depuração de colaboradores do Taleban” dos quadros do ISI pelo general, o que confirma, aliás, a participação de áreas do ISI contra os aliados.
A face real da guerra
O que se destaca das análises paralelas e das leituras empreendidas por especialistas, jornalistas e estudiosos é uma seqüência de eventos de inexcedível violência e brutalidade repleta dos classificados ‘crimes de guerra’, com erros elementares de estratégia e operação, e com repetição de velhos comportamentos como o assassinato indiscriminado de civis, dado que já havia contribuído enfaticamente para afundar as forças armadas euamericanas no pesadelo do Vietnã. O que se situa no foco central não é mais a guerra apenas, é todo o sistema organizado que há décadas vem criando situações similares e movimentando sua economia em torno da guerra e seus desdobramentos.
Discursos - Uma constatação fundamental domina as análises: após a mais longa guerra externa da história dos EUA, que já acumula 9 anos, o inimigo nunca foi tão forte, nem mesmo quando enfrentou os invasores em 2001 e foi deposto do governo. Nesse cenário, falar em “vencer” a guerra é mero discurso para arrancar mais recursos do Congresso. Na última votação, e de modo surpreendente, os republicanos, menos 12, aprovaram mais algumas dezenas de bilhões de dólares para as tropas, e mais de uma centena de democratas, do partido do presidente, votaram contra.
A aparente contradição sinaliza que os democratas acham-se apreensivos com as derrotas que têm sofrido em eleições parciais e de olho nas próximas eleições de 2012, ocasião em que, espera-se, BHObama pleiteará reeleição. Se não se pode vencer, resta sair, e aí reside o dilema avassalador: sair como? O Great Game (Grande Jogo) que há séculos desenrola-se em torno da Ásia Central e adjacências não admite lances desse gênero.
Corrupção - Outra face é a da oceânica corrupção, campo no qual os contratados particulares euamericanos e aliados para trabalhos de toda ordem, civis e militares, e fornecedores de quase todos os insumos usados pelas tropas competem com o inacreditavelmente corrupto governo do fantoche Hamid Karzai. O próprio vazamento de documentos sensíveis e de registros parece ser tendência inevitável, já que a atividade de Inteligência do governo e das forças armadas euamericanas vem sendo apoiada, segundo pesquisas do jornal Washington Post, por 854.000 contratados com acesso a informações de segurança. O preço de cada litro de combustível, trazido por terra e ar, colocado em campo no Afeganistão, somadas todas as despesas das fontes ao destino, anda pela casa dos 400 dólares. O custo da guerra na região já ultrapassou 1 trilhão de dólares (hoje, US$ 1,022,919,408,133).
Drogas - Após cair a quase zero durante o odioso regime do Taleban, a produção de ópio voltou com força total após a invasão em 2001. Hoje o Afeganistão responde novamente por mais de 90% da produção mundial. Os senhores da guerra, warlords, que são os mesmos senhores das drogas, druglords, deixam crescentemente de exportar ópio e, agregando valor ao seu produto, vêm refinando no país mesmo e exportando heroína. Gozam de facilidades imensas para importar os produtos químicos usados no processo.
Um dos donos do tráfico é Ahmed Karzai, irmão do presidente, que governa uma província e colabora com a CIA. São estimados cerca de 1 milhão de consumidores apenas no Afeganistão, e 15 milhões em todo o mundo, dos quais morrem uns 100 mil todo ano. Os invasores, como precisam de muitos dos seus serviços e colaboração, além de seus exércitos bem armados, fazem vista grossa. Ultimamente, vem aumentando de forma veloz a produção de haxixe, conforme depoimento de Antonio Maria Costa, chefe do serviço da ONU dedicado ao combate a drogas e crime.
A heroína afegã escoa para Rússia e Irã e para a Europa, onde o narco-Estado balcânico de Kosovo é o maior distribuidor mundial da droga. Kosovo foi criado pelos EUA-OTAN, e desde então é dirigido pelos chefes do tráfico. O tema, considerado pela Rússia e outros países ameaça mundial, nunca foi sequer discutido no Conselho de Segurança da ONU. Ao mesmo tempo, cerca de 8% do comércio mundial, ou 600 bilhões de dólares, envolvem drogas. Segundo o chefe russo do combate ao tráfico de drogas, Viktor Ivanov: “A declaração antidrogas da ONU não tem efeito. A OTAN nunca agiu para combater o tráfico afegão de droga e não parece interessada em fazer algo a respeito”.
Divergências - Um dos aspectos que se destacam nos registros e nas análises é a constatação da ausência de diretrizes firmes e políticas sólidas. O ex-analista da CIA Ray McGovern, em artigo recente, descreve as opiniões do ex-embaixador no Afeganistão, general da reserva Karl Eikenberry, sobre o pedido de mais tropas pelo então comandante local, general Stanley McChrystal.
Eikenberry anota em despachos enviados à Casa Branca, que fazem parte dos registros revelados: “Mais tropas não vão pôr fim à insurgência enquanto os santuários paquistaneses continuarem – e o Paquistão enxerga seus interesses estratégicos mais bem servidos com um vizinho fraco”. E ainda: “[...] nós nos tornaremos mais profundamente envolvidos aqui sem meios de escaparmos”. Ao mesmo tempo, escrevia: “Não é um parceiro estratégico adequado”, referindo-se ao presidente Karzai. Veja aqui os dois originais dos memorandos de Eikenberry.
Logo após, o Der Spiegel publicou, em novembro de 2009, uma entrevista com o conselheiro de Segurança Nacional do governo BHObama, general da reserva da Marinha James Jones. À pergunta sobre o pedido de mais tropas de McChrystal, Jones respondeu: “Generais sempre pedem mais tropas; eu penso que não vamos resolver o problema com mais tropas apenas. Você pode colocar tropas, e você poderia ter 200 mil tropas lá, e o Afeganistão irá deglutir (swallow) eles, como tem feito no passado”. BHObama acabou concedendo mais 30 mil tropas.
Números - O objetivo de um comando de tropas que sai a campo hoje no Afeganistão não é mais ganhar a guerra: é não perder e, ao mesmo tempo, tentar realizar o discurso de “proteger os civis”, que morrem às pencas pelas suas próprias mãos. Apenas na semana passada, 50 civis foram mortos de uma vez num ataque da OTAN. Morrem também pelas mãos do governo, que abafa com massacres manifestações de protesto e resistência popular. Há 237 registros de manifestações populares contrárias aos invasores e ao governo, muitas delas reprimidas e com dezenas, às vezes centenas, de mortos.
Firma-se entre todos os níveis das tropas a certeza de que a guerra afegã não pode ser ganha, inda mais num país que tem longa tradição de derrotar todos os seus invasores desde Alexandre, o Grande, três séculos antes de Cristo, e cujos povos se enraízam em seus territórios. Isso pode ser lido com clareza nos próprios registros: são 13.734 de “ação amiga” (EUA-OTAN), contra 27.078 de “ação inimiga” e 23.082 de “eventos com explosivos”, principais responsáveis pelas mortes de tropas. Salta aos olhos a mentira oficial de atribuir a maior parte dessas dezenas de milhares de ações à minúscula Al Qaeda.
Nem mesmo unidade existe entre os aliados da OTAN e os EUA sobre os objetivos comuns. Um ex-comandante das forças britânicas retirou-se do comando no Afeganistão disparando severas críticas contra o governo britânico e o então primeiro-ministro Tony Blair. Recentemente, o presidente alemão foi forçado a renunciar por declarações feitas durante visita ao Afeganistão. O Atlantic Council, site ligado à OTAN, publicou dia 7 de julho declarações polêmicas do general francês Vincent Desportes sobre as operações afegãs. A repórter do jornal Le Monde, Desportes declarou que a situação da guerra “nunca havia sido pior”. Afirmou: “É uma guerra americana”. “Os aliados não têm voz na estratégia.” Desportes serápunido pelas declarações.
Para quê? - Em recente ensaio, em que analisa as guerras hoje e seus impasses, o professor de História da Universidade de Boston e militar da reserva Andrew Bacevich lembra pergunta famosa da ex-secretária de Estado Madeleine Albright sobre a inutilidade do arsenal nuclear, gigantesco, que nunca poderia ser usado. E apresenta a pergunta: de que adianta usar constantemente nossos soberbos recursos militares se isso hoje não funciona mais?
E complementa: “A recusa de Washington em encarar essa questão fornece uma medida da corrupção e desonestidade que permeia nossos políticos”.
extraído do sítio NovaE
http://redecastorphoto.blogspot.com/2010/08/diario-da-guerra-afega.html
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Tornozeleiras
16/08/2010 12:55
O superintendente dos Serviços Penitenciários, Mario Santa Maria Junior, estará à disposição da imprensa, nesta segunda-feira (16/08), às 16h, na Susepe (Rua Voluntários da Pátria, 1358), 4º andar, saguão da Ala Norte, Porto Alegre, para esclarecimentos sobre as tornozeleiras, que serão utilizadas por cerca de 200 presos.
Fonte: Ascom/ Susepe
Feliz, eu?
Eu gostaria de um dia entender o motivo que leva uma pessoa acreditar nas próprias mentiras. Diz-se: sou feliz!
Tá mas o que é ser feliz mesmo? Vamos por partes...
Bater no peito, erguer a voz e bradar para o mundo: I'M HAPPY - definitivamente não te faz alguém feliz, pode te tornar desinibido pero no feliz!
Eu aprendi minha vida toda, que se eu não gosto de abobrinha, logo, eu não preciso comê-la apenas para agradar o dono da casa. Mas eu cresci e desaprendi algumas normas que se fariam importantes e necessárias na minha vida.
Se o Oscar Wilde disse que ser idiota é muito melhor do que ser uma pessoa séria e visceral o tempo todo...ele deve estar certo, pois não se importou como ia ser seu fim, apenas como viveria nos prazes de vinhos e da carne, quebrou regras e foi um gênio a frente do seu tempo.
Porque, afinal, ser feliz é muito mais importante do que estar certo.
E falando em coisas que aprendi ou desaprendi... tem uma coisa que eu jamais esqueci mesmo com os tombos e pealos: eu não me deixo surpreender por falsas ilusões de felicidade. Não quero parecer aqui uma pessoa amargurada ou inconformada com tudo... Só quero dizer que felicidade está em pequenas coisas...
Felicidade está naquela oração que você faz baixinho e que só Deus fica sabendo...
Felicidade está naquele chiclete de melancia que você adora mas ninguém suporta o cheiro...
Felicidade está naquele domingo que você passa o dia todo de pijama...
Felicidade está nos amigos inventando apelidos bobos que você bem que ri, mas finge que não gostou...
Felicidade está nas borboletas que se mexem no seu estômago quando você vê aquela pessoa especial desfilando por um corredor...
Felicidade está naquela viagem que tira seu sono por noites a fio, e quando você consegue finalmente já sente vontade de voltar...
Felicidade está na sua mãe que não precisa falar nada, apenas ouvir, e você sente que teve a melhor conversa do mundo...
Felicidade está em você aceitar sua embalagem como é, e amá-la... afinal Deus fez cada um em uma forma, não tem por que ser todo mundo igual...
Felicidade está em você transformar suas dificuldades em superação...
Felicidade está em você ter pessoas que apoiem suas loucuras porque sabem que aquilo vai te fazer bem...
Felicidade está em você entender o que de fato é ser feliz
As vezes paramos pra pensar... não paramos muito tempo, mas o tempo suficiente pra enxergar que nos estressamos por pouco! Além da morte não há outro problema que não tenha solução!
O mundo gira e tira tudo no lugar, mas é pra colocar de novo, de outra forma... uma forma melhor, mais lapidada, mais consciente...
Eu sei que sofro demais! sofro por problemas que nem meus não são... sofro pelos amigos, sofro pela família, sofro por problemas que não existem, e outros que até existem mas não são nenhum bicho de sete cabeças...
Sofro por antecipação, sofro por amores que morreram antes de nascer, e sofro por amores que nasceram e estão longe...
Bom na verdade...
eu sofria! isso mesmo... "ia"... é passado!
Eu adotei uma nova forma de vida...
Nessa vida nova não há porque sofrer
Gabrielle Moraes do Blog Sonhos de Florecita
Scania
Responsável pelo treinamento e aperfeiçoamento de mais de 5.700 caminhoneiros, o Centronor (Schio, Transcavalinho e Bertolini), de Vacaria, foi sede de encontro regional de transportadores, na última quinta-feira (12/08).
Com a presença de Paulo Caleffi , presidente da Fetransul e Sest/Senat, foi comemorada a entrega de um caminhão Scania, pelo presidente da fábrica brasileira, para ser utilizado no treinamento de motoristas, nas estradas gaúchas.
O evento reuniu empresários do transporte da região nordeste do Estado, autoridades municipais e regionais.
Caleffi confirmou a autorização para a instalação de uma unidade do Sest/Senat em Vacaria, junto ao Centronor, que além de ampliar o número de cursos, dará assistência médica e odontológica para os caminhoneiros.
O deputado Francisco Appio , convidado do Centronor, agradeceu o convite para se pronunciar, mas não se manifestou em razão da legislação eleitoral. Criador do SOS Caminhoneiro, que comemora 30 anos de serviços gratuitos aos motoristas, no combate ao furto e roubo de cargas, apoio na saúde e segurança, resgate de motoristas e defesa da categoria, Appio comemora a conquista do Sest/Senat para a região, reivindicada há muitos anos.
O parlamentar registra a iniciativa do empresário Paulo Ossani , que acaba de criar o Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Vacaria e Região, que dará suporte às atividades do Sest/Senat. Um dos fundadores do Centronor, Ossani preside a entidade que foi destaque, pela formação de condutores, na última Transpo-Sul.
Em oito anos, dobrará o número de caminhões da frota brasileira, o que exigirá melhores rodovias e motoristas qualificados. Ossani confirma que atualmente muitas empresas têm caminhões parados, por falta de motorista especializado.
Um caminhão custa entre 300 e 500 mil reais, dispõe de equipamento computadorizado e sua adequada funcionalidade poderá significar ganho ou perda de recursos dos transportadores, em combustível, pneus e vida útil do caminhão.
Os transportadores rechaçam a crítica de que são responsáveis pelos buracos das estradas, alegando que o eventual excesso da carga é de responsabilidade dos embarcadores (donos das mercadorias). Esta distorção ocorre entre muitos autônomos e terceirizados, que são obrigados a carregar além do permitido.
Appio lembra que na criação do Programa Estadual de Concessões de Rodovias, em 1996, foi fixada em lei a obrigatoriedade dos pedágios instalarem balanças móveis e fixas, para fiscalização do excesso da carga. Além disso, a complexidade de operacionalizar o cumprimento da lei do peso/por eixo e não pelo peso/total da carga, aumenta as dificuldades dos transportadores autônomos.
A má qualidade na conservação das estradas pedagiadas é de responsabilidade das concessionárias, como foi denunciado pela AGERGS em 2005. Na região de Vacaria e Antônio Prado, a RS122 poderá ser interrompida novamente, pelos buracos/crateras que provocam acidente, o mesmo ocorrendo na RS470 Carlos Barbosa/Garibaldi/Bento/Veranópolis/Nova Prata.
Appio foi informado pelo DAER que as obras de restauração foram contratadas, mas que a demora no início dos trabalhos é de responsabilidade das Construtoras Licitadas.
E agora as últimas do www.twitter.com/franciscoappio
GOVERNADORA YEDA CRUSIUS vai inspecionar em breve, as obras do Aeroporto Regional de Cargas de Vacaria, garantindo sua conclusão neste ano.
YEDA executa 30% do projeto. Os outros 70% são do PROFAA, constituído por percentuais das passagens aéreas. Vacaria comprou a área.
ATUAL AEROPORTO está parcialmente interditado nas cabeceiras. A área urbana é do Ministério da Aeronáutica e será permutada com o município.
CONVÊNIO foi conquistado em 1997, junto ao Governo Britto. O deputado Francisco Appio teve decisiva participação nesta conquista regional.
Deputado Estadual Francisco Appio - www.appio.com.br