Rádio WNews

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A agonia da Classe Média Americana

A agonia da classe média americana
Edward Luce, Financial Times, de Washington
04/08/2010

Tecnicamente falando, Mark Freeman deveria considerar-se entre as pessoas mais sortudas do planeta. Aos 52 anos, ele vive com sua família em casa própria, numa rua arborizada e no coração do país mais rico do mundo. Quando está com fome, ele come. Quando esquenta, ele liga o ar-condicionado. Quando quer buscar alguma coisa, ele navega na internet.

No entanto, de alguma forma, as coisas não vão mais tão bem. No ano passado, o banco tentou retomar a casa dos Freeman, apesar de eles estarem com seu pagamento atrasado apenas três meses. Seu filho, Andy, foi recentemente excluído da cobertura do seguro saúde de sua mãe e só penosamente readmitido mediante um grande pagamento. E, assim como as casas tapadas com tábuas - que sinalizam a epidemia de retomadas judiciais de imóveis nos EUA -, o tráfico de drogas e os tiroteios, que antes eram distantes de seu bairro, estão chegando cada vez mais perto, quarteirão por quarteirão.

que é mais perturbador, no caso dos Freeman, é como eles são típicos. Nem Mark nem Connie - sua incansável mulher, tão gordinha quanto ele é magro - têm doenças crônicas. Ambos trabalham no Hospital Metodista local - ele trabalha no almoxarifado, e ela é técnica em suprimentos de anestesia. A US$ 70 mil por ano, a renda bruta do casal é mais de um terço superior à mediana do núcleo familiar americano.
No passado, isso era o "sonho americano". Nos dias atuais, poderia ser chamado de "devaneio incerto americano". Na prática, Mark gasta muito dinheiro todo mês com o aluguel de uma máquina para tratar sua apneia, que lhe dá insônia. "Se perdemos nossos empregos, depois de umas três semanas teremos zerado nossa poupança", diz ele, sentado em seu quintal, de olho na rua e uma garrafa de cerveja na mão. "Nós trabalhamos dia e noite para tentar poupar para nossas aposentadorias. Mas nunca estamos a mais de um ou dois cheques de distância do olho da rua."

Quando se fala de classe média americana, a maioria dos estrangeiros imagina algo mais atemporal e confortável, como nas séries de TV, na qual os adolescentes vão à escola dirigindo carros esportivos e as meninas são sempre animadoras de torcidas. Isso pode representar como vivem uns 10% do topo da classe média. O resto vive como os Freeman. Ou pior.

Uma visita completa à casa de 65 m2, pertencente a Mark, no noroeste de Mineápolis, leva apenas uns 30 segundos. A casa foi comprada mediante um financiamento de US$ 50 mil em 1989. Agora, ela vale US$ 73 mil. "Houve um momento em que ela valia US$ 105 mil dólares - e pensamos que tínhamos entrado no paraíso", diz Mark. "Os bancos continuaram telefonando - às vezes quatro ou cinco vezes numa mesma noite -, oferecendo linhas de crédito e empréstimos. Insistiam como traficantes de drogas."

O lento estrangulamento econômico dos Freeman, e de milhões de outros americanos de classe média, começou muito antes da Grande Recessão, que apenas agravou a "recessão pessoal" que os americanos comuns vinham sofrendo havia anos. Denominada pelos economistas como "estagnação do salário mediano", a renda anual dos 90% de famílias menos bem de vida nos EUA permaneceu essencialmente inalterada desde 1973 - tendo crescido apenas 10% em termos reais nos últimos 37 anos. Isso significa que a maioria das famílias americanas está no sufoco há mais de uma geração.

No mesmo período, a renda do 1% de famílias mais ricas triplicou. Em 1973, executivos-chefes de grandes companhias recebiam, em média, remuneração igual a 26 vezes a renda mediana. Hoje, é mais de 300 vezes superior.

A tendência só tem se intensificado. A maioria dos economistas vê a grande estagnação como um problema estrutural - ou seja, imune ao ciclo econômico. Na última expansão, que começou em janeiro de 2002 e terminou em dezembro de 2007, a renda familiar mediana americana ficou US$ 2 mil menor - a primeira vez em que a maioria dos americanos esteve pior no fim de um ciclo do que no início. O mais grave é que a longa era de renda estagnada tem sido acompanhada por algo profundamente antiamericano - um declínio na mobilidade da renda.

Alexis de Tocqueville, grande cronista francês dos primórdios da nação americana, já foi erroneamente citado como tendo dito: "Os EUA são o melhor país do mundo para os pobres". Isso deixou de ser verdade. Hoje, nos EUA, é menor a chance de passar de um estrato de renda mais baixa para outro mais elevado do que em qualquer outra economia desenvolvida. Para inverter as clássicas histórias de Horatio Alger, nos EUA de hoje, se você nasceu esfarrapado, tem maior probabilidade permanecer nesse estado do que em praticamente qualquer país da velha Europa.

Combinadas a essas duas tendências profundamente enraizadas, há uma terceira - forte crescimento da desigualdade. O resultado é a crise em fogo lento do capitalismo americano. Uma coisa é sofrer as agruras de uma estagnação da renda. Outra é perceber que você tem uma probabilidade decrescente de escapar dessa estagnação - especialmente quando poucos afortunados que vivem nos proverbiais "condomínios fechados" parecem mais mimados cada vez que você os vislumbra. "Quem matou o sonho americano?", dizem os cartazes em passeatas de esquerda. "Resgatemos a América", gritam os manifestantes de direita do movimento Tea Party.

As estatísticas capturam somente uma fatia do problema. Mas é Larry Katz, renomado economista de Harvard, quem oferece a analogia mais atraente. "Imagine a economia americana como um grande prédio de apartamentos", diz o professor. "Um século atrás - até mesmo 30 anos atrás -, era um objeto de inveja. Mas, na última geração, sua feição mudou. Os apartamentos de cobertura estão cada vez maiores. Os apartamentos nos andares intermediários estão cada vez mais espremidos e o térreo foi inundado. Para completar, o elevador não está funcionando. Esse elevador quebrado é o que mais deprime as pessoas."

Não surpreende que uma maioria crescente de americanos tem dito, em pesquisas de opinião, acreditar que seus filhos terão um padrão de vida pior do que o deles próprios. Durante as três décadas do pós-guerra, que muitos hoje relembram como a era de ouro da classe média americana, a maré alta erguia a maioria dos barcos, nas palavras de John F. Kennedy. A renda cresceu em termos reais quase 2% ao ano, quase dobrando a cada geração.

E, embora os anos dourados tenham sido puxados pelo crescimento do ensino superior de massa, não era preciso ter diploma de ensino médio para dar conta das despesas. Como seu marido, Connie Freeman foi criada num lar de "classe trabalhadora" no chamado Cinturão do Ferro, no norte de Minnesota, perto da fronteira canadense. Seu pai, que deixou a escola aos 14 anos, após a Grande Depressão dos anos 1930, trabalhou nas minas de ferro a sua vida inteira. No fim de sua vida profissional, ele ganhava US$ 15 por hora - mais de US$ 40 em valores atuais.

Trinta anos depois, Connie, que é muito mais qualificada do que seu pai, após ter completado o ensino médio e concluído um ano adicional de estudos, ganha apenas US$ 17 por hora.

O pai de Connie, com sua escolaridade mínima, ganhava o suficiente para permitir que sua esposa continuasse a ser dona de casa em tempo integral e ainda bancou a educação de dois filhos até a faculdade. Connie e Mark, por seu turno, têm dificuldades para pagar o fluxo de contas num lar de dupla renda familiar. O Estado de Minnesota custeia um curso de teatro para Andy, o filho de 20 anos do casal que sofre de autismo agudo.

A rigor, Connie vive num lar de quatro rendas. "Quando Andy tinha dois anos, disseram-me para comprar um aparelho de karaokê, porque as crianças autistas às vezes reagem bem a isso", disse Mark, apontando para o que só pode ser descrito como um antigo aparelho pós-moderno. "Foi assim que iniciei meus negócios com karaokê. Eu ganho cerca de US$ 100 toda quarta-feira, promovendo karaokês pagos em casa. E, aos sábados sou gerente na loja de bebidas do bairro. Precisamos de todos os quatro empregos para manter a cabeça fora d ' água."

Do ponto de vista da maioria dos economistas, a história até o momento é inquestionável. A maioria concorda sobre o diagnóstico, mas diverge sobre as causas. Muitos na esquerda atribuem a culpa à Grande Estagnação da globalização. A ascensão de China, Índia, Brasil e outros países solapou os salários no Ocidente e eliminou postos de trabalho de americanos sem qualificação, semiqualificados e até mesmo qualificados. A indústria agora representa somente 12% dos postos de trabalho nos EUA.

Pense no trabalhador típico da indústria automobilística em Detroit, 30 anos atrás, que tinha um estilo de vida de classe média seguro, bom plano de saúde e perspectiva de gorda aposentadoria. Hoje, ele vive na China.

Outro grupo de economistas define como causa principal o surgimento explosivo de novas tecnologias, que facilitaram a automação computadorizada de rotinas repetitivas e de trabalhos mais simples. Pense na auxiliar de escritório, que anotava ditados e fazia o café. Ela agora é um BlackBerry que passa metade de sua vida no Starbucks. Ou o pessoal de retaguarda de escritórios que, como aqueles sapateiros em conto de fadas, agora "costura a contabilidade" das empresas americanas em Bangalore, na Índia, enquanto as pessoas dormem nos EUA.

Há também aqueles, como Paul Krugman, colunista do "The New York Times" e ganhador do Prêmio Nobel de Economia, que atribuem a culpa ao mundo político, especialmente à reação conservadora iniciada quando Ronald Reagan chegou ao poder, em 1980, o que acelerou o declínio dos sindicatos e reverteu os traços mais progressistas do sistema fiscal americano.

Menos de um décimo dos trabalhadores do setor privado americano pertence a um sindicato. As pessoas na Europa e no Canadá estão sujeitas às mesmas forças globalizantes e tecnológicas, mas fazem parte em maior número de sindicatos, e seu atendimento médico é coberto por verbas públicas. Mais de metade das falências de famílias nos EUA são causadas por doença ou acidente graves.

Essas são as teorias concorrentes (porém não contraditórias) sobre a causa da deterioração. A "experiência vivida", como diriam os sociólogos, é outra coisa.

De forma muito semelhante aos Freeman, os Miller poderiam estar vivendo em qualquer lugar dos EUA. Somente o calor abafado denuncia que estão na Virgínia, no sul do país. Falls Church, na Virgínia, é na verdade um subúrbio da capital do país, Washington. A implacável expansão do governo fomentou um setor privado "verde", do outro lado do rio Potomac, dedicado principalmente a atividades relacionadas com segurança, defesa, serviços governamentais e lobbying. O lugar de honra na casa de Shareen Miller abriga uma fotografia granulada de sua conversa com Barack Obama numa cerimônia na Casa Branca, no ano passado, para a assinatura de uma nova lei que impõe igualdade de remuneração para as mulheres.

Como organizadora, na Virgínia, de 8 mil assistentes de cuidados pessoais - profissionais que cuidam de idosos e de deficientes nas próprias casas dessas pessoas - Shareen, de 42 anos, foi convidada, com outras dezenas, a participar da cerimônia. Mas isso foi tudo o que ela ganhou de sua fugaz proximidade com o presidente. Desde então, sua remuneração e suas horas de trabalho não pararam de cair. No ano passado, ela ganhava US$ 1,5 mil por mês. Agora, recebe US$ 900. Assim como outros governadores de Estado, Bob McDonnell, governador da Virgínia, vem cortando impiedosamente o gasto público desde que a recessão começou.

Embora com área de aproximadamente o dobro do lar dos Freeman, na casa de Shareen a sensação é de aperto ainda maior. Junto com dois filhos, uma nora, uma neta e seu marido, Shareen tem um verdadeiro zoológico de animais de estimação. Sua paciente Marissa, 26, com paralisia cerebral, muitas vezes pernoita na casa deles.

Shareen exibe a vigorosa boa vontade que encontramos em muitos americanos. Apesar de seu pouco tempo livre, ela pratica uma atividade voluntária, aos sábados, dedicada a animais de estimação perdidos. Para ir a qualquer lugar, os Freeman precisam de um carro. A uns 250 metros de sua casa, fica o trevo local, onde estão as emblemáticas Taco Bells, 7-Eleven e lojas de um dólar que pontilham os EUA. É a geografia física que diferencia os lugares; a geografia humana, simplesmente se repete.

Dona de um sorriso permanente, Shareen traça sua complexa árvore genealógica: um pai aposentado, que trabalhou numa penitenciária do Estado de Oregon, e vários meio-irmãos e meio-irmãs, nenhum dos quais parece estar chegando com dinheiro ao fim do mês. "Adivinhe de qual estou mais próxima", pergunta ela com um sorriso travesso. "De nenhum."

De novo, tecnicamente falando, Shareen vive em relativo conforto. Como seu marido trabalha para uma companhia de segurança contra incêndios e ganha US$ 70 mil por ano, os Miller estão, sem dúvida, sobrevivendo. Mas eles temem o que poderá acontecer se um deles tiver um problema de saúde. Alguns anos atrás, Shareen teve um tumor removido de seu diafragma, que gerou US$ 17 mil em dívidas. E o marido sofre de uma hérnia de disco. Surpreendentemente, tendo em vista que sua renda bruta conjunta é o dobro da mediana nos EUA, Shareen teve de adiar uma operação dentária por seis meses, a fim de saldar o empréstimo para a compra de seu carro. E não tem tempo para estudar e se requalificar. "Uma coisa comum nas pessoas que cuidam de gente com deficiências é que elas nunca têm tempo", diz ela.

Tanto quanto discordam sobre o que causou a grande estagnação, os economistas também divergem sobre as soluções. A maioria concorda que níveis educacionais mais altos melhoram o rendimento potencial das pessoas, mesmo que isso não resolva o problema subjacente. Outros salientam que nem todo mundo pode ser um corretor de ações, empresário de software ou professor de Harvard.

Muitos dos empregos do futuro serão funções "interpessoais" que não podem ser facilmente substituídos por computadores (ou imigrantes): zeladores, cabelereiros e manicures, para os quais uma faculdade é algo frequentemente supérfluo. Além disso, grande parte dos americanos atingidos pela estagnação nos últimos dez anos tem curso universitário. Mesmo eles não estão a salvo. Porém, mais educação, no mínimo, melhorará as chances das pessoas. Como pagar isso são outros quinhentos.

Apesar de a renda nos EUA estar estagnada, o custo das escolas não cessa de crescer. Desde 1990, quase dobrou a proporção de americanos que estão pagando mais de US$ 20 mil em empréstimos educacionais uma década após terem se formado. Lawrence Summers, principal assessor econômico de Obama, que há muito tempo preocupa-se com o crescimento do que ele denomina "nervosa classe média" americana, salienta que, entre as principais economias, os EUA têm o maior percentual de diplomados no mercado de trabalho. Mas, na faixa etária de 25 a 34 anos, os EUA não estão nem nos "dez mais".

Mais e mais americanos jovens são dissuadidos pela perspectiva de assumir uma dívida de longo prazo. "Não é só o medo do endividamento - são os quatro anos de lucros cessantes", diz Ruth Miller.

O impacto sobre as pessoas, como os Miller e os Freeman, tem sido agudo. Primeiro, houve estagnação. Depois veio a recessão.

Qual é, então, o futuro do sonho americano? Michael Spence, economista ganhador do Prêmio Nobel, a quem o Banco Mundial encarregou de realizar um estudo sobre o futuro do crescimento mundial, admite um mau presságio. Como um número crescente de economistas, Spence disse ver a grande estagnação como uma profunda crise de identidade.

Durante anos, o problema foi amenizado e parcialmente oculto pela disponibilidade de crédito barato. Americanos de classe média foram ativamente incentivados a se endividar continuamente, oferecendo suas casas em garantia, ou a canibalizar seus fundos de aposentadoria, confiando em que os preços dos imóveis e as bolsas de valores desafiariam permanentemente a gravidade (uma atitude estimulada, entre outros, pela metade ganhadores do Nobel de Economia em todo o mundo). Essa reserva de valor, agora, não existe mais. O dinheiro fácil transformou-se em pesado endividamento. "Baby boomers" - os nascidos na explosão da natalidade após a Segunda Guerra Mundial - adiaram sua aposentadoria. Filhos com curso superior estão voltando para a casa dos pais.

O barômetro é econômico. Mas a raiva é humana e cada vez mais política. "Tenho esse desgastante sentimento sobre o futuro dos EUA", diz Spence. "Quando as pessoas perdem o senso de otimismo, as coisas tendem a ficar mais voláteis. O futuro que mais temo para os EUA é latino-americano: uma sociedade muito desigual, propensa a fortes oscilações entre populismo e ortodoxia. Veja o Tea Party [movimento conservador]. As pessoas acham que surgiu do nada. Embora eu não concorde com suas soluções, a maioria dos membros do Tea Party são americanos de classe média que vêm sofrendo em silêncio há anos."

Spence admite estar pensando em voz alta e "extrapolando em muito os dados". E ele admite que os EUA provavelmente ainda conservam sua força mais vibrante em sua capacidade de liderança mundial em inovação tecnológica. A maioria dos economistas não é tão pessimista como Spence. Mas é entre os americanos comuns que seu pessimismo repercute mais intensamente. "Ser pessimista sobre o futuro é algo tão novo para os americanos", diz Spence. "Mas a maioria das pessoas compreende sua própria situação melhor do que qualquer economista." (Tradução de Sergio Blum)


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Juventude

JUVENTUDE MOBILIZA APOIO À DILMA

No próximo sábado, dia 7, Dia Nacional de Mobilização da Juventude com Dilma, acontece o lançamento do Comitê da Juventude em Caxias do Sul com a participação de toda a serra gaúcha para mostrar a todos que os jovens estão com ele para o Brasil seguir mudando.

O lançamento acontece no Comitê Pluripartidário Dilma Presidente às 14hs (Rua Os 18 do Forte 1407, ao lado da farmácia do Ipam), com transmissão ao vivo do pronunciamento da Dilma Rousseff para a juventude. Em seguida será feita uma caminhada com bandeiraço passando pelo centro até o Parque dos Macaquinhos.


VITOR HUGO GOMES - Coord. Campanha Dilma Presidente e Tarso Governador

054.9977.8393

MIGUE L DALLALBA - Coord. Regional do PT

054.9918.8731







 

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Gabi Dantas

Assessora de Imprensa

(54) 84030214

Rio dos Mortos

Carta Maior




Desaparecidos: à margem do rio dos Mortos

Hoje, no Brasil, ainda são 144 os desaparecidos políticos da ditadura civil-militar. Corpos à espera do sepultamento. Familiares à espera de concretizar o luto, de acabar com a incerteza. Almas à espera da travessia do Aqueronte. Como definiu Ivan Seixas, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, “são os fantasmas que voltam sempre. São os fantasmas que querem lembrar que não podem ser esquecidos”. A reportagem especial é de Paula Sacchetta, publicada originalmente no Brasil de Fato.

Paula Sacchetta - Brasil de Fato

Queres tu, realmente,
sepultá-lo, embora isso tenha
sido vedado a toda a cidade?
Fala de Ismênia na tragédia Antígona

Cena 1: o começo ou sepultamento inusitado
Segunda-feira, 18 de maio de 1992. Em Jales, a 600 quilômetros de São Paulo, um caixão fechado é velado na Câmara Municipal. Foi decretado feriado, a cidade inteira está parada. A Câmara está lotada. Presentes crianças e adolescentes, gente de todas as idades. É um dia de sol muito quente, daqueles que nem ferro de marcar. Após o velório, um cortejo segue a pé até o cemitério.

Depois de anos de busca do filho desaparecido, Ruy Thales consegue enterrá-lo. O caixão é finalmente depositado no jazigo da família Berbert. Dentro dele, porém, não havia um corpo. Nem restos mortais. Apenas um terno completo e os sapatos de Ruy Carlos Vieira Berbert, desaparecido desde 1972. Objetos que haviam permanecido até então intocados em seu quarto, para “caso ele voltasse”.

Antes do início das cerimônias, Ruy Thales, o pai, chamou Amélia Teles em casa para tomar um café. Ela estava em Jales representando a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. “Ele havia me chamado para o enterro, mas eu sabia que os restos mortais não haviam sido encontrados. Aceitei o convite e não perguntei nada. Ele também não me disse nada”.

Depois do café, o conteúdo do caixão foi revelado. Naquele dia, Amélia foi cúmplice de Ruy Thales. Ninguém, além dos dois, sabia que o ataúde estava praticamente vazio. O pai já estava bastante idoso, e, prevendo que morreria logo, quis enterrar o filho. Mesmo sem ter um corpo. No fim do dia, depois do ato na Câmara e do enterro, deu um jantar para 80 pessoas. “Era uma mesa enorme, parecia um banquete”, conta Amélia. O pai de Berbert morreu pouco tempo depois. Mas conseguiu enterrar seu filho.

Cena 2: Ruy Carlos Vieira Berbert, presente!
O ritual foi a forma encontrada pela família Berbert para acabar com a espera. A maneira de encerrar o luto que já durava 20 anos. Estavam se libertando de um fantasma que, até hoje, assombra a vida de famílias inteiras: filhos, pais, mães e irmãos. Hoje, no Brasil, ainda são 144 os desaparecidos políticos.

“Não pode haver aceitação da ideia de que ainda existem mais de 140 brasileiros que muitos vivos sabem onde estão seus corpos ou como seus corpos deixaram de existir”, afirma Paulo Vannuchi, à frente da Secretaria Especial de Direitos Humanos desde o final de 2005.

O caso de Ruy Carlos Vieira Berbert é emblemático. Nascido em Regente Feijó, no interior paulista, em 1947, veio para São Paulo tentar o vestibular da USP. Passou em letras, começou o curso e se tornou militante no movimento estudantil. Mais tarde, passou à luta armada. Em 1969, viajou, pela ALN – Ação Libertadora Nacional, organização de maior expressão no cenário da guerrilha urbana, nascida como dissidência do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e que teve Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira como dirigentes –, para Cuba, de onde retornou como militante do Molipo – Movimento de Libertação Popular, surgido a partir de um racha da própria ALN.

A maioria dos que voltavam do treinamento na ilha socialista já chegava ao Brasil “queimada” e procuradíssima pela repressão. Quando os serviços de informação da ditadura souberam que os integrantes do Molipo estavam se espalhando de forma clandestina para dentro do país, o governo baixou uma ordem exigindo a prisão de todo e qualquer estranho recém-chegado às cidades do interior.

O turista relâmpago
Na virada de 1971 para 1972, Berbert instalou-se em Natividade (na época, em Goiás, hoje, no Tocantins), em uma pequena pensão. No dia seguinte, foi preso enquanto conversava tranquilamente na calçada com a filha do dono do estabelecimento.

A delegacia da cidade era bem antiga. Suas celas possuíam amplas janelas gradeadas que davam para a praça principal. Da janela, o preso conversava com as pessoas que por ali passavam. Em algumas horas, o militante tornou-se celebridade, quase uma atração turística. Ficou conhecido.

Dois ou três dias após sua prisão, baixou em Natividade “o pessoal de São Paulo”, como eram chamados os agentes do DOI-Codi. Nesse mesmo dia, Berbert apareceu enforcado em sua cela. A versão oficial: suicídio.

No dia seguinte, um grande proprietário de terras da região, não muito querido pela população local, também morreu. Os dois corpos partiram em cortejo rumo ao cemitério, seguidos por boa parte dos habitantes daquela cidade. Os agentes da repressão acreditavam que era por conta da morte do latifundiário, mas as pessoas estavam seguindo Berbert, o turista relâmpago, que, embora tivesse ficado tão pouco tempo na cidade, angariou simpatia e admiração, e que, do mesmo jeito que chegou, foi-se embora num piscar de olhos. Enterraram o latifundiário na ala “dos ricos” do cemitério, e o militante, numa vala comum, junto aos indigentes.

A família Berbert passou a ter informações sobre o filho somente através de notícias de jornal. Em 1979, um general ligado ao aparelho repressivo admitiu sua morte em entrevista concedida à Folha de S. Paulo. Na ocasião, dona Ottília, mãe de Ruy Carlos, disse ao grupo Tortura Nunca Mais que gostaria de mostrar a luta constante pela qual passaram, na busca incerta da solução de um passado certo: “Apesar dos fatos comprovarem a quase certeza de sua morte, nós vivemos mais de uma década com a esperança e o sonho de vê-lo novamente”.

Corpo que não era corpo
Apenas em 1991 começaram a obter dados mais concretos. Um atestado de óbito com o nome de João Silvino Lopes foi entregue à Comissão 261/90 da Prefeitura de São Paulo, criada no mandato da prefeita Luiza Erundina, para acompanhar a identificação das 1.049 ossadas encontradas na vala clandestina do cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus. Segundo a versão oficial, Lopes havia se suicidado em 2 de janeiro de 1972, em Natividade. Embora pudesse ser um militante político, seu nome não constava na lista de desaparecidos.

Só um ano mais tarde, em 1992, quando os familiares dos mortos e desaparecidos tiveram acesso aos arquivos do Dops, foi encontrada uma relação elaborada a pedido de Romeu Tuma, diretor da unidade paulista do órgão entre 1977 e 1982. Nela, estava o nome de Ruy Carlos Vieira Berbert com as seguintes observações: preso em Natividade, suicidou-se na Delegacia de Polícia, em 2 de janeiro de 1972. Concluiu-se que João Silvino Lopes era o nome com que fora enterrado Ruy Carlos Vieira Berbert.

Tendo-se como base esse mesmo documento, foi possível saber que seu corpo estava no cemitério de Natividade, mas não em qual local exatamente. Para exumá-lo e fazer a posterior identificação, seria preciso escavar o cemitério inteiro. Membros da Comissão 261/90 explicaram a situação à família Berbert, que, resignada, se contentou com um atestado de óbito, concordando em não fazer a exumação praticamente impossível. O corpo permaneceu no local, mas um enterro simbólico foi realizado na cidade onde seus pais moravam.

Naquele dia, quem passou pela Câmara Municipal de Jales prestou homenagens frente ao caixão vazio de corpo, mas repleto de símbolos. Velaram um corpo que não era corpo, que não sabiam que não era corpo, mas que reverenciavam e o fariam ainda que o soubessem. No cemitério, colocaram a bandeira a meio-pau e cantaram o hino nacional. Tudo isso para o homem que não estava lá.

Cena 3: dona Gertrudes ou “é ele, é ele!”
Quando o filho de dona Gertrudes morreu, ela começou a se interessar em saber mais sobre a sua luta. Já senhora, foi estudar direito e leu todos os livros que pôde sobre a esquerda brasileira. Saiu atrás das pessoas que conheceram seu filho e que com ele militaram. Soube da participação de Frederico Eduardo Mayr na ALN, descobriu que ele foi treinar guerrilha em Cuba e que voltou como militante do Molipo.

Dona Gertrudes participou ativamente da luta dos familiares de mortos e desaparecidos. Conseguiu localizar os restos mortais de Frederico (na vala comum do cemitério Dom Bosco, no bairro paulistano de Perus), pois haviam documentos que atestavam sua morte e o local onde ele havia sido enterrado.

“Dona Gertrudes era capaz de dizer quando seu filho havia sido preso, onde e quem o prendeu, sabia de tudo, mas dizia que, até o dia de enterrá-lo, toda vez que chovia à noite e uma porta ou janela batia, pulava da cama e corria para a porta dizendo 'é ele, é ele!'”. Quem conta a história é o ministro Paulo Vannuchi. Mayr foi morto sob tortura no DOI-Codi em 1972. Foi enterrado, no Rio de Janeiro, somente 20 anos depois.

“Esse é o tema da espera que gosto de colocar em todas as conversas que tenho, posso ter e terei ainda com o [ministro da Defesa Nelson] Jobim e com chefes militares”. Vannuchi afirma que não entra na discussão da punição dos torturadores. Não diz que não, nem que sim, mas, se o pressionam muito, acaba confessando ser a favor de punir, sim. “Não que punir seja necessariamente enfiar na cadeia, porque significaria enfiar na cadeia octogenários”. Mas defende que essa discussão é tema do Judiciário. O presidente Lula já avisou: o Executivo não entra no debate sobre punição.

“Lula insiste em que eu coordene o trabalho de apoio às famílias, para localizar todas as informações, arquivos e, sobretudo, os corpos. Porque os corpos constituem um problema limiar de uma ideia de barbárie. Essa espera eterna se constitui numa manutenção da violação dos direitos humanos, numa manutenção do crime. A ocultação de cadáveres não está protegida por nenhuma lei de anistia”, diz Vannuchi, que acrescenta: “Às vezes, as famílias se irritam e dizem: ‘temos de obrigá-los a falar onde estão os corpos’.Vamos obrigar com 110 ou 220 volts? Não tem pau de arara, não tem cadeira elétrica. Não tem como obrigar ninguém, o esforço agora é de convencimento. E, nesse sentido, o convencimento é muito difícil quando a imprensa e setores conservadores não ajudam a reforçar esse consenso necessário e nacional de que não queremos discutir quem ganhou ou quem perdeu. Vamos dizer que o Brasil perdeu”.

Narrativa e reconstrução
O regime ditatorial sufocou a cultura, a manifestação, o pensamento, a juventude. Matou e torturou. “Eles vão dizer que, se não houvesse isso, haveria uma ditadura comunista pior ainda”. Para Vannuchi, esse não é o ponto. “Continuemos pensando diferente, vamos debater isso no voto, na universidade. O problema é que não dá pra dizer que o assunto terminou, que está encerrado”.

Segundo ele, não adianta colocar uma pedra em cima. “É preciso acabar com a ocultação de cadáveres e, se não houver cadáver, é preciso construir uma narrativa oficial, formal, com um pedido oficial de desculpas feito pelo presidente da República e pelo ministro da Defesa, ou os chefes das três armas”.

Vannuchi cita o caso de Ulysses Guimarães. Até hoje, não encontraram seu corpo.

Porém, há uma reconstituição do acidente. Ele estava em um helicóptero, sobrevoando o mar de Angra dos Reis no dia 12 de outubro de 1992. A aeronave caiu no oceano – a hora exata do acidente pode ser informada –, foram detectados os problemas que a fizeram cair e foram encontrados os corpos de todos os outros passageiros à bordo: sua mulher, o senador Severo Gomes e esposa, e o piloto.

A narrativa e a reconstrução do momento permitem afirmar que, mesmo sem terem achado o corpo, ele está morto. Sem o corpo e, pior, sem a narrativa e a certeza da morte, resta a dúvida: “e se fulano foi torturado até perder a consciência, teve uma amnésia e está encostado em um asilo ou abrigo?”, indaga o ministro.

“A narrativa é importante para encerrar esse processo de espera que se caracteriza como crime continuado e violação de direitos continuada. Essa incerteza, essa angústia, produz situações como a de dona Gertrudes. Tem que haver uma narrativa. Sem ela, não existe nenhuma certeza. E sem a certeza, os familiares não podem processar o luto. Isso tem que acabar, os familiares de desaparecidos não podem legar aos seus filhos essa espera”.

Cena 4: o ritual necessário ou a travessia de Caronte
O ministro sabe o que está dizendo. Segundo Carl Gustav Jung, um dos “pais” da psicologia analítica, para lidar com o imponderável, de nada adianta ao homem seu pensamento lógico e sistematizado que explica o mundo. Em situações em que o desconhecido, o incompreensível e o inexprimível estão envolvidos (no caso, o desaparecimento de familiares), a instância simbólica se compõe como a única solução. Apenas os rituais permitem ao homem, de alguma forma, participar do fenômeno e vivenciá-lo de fato.

A busca incansável dos familiares pelos corpos dos desaparecidos está ligada à instância simbólica. Racionalmente, há muito pouca diferença entre ter ou não o corpo, a prova concreta dessas perdas. Simbolicamente, no entanto, isso representa muito mais do que uma prova; o corpo sem vida é a passagem para o que Jung chamou de participação mística, que permite à pessoa enlutada transformar o momento de dor e melancolia em verbo, significá-lo, fazê-lo acontecer.

Por isso, a situação dos familiares de desaparecidos políticos, de nutrir uma esperança sobre a morte, é pior do que o luto, “uma tristeza inteira”. Aquilo que não pode ser definido e não pode ser falado, não se concretiza. Somente a simbolização poderia fazer essa ponte, o que, nesse caso, só poderia ocorrer com um enterro dos corpos ou restos mortais dos desaparecidos. Os familiares se certificariam de sua perda e concretizariam a morte, pondo fim à eterna angústia da incerteza.

A necessidade de rituais fúnebres está tão arraigada no imaginário da humanidade que já existia na mitologia grega. O barqueiro Caronte tinha a função de atravessar as almas para a outra margem do Aqueronte, o rio dos Mortos. Porém, só transportava as dos que tinham tido seus corpos devidamente sepultados.

Segundo essa lenda, as almas dos que não haviam sido sepultados não podiam atravessar o rio, e estavam condenadas a vagar pela margem do Aqueronte durante 100 anos.

Cena 5: sobre Penélope e Antígona
Laura Petit tem 63 anos. Viu seus irmãos, pela última vez, em 1970. Viveu e vive a melancolia até hoje. Espera até hoje. Assim como Antígona, quer enterrar seus irmãos, para que eles não sejam obrigados a vagar durante um século às margens do rio dos Mortos. Como Penélope, que aguardava seu Ulisses, Laura espera a abertura dos arquivos da ditadura, espera respostas, e a punição dos responsáveis.

Eram em quatro: Lúcio, o mais velho, Jaime, ela e Maria Lúcia, a mais nova.
O pai deles morreu antes de Maria Lúcia nascer. Era administrador de uma fazenda de café perto de Jaú, no interior de São Paulo, quando um de seus capatazes o assassinou. A mãe, de então 28 anos, ficou viúva cedo e com quatro filhos pequenos.

Permaneceram por um tempo onde viviam, na fazenda que pertencera aos parentes da escritora Hilda Hilst, numa cidade hoje chamada Itapuí. A família do pai das crianças ofereceu à mãe uma casa que havia sido do avô delas, em Amparo. E para lá se foram, os cinco. Lúcio e Jaime, os mais velhos, fizeram o primário na cidade e Laura começou a estudar por lá. Moraram ali durante quatro ou cinco anos. Era uma casa enorme, com um quintal muito grande também. Clóvis, o quinto irmão, nasceu do segundo casamento da mãe.

“As lembranças são boas. Crescemos juntos, todos tínhamos quase a mesma idade. Lúcio sempre se destacava, porque era muito inteligente, e a professora lá de Amparo ficava admirada. Ele surpreendia”, conta Laura. De Amparo, mudaram-se de novo, dessa vez, para Bauru, onde o avô materno administrava uma fazenda.

Ali, Lúcio começou a fazer o ginásio e a mãe, sozinha e sem apoio da família do pai, começou a ter dificuldade para manter os quatro filhos estudando. Decidiu: “os meninos vão continuar estudando e as meninas vão parar”. Mais tarde, escreveu para um tio das crianças que morava em São Paulo, que aceitou receber Laura e custear seus estudos.

Que nem a Emília
“Nas férias, eu reencontrava meus irmãos. Eu sentia falta, porque éramos muito unidos. Nessa fase que minha mãe passou dificuldade para comprar material escolar para quatro filhos, o Lúcio a ajudava. Tinha um esquema de escolher café em casa. Era trabalho doméstico infantil”. Laura ri quando conta que a mãe punha todo mundo numa mesa grande para tirar graveto e escolher o café. E recorda: “Uma coisa que foi o traço mais forte de Lúcio era o de sentir e perceber as diferenças. Um dia, estávamos na casa do meu avô em Amparo com relativo conforto, depois, estávamos passando necessidade. Ele teve que trabalhar ainda criança, ajudar a mãe a criar os irmãos. Com certeza, sentiu isso”.

Em Bauru, a família Petit morava perto da estação de trem, por onde passavam a pé na volta da escola. Lá, havia um armazém de cargas coberto, sob o qual paravam ciganos e “um pessoal que rodava o mundo”. Um dia, Lúcio viu um homem negro e muito, muito pobre, que levou para casa. Lá chegando, deu a ele um prato de comida, mesmo diante das dificuldades da família. Depois, buscou uma caixa de ferramentas e pegou um alicate para tirar, do sapato do homem, um prego que estava machucando seu pé. “Eu era bem pequena na época, mas aquilo ficou muito marcado em mim. O Lúcio era assim, solidário e fraterno com o sofrimento alheio. Em termos de caráter, tinha essa coisa de partilhar, de ser solidário, e, por isso, dá para entender porque mais tarde lutou contra uma ditadura opressora e por um mundo melhor onde todos fossem iguais”.

Laura estudava em São Paulo, Lúcio em Minas Gerais e Jaime no Rio, cada um na casa de um tio ou parente que aceitara custear seus estudos. Maria Lúcia e Clóvis, os mais novos, ficaram com a mãe em Duartina, cidade para a qual haviam se mudado recentemente. Nas férias, os três primeiros se encontravam em São Paulo, na estação da Luz, e tomavam o trem até lá, onde se reuniam com os irmãos menores e a mãe durante o mês inteiro, até a volta das aulas.

“Nessa época, na escola, as professoras falavam que a Maria Lúcia era muito crítica. Ela lia e discutia muito. Meus irmãos, que vinham de fora, traziam as discussões para dentro de casa. Ela leu a coleção do Monteiro Lobato inteira e era ‘perguntadeira’ que nem a Emília”.

Pela última vez
Mais tarde, com Lúcio e Jaime formados em engenharia, Laura cursando ciências sociais e Maria Lúcia tendo acabado a escola, os quatro juntaram-se outra vez em São Paulo. Mas não por muito tempo. Lúcio e Jaime tornaram-se militantes do PCdoB (Partido Comunista do Brasil) em 1967. Maria Lúcia entrou para o partido ainda como estudante secundarista.

Em 1968, Jaime, que havia sido preso por alguns dias por conta do 30º Congresso da UNE e fichado pelo Dops, foi chamado para depor. “Já havia muita repressão. Ele ficou com medo de ser interrogado e preso, então, a partir daí, entrou na clandestinidade. Ele não veio para nossa casa, porque podia ser procurado”.

Mais tarde, Laura ficaria sabendo que ele se hospedara na casa de uma tia-avó, na zona Norte paulistana. As filhas dessa tia-avó contaram que haviam sido recomendadas a não comentar com ninguém que ele estava lá. “Ele só saía à noite, para reuniões. Foi aí que o partido o mandou para o interior, mas não podia nos dizer onde por questões de segurança”.

Quando Jaime ia a São Paulo para reuniões, visitava a irmã. Não podiam trocar cartas, mas, mais tarde, Laura soube que ele morou em Goiás. Os três Petit foram para o Araguaia, para a região onde seria instalada a guerrilha, em princípios de 1971. Laura os viu pela última vez, em datas distintas, em fins de 1970.

Maria Lúcia ainda não estava clandestina quando foi para o Araguaia. Trabalhava com Laura em uma escola municipal. “Prestamos os primeiros concursos da Prefeitura para o cargo de professora. Ela tinha acabado de sair da escola e passou. Foi efetivada e escolhemos o mesmo lugar para trabalhar. Ela queria ainda estudar medicina, tinha muitos planos, mas, depois, a vida a levou para outro lado. As coisas mudaram”, conta.

Cena 6: a ditadura que não era branda
Maria Lúcia deixou São Paulo no começo de 1970, e Lúcio, no final do mesmo ano. Ele tampouco estava clandestino: trabalhou como engenheiro até partir. No período de preparação da guerrilha, Maria Lúcia, frequentemente doente de amidalite, fez uma operação e se preparou como pôde. “Eu sabia que ela ia para algum lugar, mas não sabia para onde”, conta Laura.

Sua irmã se despediu no começo de 1970, mas voltou em dezembro, para as festas de fim de ano. “Ela ficou alguns dias na minha casa e, depois, visitou nossa mãe em Bauru. Veio para reuniões do partido. Na noite do reveillón, as irmãs se juntaram “ao pessoal da USP” e foram para o samba no Camisa Verde e Branco, na Barra Funda.

“Nessa época, eu estava grávida, meu filho nasceria em fevereiro. Na hora de se despedir, Maria Lúcia disse: ‘ainda bem que eu não vou conhecer meu sobrinho, seria uma pessoa a mais para sentir saudades lá’”. E se foi mais uma vez. E, mais uma vez, Laura não sabia exatamente para onde. Só sabia que era um lugar quente e com muitos insetos: “quando ela veio, estava muito morena de sol e tinha picadas de pernilongo pelo corpo inteiro”.

A partir de então, Laura não tinha mais contato direto com os irmãos. “Um mensageiro trazia as cartas, eu respondia, e ele as levava de volta. Eu não sabia onde estavam, não tinha nenhuma dica. Esse mensageiro era da direção do partido. Eu o conhecia como Antônio”.

O Exército chegou ao Araguaia em abril de 1972. “Ele nos trouxe a notícia. Não era o momento exato, mas a guerrilha havia começado”. Ainda estava em fase de preparação, mas fora descoberta. Antônio explicou que era difícil circular pela região. Laura ficou sem notícias dos irmãos, mas, agora, sabia onde eles estavam.

“Em 73, vi em um jornal pendurado em uma banca com uma foto imensa estampada na capa: Antônio estava morto. Eram aquelas versões inventadas: tentativa de fuga, morto em confronto com a polícia ou outras alegações do gênero. Já sabíamos que não teríamos mais sequer as notícias dele. A partir daí, ficamos sabendo que Antônio era Carlos Nicolau Danielli, dirigente do PCdoB”. Ele havia sido morto sob tortura, no DOI-Codi.

Sofrer em silêncio
“Pegamos todos os documentos do partido, fotos dos meus irmãos, o jornal A Classe Operária e meu marido levou numa ponte do Tietê e jogou tudo rio abaixo. Como o Antônio vinha em casa, a qualquer hora poderiam aparecer. Foram livros do Marx, do Lênin e tudo que era considerado ‘subversivo’”.

Laura ficava preocupada com a falta de notícias. “Em fins de 1968, depois de decretado o Ato Institucional número 5, o AI-5, a ditadura nunca foi ‘ditabranda’. A situação estava feia. Pode ter sido branda para quem ficou assistindo televisão, que veiculava as propagandas do governo do tipo ‘este país vai pra frente’ ou ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’. Para quem sentiu na pele a repressão, sabe que de branda a ditadura não teve nada”.

Em 1973, Laura foi visitar a mãe em Bauru. Quando voltou, seu marido disse que tinha uma notícia muito ruim. Contou que havia encontrado Regilena de Aquino. Ela, que também havia participado da guerrilha, mas que estava de volta, pois havia se entregado ao Exército, fora casada com Jaime, seu irmão.

Regilena havia contado com detalhes que Maria Lúcia estava morta. Ela fora à casa de um camponês do Araguaia, seu “compadre”, João Coioió, que lhe havia comprado mantimentos. Maria Lúcia se tornaria madrinha de seu filho. Combinou de ir à casa logo cedo, com mais dois companheiros, Miguel Pereira dos Santos, conhecido como Cazuza, e Rosalindo de Souza, vulgo Mundico, que a ajudariam a carregar os mantimentos. Quando estava chegando, recebeu um tiro na altura da bacia e outro na cabeça. Os militares estavam na casa e a executaram assim que ela se aproximou. Seus companheiros conseguiram escapar.

Laura conta que, no momento em que soube da morte da irmã, teve que ficar calada. Sofria em silêncio e chorava às escondidas. Não podia compartilhar seu luto nem contar da morte da irmã aos amigos mais próximos.

Cena 7: será Maria Lúcia?
Quase 20 anos depois, em 1991, acharam ossadas do Araguaia. A irmã de João Carlos Haas, militante do PCdoB que também esteve na guerrilha, obteve indicações de moradores da região de que seu irmão estava enterrado no cemitério de Xambioá, no Tocantins. A Comissão de Justiça e Paz da Prefeitura de São Paulo foi até a região, acompanhada de uma equipe de legistas da Unicamp.

No lugar da escavação em busca de restos mortais de João Hass, foi encontrada, envolta em um paraquedas, uma ossada de uma mulher que teria entre 20 e 24 anos. Junto, estavam os projéteis de uma metralhadora de uso militar. Na ocasião, Fortunato Badan Palhares, à frente da equipe de legistas, afirmou, em entrevista à TV Manchete, que certamente era uma guerrilheira, principalmente porque tinha uma coroa de dente tratada. Se fosse uma moradora da região, não teria tratamento dentário nem tipo algum de prótese.

A informação chegou à Laura Petit. Os restos mortais encontrados talvez pudessem ser de sua irmã. A ossada foi levada à Unicamp. “Na volta do cemitério de Xambioá para São Paulo, Badan Palhares parou em Brasília e conversou com Romeu Tuma. Consta que, nessa época, Tuma teria recomendado a Palhares que não identificasse ossadas de nenhum guerrilheiro do Araguaia. Assim, a atitude dele mudou completamente depois daquela primeira entrevista para a TV Manchete”, conta Laura.

Nessa época, Luiza Erundina, prefeita de São Paulo, deu muito apoio à comissão de familiares. Selou um convênio para que o Departamento de Medicina Legal da Unicamp fizesse identificações de ossadas.

História da carochinha
“Fui umas três vezes até a Unicamp levar fotos e outras coisas que pudessem ajudar na identificação da ossada. Mostrei fotos da Maria Lúcia e o depoimento da Regilena dizendo como ela estava vestida no dia em que foi morta: com uma calça de brim e um cinto de couro com fivela de metal. Portava uma cartucheira de 20mm e uma espingarda de caça. Como estavam no meio da mata, tinham que caçar para comer”, lembra.

“Cheguei à Unicamp um dia cedo, e o Palhares não estava. Fiquei esperando até às dez horas da noite. Ele tinha ido a Vinhedo ver uma santa que chorava para fazer a perícia. Chegou tarde e me atendeu muito rapidamente. Já chegou falando: ‘não, não é sua irmã, o cabelo que tem aí é claro. Na foto que você me trouxe, ela tem cabelo escuro. Essa mulher que está aí dentro tem cabelo encaracolado, o que não era o caso da sua irmã!’. Ele tentou me contar uma história da carochinha: ‘você ainda vai encontrar sua irmã, não se preocupe’. Como se eu não tivesse certeza absoluta de que ela tinha sido executada. E ainda gritou comigo: ‘o cabelo que está aí é claro, você quer ir lá dentro ver?’. Imagine se eu, sendo irmã, às dez horas da noite, cansada e impactada pela expectativa, diria ‘sim, eu quero que você me mostre’. Recuei: ‘não, agora, não’. Como é que, sem preparo algum, eu poderia entrar naquela sala e olhar? Não sou uma técnica de Instituto Médico Legal!”. Laura conta que Palhares nunca deu a possibilidade de se fazer um exame de DNA. “Eu era a irmã dela e nossa mãe ainda estava viva quando a ossada foi encontrada”.

Badan deixou o caso de lado por um tempo, e, além disso, Laura estava passando por um período muito difícil. Em 1990, perdeu a filha caçula, de então quatro anos de idade. Em 1991, quando houve a exumação e a possibilidade de identificar a irmã, ainda estava muito impactada pela perda da menina. Foi algumas vezes até a Unicamp e não teve retorno algum. “Ainda disse a Palhares que conhecia o dentista que havia tratado o dente da Maria Lúcia. Eu poderia procurá-lo. E ele falou: ‘procure e me traga as radiografias’. Fui até Bauru atrás do Dr. Tanaka e pedi as radiografias. Ele disse que, depois de mais de 20 anos, não tinha mais nada de Maria Lúcia, mas que, apesar disso, lembrava direitinho do trabalho feito. Nossa mãe não tinha muito dinheiro para uma coroa de ouro, então ele fizera de outro metal. Afirmou ser capaz de reconhecer o dente, porque o trabalho de prótese é quase artesanal. Quando contei ao Badan Palhares, ele afirmou que só aceitava receber o dentista com as radiografias em mãos”.

Estado que ainda mata
Em abril de 1996, o jornal O Globo publicou uma grande reportagem, durante uma semana, sobre a Guerrilha do Araguaia. Um militar entregara todas as suas anotações com fotos e fatos sobre os enfrentamentos entre as forças da ditadura e os militantes do PCdoB. Uma das autoras da reportagem foi a São Paulo à procura de Laura.

Queria que ela reconhecesse Maria Lúcia. “Era uma foto da Maria Lúcia deitada em um paraquedas com um saco plástico cobrindo seu rosto. Eu reconheci, claro que era a Maria Lúcia. E aparecia a calça de brim e o cinto com fivela de metal que estavam com a ossada na Unicamp. Além disso, aqueles restos mortais haviam sido achados envoltos em um paraquedas”.

Depois de ver as fotos, Laura voltou para casa. Estava atordoada, desolada. Viu a irmã morta, lembrou-se da filha que havia perdido e ficou, então, comparando o que as duas tinham de parecido. “A Maria Lúcia era ligeiramente estrábica, usava óculos desde pequena e minha filha também precisou usar, desde bebê”. Quando chegou em casa e ligou a televisão, o noticiário anunciava: 17 de abril de 1996, no sul do Pará, 19 sem-terra foram mortos pela polícia. Era o massacre de Eldorado dos Carajás. “Pra mim, aquilo foi muito, muito forte. Ligo a televisão e vejo PMs armados, praticamente na mesma região, matando camponeses. Dezenove deles. Lembro que, na ocasião, pensei: ‘puxa vida, este país está como anos atrás’. Tinha acabado a ditadura e o Estado continuava matando”.

Cena 8: é ela, é ela!
Depois de publicada a matéria, a jornalista d’O Globo mandou à Laura as fotos de Maria Lúcia ampliadas. “Fomos com a comissão de familiares até a Unicamp. Chegamos com as fotos e, a nós, se juntou uma comissão grande de estudantes da Unicamp, para colocar o Badan contra a parede. Tinha imprensa e tudo mais. Quando ele chegou e viu aquela movimentação toda, acuado, falou, naquele tom professoral típico dele, que só receberia a mim e a meu marido”.

Badan viu as fotos e, finalmente, falou que faria a identificação, “pois, agora sim, tinha indícios. Eu deveria até trazer o dentista de Bauru”, conta Laura. Sua ida à Unicamp foi perto do dia 2 de maio de 1996. Em 15 de maio, o legista convocou uma entrevista coletiva para anunciar à imprensa e à sociedade a identificação de Maria Lúcia. “Ele fez, em 15 dias, o que havia demorado cinco anos para fazer”. Depois do caso PC Farias e das ossadas de Perus, o Departamento de Medicina Legal da Unicamp foi fechado por processos administrativos. “No caso PC Farias, ficou muito claro o caráter desse homem”, diz Laura.

A família Petit esperou até 16 de junho para fazer o traslado dos restos mortais da Unicamp ao cemitério. Maria Lúcia havia sido morta em 16 de junho de 1972. Foram 24 anos para ser encontrada, identificada e enterrada. Mais tempo do que ela viveu. Foi morta aos 22 anos.

“Nessa época, minha mãe disse que passaria, então, a esperar para poder sepultar seus outros dois filhos, mas, infelizmente, faleceu antes de fazer isso. Ela viveu uma espera eterna. Não conseguiu sepultar os outros dois filhos, não conseguiu que os arquivos fossem abertos nem que o governo devolvesse às famílias os restos mortais”, conta.

Vida suspensa
“Durante todo esse tempo, eu pensava, diariamente, se era ou não era minha irmã e o que poderia ser feito. É uma angústia constante, que não te deixa nunca. Depois de todas as negativas do Badan, ficamos esperando ver se alguma coisa nova acontecia. Por isso, é cada vez mais necessária a abertura dos arquivos da ditadura. O simples fato de esse militar que não se identificou entregar seus arquivos possibilitou a identificação da Maria Lúcia”, diz Laura, que indaga: “Quantos outros desaparecidos não poderiam ser localizados e identificados para que as famílias pudessem encerrar esse luto eterno? O luto é uma tristeza muito grande, mas que podemos compartir socialmente. Choramos e depois começamos a tocar a vida de novo. No nosso caso, não conseguimos concretizar a morte, porque não temos um corpo para chorar. Não encerramos esse período de luto. Não é uma tristeza, é uma melancolia que passa a nos acompanhar a vida toda. Ficamos com a vida truncada. Suspensa”.

Até a Lei de Anistia, Laura acreditava que Jaime e Lúcio poderiam estar vivos. “Eu tinha a esperança, sobretudo, que o Lúcio voltaria. Diziam que ele era um mateiro muito experiente. Durante a infância toda, tinha pescado nos rios perto de onde morávamos. Eu pensava que ele poderia ter caminhado, caminhado, até chegar à fronteira com algum país. Eu tinha um primo muito companheiro da gente na juventude. Um dia ele foi à Salvador e voltou dizendo que havia visto o Lúcio por lá e que ele tinha passado reto e fingido que não o conhecia. As pessoas ficam nessa coisa, nesse sebastianismo: eu vi em tal lugar, eu sei que vai voltar”.

Cena final: 30 anos depois ou procura-se
Segundo relatos de um camponês da região na época da guerrilha, Jaime foi morto pelos militares. Estava sozinho em uma cabana, magro, com feridas de leishmaniose e sem munição. Abriram fogo contra a cabana, uma fumaça se levantou com a poeira do chão e, quando foram ver, o corpo de Jaime estava “esbagaçado” pelos tiros.

Depois de morto, ainda teve a cabeça cortada para identificação e o corpo foi enterrado no local. A cabeça foi colocada em um saco e entregue ao chefe da operação na região, o doutor Augusto.

Já Lúcio foi preso, interrogado durante três dias e “foi feito” no dia de Tiradentes, 21 de abril. Na última foto em que se acredita que Lúcio aparece, ele está dentro de um helicóptero, provavelmente sendo levado para o “voo da morte”. Os prisioneiros eram levados para longe e executados.

Até hoje, nenhuma notícia deles. Nenhuma certeza. E Laura é apenas uma das pessoas que seguem esperando. Hoje, no Brasil, são 144 os desaparecidos políticos. Como definiu Ivan Seixas, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, “são os fantasmas que voltam sempre. São os fantasmas que querem lembrar que não podem ser esquecidos”.

Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar
Trecho da letra da música “Angélica”, de Chico Buarque.


-----Anexo incorporado-----


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Músico quer ser Presidente no Haiti

A candidatura do músico Wyclef Jean à Presidência do Haiti, oficializada na
noite desta quinta-feira, foi criticada pelo ator Sean Penn.
Em entrevista à CNN, o ator revelou que Jean é acusado de ter desviado mais
de US$ 400 mil doados para a reconstrução do país após o terremoto. "Isso
precisa ser investigado."
"Eu estive lá, eu sei o que US$ 400 mil poderiam fazer pela vida daquelas
pessoas", disse.
Andrés Martínez Casares/Efe
Sean Penn é um dos fundadores da organização J/P Haitian Relief Organization
e esteve no país diversas vezes desde o terremoto que devastou o país em
janeiro deste ano.
Penn também questionou os motivos de Jean para se candidatar e declarou que
o músico não participou dos esforços para ajudar as vítimas da tragédia.
"O que eu gostaria de ver é alguém realmente disposto a se sacrificar pelo
país e não alguém que eu vi em uma comitiva vulgar de veículos que
ostentavam riqueza no Haiti. Naquele contexto, aquilo me pareceu uma
demonstração obscena."
Segundo as agências internacionais, a candidatura de Wyclef Jean à
Presidência foi apresentada nesta quinta-feira ao escritório do conselho
eleitoral do país.
"Os Estados Unidos têm Obama, aqui vamos ter Wyclef", comparou o músico em
sua primeira declaração pública. "Hoje o mundo inteiro nos olha. Eu
represento todos os haitianos", completou.
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/778803-sean-penn-acusa-wyclef-jean-de-desviar-dinheiro-do-haiti.shtml
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Tá esquentando a coisa no Haiti!!!

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HEITOR (((((º_º))))) CARLOS
http://portodoscasais.blogspot.com/
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FARC

Caros do Grupo,

com referência a crise entre a Venezuela e a Colômbia, o tema merece de fato algumas reflexões, em especial frente ao texto que lhes encaminho abaixo. E, sobre a questão brasileira neste conflito, respostas, no mínimo, às seguintes perguntas:

1.Qual o volume de cocaína e crack produzido hoje na Colômbia, em especial pelas milicias para-militares ligadas ao Governo Uribe e pelas FARC?
2.Qual a produção de cocaína e crack produzida na Bolívia?
3.Qual a produção de cocaína produzida no Perú e no Equador?
4.O que efetivamente estes países (Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Perú e Equador) estão fazendo para erradicar o arbusto Erythroxylum coca Lamarck de seu território?
5.Em quais países a Erythroxylum coca Lamarck pode ser cultivada legalmente? E nestes o que é feito de efetivo para impedir a produção de pasta e refino da coca?
6.Qual a quantidade desta droga, incluindo também a pasta que vem da Bolívia, entra no Brasil e é aqui processada e consumida?
7.Qual o número de mortes imputadas à cocaína e ao crack no Brasil?
8.E destas, qual o número de menores?
9.E destas, qual o número de negros e demais afrodescendentes?
10.E destas, qual é o número de adolescentes grávidas?
11.E qual o número de pessoas que estão em tratamento?
12.E destas sob tratamento na área de saúde pública?
13.Qual o gasto público com o tráfico de drogas, em especial junto à justiça e a polícia judiciária, junto à área de saúde e na área da prevenção ao crime?
14.Qual a justificativa da presença norte-americana na Colômbia? E qual o poderio militar deste país presente naquele país?
15.Qual a justificativa da presença de militares cubanos na Venezuela?
16.Qual o poder de armamentos nas mãos de milicias bolivarianas e por que pessoas identificadas com a repressão cubana estão hoje assessorando o Governo de Chávez?
17.Qual a razão da produção do arbusto Erythroxylum coca Lamarck ter aumentado exponencialmente após o atual presidente Juan Evo Morales Ayma da Bolívia, conhecido como índio cocalero, ter sido eleito?
18.Dentre os seguintes países, quais possuem entidades que participam do Foro San Pablo, incluindo as entidades ilegais: Brasil, Uruguay, Paraguay, Argentina, Nicaragua, Honduras, El Salvador, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Perú, Barbados, Cuba, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Guatemala, México, Porto Rico, Estados Unidos, Canadá e Equador?
19.Dentre as seguintes entidades, legais ou ilegais em seus respectivos países, quais delas fazem ou fizeram parte do Secretariado Permanente do FSP - Foro San Pablo: Partido dos Trabalhadores; FARC (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia – Ejército del Pueblo); Izquierda Unida (Peru); Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (El Salvador); Frente Sandinista de Libertação Nacional (Nicarágua); Partido Comunista de Cuba; Frente Ampla do Uruguai; Partido da Revolução Democrática (México); Movimiento Lavalás (Haiti); Movimiento Bolivia Libre e MST (Movimento dos Sem-Terra - Brasil)?
20.Quais são as principais ações que o Brasil está tomando, no campo das Relaões Exteriores e da Defesa (Exército, Marinha e Aeronáutica) para coibir o tráfico de drogas e a presença de traficantes dos países produtores atuando no Brasil?
21.E internamente, quais são as principais ações desenvolvidas pelas polícias judiciárias (Polícia Federal, Policia Civil e Polícia Técnico-cintífica), que são responsáveis pelos primeiros passos da justiça, e pelas Polícias e Brigadas Militares e pelas Polícias Rodoviárias Federal e Estaduais, que são responsáveis, entre outras atribuições, pela preservação da ordem pública através de serviços de policiamento ostensivo e preventivo?
22.Qual a razão da candidata Dilma Vana Русев Russév Linhares e os principais membros de seu partido, o PT - Partido dos Trabalhadores, evitarem de falar sobre o Foro San Pablo?
23.Qual a razão de jornalistas e a mídia noticiarem o envolvimento de membros do PT e das FARC, dentro e fora do Foro San Pablo e estes não serem denunciados, darem ao PT "Direito de Resposta", ou ainda o PT ou seus membros virem a público esclarecendo os fatos denunciados?
24.Quais são as ações educativas, e de esclarecimento aos pais, desenvolvidas nacionalmente, e nos Estados, visando a prevenção ao uso de drogas, com destaque ao uso da cocaína e do crack?
25.Quais são as ações desenvolvidas junto a gestores educacionis e aos professores desenvolvidas nacionalmente, e nos Estados, visando a prevenção ao uso de drogas, com destaque ao uso da cocaína e do crack?
26.Qual o percentual de maconha apreendida que contém percentuais de crack na sua composição?

E para finalizar:

Qual a razão que os seguintes partidos apresentam para justificar o apoio à candidatutura da Sra. Dilma Vana Русев Russév Linhares do PT - Partido dos Trabalhadores: PMDB, PR, PSB, PDT, PC do B, PSC, PTC, PRB, PTN, e aqueles que também apoioam o candidatos do PT em São Paulo: PSDC, PPL, PT do B, PRP e PSL?

Entendo que estas são perguntas que os candidatos à presidência devem nos responder ou, quando muito, repassar os questionamentos e acompanhá-los nas suas respostas.


Abraços,

Gerhard Erich Boehme
gerhard@boehme.com.br
(41) 8877-6354
Skype: gerhardboehme
Caixa Postal 15019
80530-970 Curitiba - PR


"Os analfabetos deste novo século não são aqueles que não sabem ler ou escrever, mas aqueles que se recusam a aprender, reaprender e voltar a aprender." (Alvin Toffler)



Não é uma só uma "marolinha verbal"


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Economista Roberto Fendt
fendt@terra.com.br
http://www.dcomercio.com.br/materia.aspx?id=49320


O mundo, em especial os países vizinhos, não podem ficar indiferentes ante a cumplicidade do governo Chávez com o narcotráfico das FARC, que opera impunemente na Venezuela.
Manda a boa norma de conduta no relacionamento entre as nações que um chefe de Estado não dê palpites sobre assuntos que dizem respeito apenas a outras nações. Desrespeitar essa norma geralmente produz efeitos desagradáveis. É que se constata após os infelizes comentários do senhor presidente da República sobre a crise em evolução entre a Colômbia e a Venezuela.
Disse o senhor presidente que não via crise de espécie alguma, exceto verbal. Deixou a impressão de que se tratava de pinimba entre Chávez e Uribe. Nada mais distante da realidade. Infelizmente, não estamos diante de uma "marolinha" diplomática. Nem de um capricho de um presidente que vai para casa no próximo dia sete de agosto.
No último dia 22, o embaixador colombiano na Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Alfonso Hoyos, mostrou as provas da agressão venezuelana à Colômbia. Falando perante o Conselho Permanente da Organização, o embaixador Hoyos apresentou os fatos: o conteúdo do computador do comandante Raúl Reyes, apreendido em março em território equatoriano. Junto com os documentos apreendidos, apresentou também fotos de satélite e vídeos que atestam cabalmente que a Venezuela se transformou em santuário para os terroristas narcotraficantes das FARC.
De novidade, somente o conjunto dos documentos apresentados e a surpresa da apresentação. Há anos a Colômbia queixa-se da presença das FARC em território venezuelano. Como queixou-se, repetidamente, dessa mesma presença em território equatoriano. Agora, a Colômbia pretende que a Venezuela permita que uma comissão internacional visite os locais apontados como santuários das FARC. A resposta de Hugo Chávez foi um solene "não" à proposta colombiana apresentada na Unasur.
O acordo proposto incluía cinco pontos – os primeiros três consistindo na criação de uma zona de paz e cooperação na América do Sul; o compromisso de todos os Estados membros de buscar a solução de controvérsias exclusivamente por meios pacíficos, pelo entendimento diplomático e pelo respeito à inviolabilidade dos Estados e ao princípio da não intervenção; e o compromisso dos Estados membros de combater as ameaças provenientes da ação de grupos armados irregulares, ou de organizações criminosas e do narcotráfico. Para esse fim propôs-se a criação de mecanismos eficazes – bilaterais e multilaterais – de cooperação para garantir a segurança e a paz na região.
A esses três pontos, agregaram-se mais dois: rever as propostas dos países membros para assegurar a paz e criar um conselho de chefes de Estado na América do Sul, responsável por colocar em prática as demais recomendações.
A resposta de Chávez à proposta de entendimento não tardou. Na sexta-feira, o presidente venezuelano afirmou estar repassando "planos de guerra" contra a Colômbia, por julgar que Uribe é "capaz de tudo" antes de passar o poder ao sucessor eleito no próximo dia sete de agosto.
A paranoia lhe é conveniente. A economia "bolivariana" da Venezuela está em escombros, por conta do seu desastrado desgoverno. A inflação gira em torno de 30% e não há, como havia no Brasil, nenhum mecanismo de correção de preços e salários.
Nesse contexto, nada melhor que encontrar um bode expiatório externo. Até porque o território venezuelano já está abrigando cerca de 1.500 narcotraficantes das FARC, treinando e descansando dos sequestros e de outros atos de violência praticados contra civis colombianos e venezuelanos.
O que poderia ter feito a Colômbia, se não alertar a comunidade internacional de que está sendo agredida pelo narcotráfico abrigado na Venezuela? O alerta está feito e somente há a lamentar o silêncio dessa mesma comunidade diante da gravidade do fato.
O mundo, e particularmente os países vizinhos, não podem ficar indiferentes diante da cumplicidade do governo de Caracas com o narcotráfico das FARC operando impunemente em solo venezuelano. Foi omissão semelhante diante da continuada agressão aos países vizinhos que criou as condições para a Segunda Guerra Mundial.
Pior ainda foi a reação brasileira, que procurou ridicularizar as denúncias colombianas. Mais uma vez, o nosso ministério de Relações Exteriores expôs o presidente e o Brasil a uma situação desconfortável. Seja porque omitiu-se e não esclareceu o senhor presidente da República sobre a gravidade da denúncia do governo colombiano e dos riscos para o nosso próprio país da existência de santuários das FARC na Venezuela; seja porque não emitiu uma nota apoiando a formação de uma comissão internacional para apurar essas mesmas denúncias em território venezuelano.

Roberto Fendt - 2/8/2010 - 19h52

Terceira Guerra Mundial

Carta Capital



Objetivo Irã: os riscos de uma Terceira Guerra Mundial

As consequências de um ataque mais amplo por parte dos EUA, da OTAN e de Israel contra o Irã são de grande alcance. A guerra e a crise econômica estão intimamente relacionadas. A economia de guerra é financiada por Wall Street que, por sua vez, se ergue como credor da administração dos EUA. Por sua vez, “a luta pelo petróleo” no Oriente Médio e Ásia Central serve diretamente aos interesses dos gigantes do petróleo anglo-estadunidense. Os EUA e seus aliados estão “batendo os tambores da guerra” na altura de uma depressão econômica mundial, para não mencionar a catástrofe ambiental mais grave na história da humanidade. O artigo é de Michel Chossudovsky, diretor do Centro para Investigação sobre a Globalização.

Michel Chossudovsky - Global Research

Centro para a Investigação da Globalização (Global Research on Globalization)

A humanidade está numa encruzilhada perigosa. Os preparativos de guerra para atacar o Irã estão em estágio avançado. Sistemas de alta tecnologia, incluindo armas nucleares, estão totalmente desenvolvidos. Esta aventura militar está colocada sobre o tabuleiro de xadrez do Pentágono desde meados da década de 1990. Primeiro o Iraque, depois o Irã, segundo documentos desclassificados de 1995, do Comando Central dos EUA.

A escalada é parte da agenda militar. Além do Irã, próximo objetivo junto com a Síria e o Líbano, esse desdobramento estratégico ameaça também a Coréia do Norte, a China e a Rússia. Desde 2005, os EUA e seus aliados, incluídos aqui os Estados Unidos da OTAN e Israel, estão envolvidos numa ampla atividade e no armazenamento de sistemas de armas avançados.

Os sistemas de defesa aéreos dos EUA, os países membros da OTAN e Israel estão totalmente integrados. Trata-se de uma tarefa coordenada pelo Pentágono, pela OTAN e pela Força de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), com a participação ativa de militares de vários países da OTAN e não só, incluindo os estados árabes de primeira linha (os membros da OTAN do Mediterrâneo e a Iniciativa de Cooperação de Istambul), Arábia Saudita, Japão, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, Singapura, Austrália, entre outros. A OTAN se compõe de 28 estados membros. Outros 21 países são membros do Conselho da Aliança Euro-Atlântica (EAPC); o Diálogo Mediterrânico e a Iniciativa de Cooperação de Istambul contam com dez países árabes e Israel.

O papel do Egito, dos Estados do Golfo e da Arábia Saudita (dentro de uma aliança militar ampliada) é de particular relevância. O Egito controla o trânsito de barcos de guerra e de barcos petroleiros pelo Canal de Suez. Arábia Saudita e os Estados do Golfo ocupam a costa ocidental do sul do Golfo Pérsico, o estreito de Ormuz e o Golfo de Omã.

Em princípios de junho deste ano o Egito informou que permitiu a onze barcos dos EUA e de Israel passar pelo Canal de Suez, numa aparente sinalização ao Irã. Em 12 de junho, vozes da imprensa regional informaram que os sauditas haviam dado a Israel autorização para sobrevoar seu espaço aéreo (Mirak Weissbach Muriel, Israel Insane War on Iran Must Be Prevented, Global Research, 31 de julho de 2010). Na doutrina militar consagrada após o 11 de setembro, o estabelecimento massivo de armamento militar se definiu como parte da chamada Guerra Global contra o terrorismo, dirigido para organizações terroristas não estatais, como a Al Qaeda e os chamados Estados patrocinadores do terrorismo, entre eles o Irã, Síria, Líbano e Sudão.

A criação de novas bases militares dos EUA, o armazenamento de armas avançadas, incluindo as armas nucleares táticas, etc. foram levadas a cabo como parte da preventiva doutrina militar defensiva debaixo do guarda chuva da "Guerra Global contra o Terrorismo".

Guerra e crise econômica
As consequências de um ataque mais amplo por parte dos EUA, da OTAN e de Israel contra o Irã são de grande alcance. A guerra e a crise econômica estão intimamente relacionadas. A economia de guerra é financiada por Wall Street que, por sua vez, se ergue como credor da administração dos EUA.

Os produtores de armas dos EUA são os destinatários de bilhões de dólares do Departamento de Defesa do país, pelos contratos de aquisição de sistemas de armas avançadas.

Por sua vez, “a luta pelo petróleo” no Oriente Médio e Ásia Central serve diretamente aos interesses dos gigantes do petróleo anglo-estadunidense. Os EUA e seus aliados estão “batendo os tambores da guerra” na altura de uma depressão econômica mundial, para não mencionar a catástrofe ambiental mais grave na história da humanidade. Por amarga ironia, a British Petroleum, uma das maiores jogadoras do tabuleiro de xadrez geopolítico da Ásia Central no Médio Oriente, antigamente conhecida como Anglo-Persian Oil, causou a terrível catástrofe ecológica no Golfo do México.

Meios de desinformação
A opinião pública, influenciada pelo barulho dos meios de comunicação, oferece apoio tático, indiferente ou ignorante dos possíveis impactos daquilo que se mantém propositalmente como um fator punitivo da operação dirigida contra as instalações nucleares do Irã em lugar de uma guerra total.

Os preparativos de guerra incluem o aumento da atividade dos fabricantes de armas nucleares dos EUA e de Israel. Neste contexto, as consequências devastadoras de uma guerra nuclear são banalizadas ou simplesmente não se mencionam. A crise “real” que ameaça a humanidade é o “aquecimento global” e não a guerra.

A guerra contra o Irã é apresentada à opinião pública como um tema banal entre tantos outros. Não é apresentado como uma ameaça à Mãe Terra, como é o caso do aquecimento global. Não se noticia com destaque. O fato de que um ataque contra o Irã poderia levar a uma potencial escalada e o desencadear uma guerra global não é motivo de preocupação.

Culto à morte e a destruição
A máquina global de matar é sustentada pelo culto à morte e pela destruição que impregnam muitos dos filmes de Hollywood, e por não mencionar as guerras no horário nobre. E também pelas séries de televisão sobre delinquência.

Este culto à matança está respaldado pela CIA e pelo Pentágono, que apóia, financiando, produções de Hollywood como instrumento de propaganda de guerra.

O ex-agente da CIA Bob Baer disse: "Existe uma simbiose entre a CIA e Hollywood e revelou que o ex-diretor da CIA, George Tenet, se encontra atualmente em Hollywood, conversando com os estúdios. (Matthew Alford and Robie Graham, “Lights, Camera Covert Action: The Deep Politics of Hollywood”, Global Research, 31 de janeiro de 2009).

A máquina de matar se desenvolveu em nível global dentro do marco de estrutura de comando de combate unificado. E é mantida habitualmente por instituições de governo, meios corporativos, altos funcionários e intelectuais que se colocam à disposição de uma Nova Ordem Mundial a partir de um grupo de pensadores de Washington e dos institutos de investigação de estudos estratégicos, como instrumento indiscutível da paz e da prosperidade mundial. É a cultura da morte e da violência gravando-se na consciência humana.

A guerra está amplamente aceita como parte de um projeto social: a Pátria tem que ser defendida e protegida.

A violência legitimada e as execuções extrajudiciais contra os terroristas são mantidas nas democracias ocidentais como instrumentos necessários de segurança nacional.

Uma “guerra humanitária” é sustentada pela chamada comunidade internacional. Não é condenada como um ato criminoso. Seus principais idealizadores são recompensados por suas contribuições à paz mundial. Em relação ao Irã, o que se está desenvolvendo é a legitimação direta de uma guerra em nome de uma idéia ilusória de segurança mundial.

Um ataque aéreo “preventivo” contra o Irã levaria a uma escalada. Na atualidade existem três teatros de guerra no Oriente Médio e Ásia Central: Iraque, Afeganistão/Paquistão e Palestina.

Se o Irã se tornar objeto de um ataque “preventivo” por forças aliadas, toda a região, desde o Mediterrâneo Oriental até a fronteira da China com o Afeganistão e o Paquistão poderia arder em chamas, o que nos conduz, potencialmente, a um cenário de Terceira Guerra Mundial.

A guerra se estenderia ao Líbano e a Síria. É muito pouco provável que se os ataques, caso se concretizassem, ficassem circunscritos a instalações nucleares do Irã, como afirmam as declarações oficiais dos EUA e da OTAN. O mais provável será um ataque aéreo tanto a infraestruturas militares como civis, sistemas de transporte, fábricas e edifícios públicos.

O Irã, com dez por cento estimados do petróleo mundial, ocupa o terceiro lugar em reservas de gás, depois da Arábia Saudita (25%) e o Iraque (11%), pelo tamanho de suas reservas. Em comparação, os EUA têm menos de 2,8% das reservas mundiais de petróleo. (Cf. Eric Waddell, The Battle for Oil, Global Research, dezembro de 2004).

É de grande importância o recente descobrimento no Irã, nas regiões de Soumar e Halgan, das segundas maiores reservas mundiais conhecidas que se estimam em 12,4 bilhões de pés cúbicos. Apontar as armas ao Irã não só consiste em recuperar o controle anglo-estadunidense sobre o petróleo e a economia de gás, incluindo-se as rotas de oleodutos, mas também questiona a influência da China e da Rússia na região.

O ataque planificado contra o Irã faz parte de um mapa global coordenado de orientação militar. É parte da “longa guerra do Pentágono”, uma proveitosa guerra sem fronteiras, um projeto de dominação mundial, uma sequencia de operações militares.

Os planificadores militares dos EUA e da OTAN têm previsto diversos cenários da escalada militar. E são também muito conscientes das implicações geopolíticas, como por exemplo, saber que a guerra poderá se estender para além da região do Oriente Médio e da Ásia Central. Os efeitos econômicos sobre os mercados do petróleo, etc. são também analisados. Enquanto o Irã, a Síria e o Líbano são os objetivos imediatos, China, Rússia, Coréia do Norte, sem contar Venezuela e Cuba, são também objeto de ameaça dos EUA.

Está em jogo a estrutura das alianças militares. As atividades militares da OTAN-EUA-Israel, incluindo manobras e exercícios realizados na Rússia e suas fronteiras próximas com a China têm uma relação direta com a guerra proposta contra o Irã. Estas ameaças veladas, incluindo o seu calendário, constituem um claro aviso aos antigos poderes da época da Guerra Fria, para evitar que possam ou venham a interferir em um ataque dos EUA ao Irã.

Guerra Mundial
O objetivo estratégico em médio prazo é chegar ao Irã e neutralizar seus aliados, através da diplomacia dos tiros de canhão. O objetivo militar em longo prazo é dirigir-se diretamente à China e a Rússia.

Ainda que o Irã seja o objetivo imediato, o desdobramento militar não se limita ao Oriente Médio e a Ásia Central. Uma agenda militar global está estabelecida. O avanço das tropas de coalizão e os sistemas de armas avançadas dos EUA, da OTAN e seus sócios, está se configurando de forma simultânea em todas as principais regiões do mundo.

As recentes ações dos militares dos EUA em frente as costas da Coréia do Norte em forma de manobras são parte de um desenho global. Os exercícios militares, simulações de guerra, o deslocamento de armas, etc. dos EUA, da OTAN e seus aliados que se estão realizando simultaneamente nos principais pontos geopolíticos, visam principalmente a Rússia e a China.

-A península da Coréia, o Mar do Japão, o estreito de Taiwan, o Mar Meridional da China, ameaçam a China.

- O deslocamento de mísseis Patriot para Polônia, o Centro de Alerta próximo à República Checa, ameaça a Rússia.

- Avanços navais na Bulgária, na Romênia e Mar Negro, ameaçam a Rússia.

- Avanços de tropas da OTAN e dos EUA na Geórgia também.

- Um deslocamento naval de grande dimensão no Golfo Pérsico, incluindo-se submarinos israelenses, dirigidos contra o Irã.

Ao mesmo tempo, o Mediterrâneo Oriental, o Mar Negro, o Caribe, América Central e região andina da América do Sul, são as zonas de militarização em curso. Na América Latina e no Caribe, as ameaças se dirigem à Venezuela e a Cuba.

“Ajuda militar” dos EUA
Por sua vez, transferências de armas em grande escala foram feitas sob a bandeira norte americana como “ajuda militar” a países selecionados, incluindo-se cinco bilhões de dólares num acordo de armamento com a Índia que se destina a melhorar as capacidades bélicas da Índia contra a China. (Huge U.S – Índia Arms Deal To Contain China, Global Times, 13 de julho de 2010).

“Isto (a venda de armas) significa melhorar as relações entre Washington e Nova Delhi e, de forma deliberada ou não terá o efeito de conter a influência da China na região”. (Citado em Rick Rozoff, Confronting both China and Russia: U.S. Risks Military Clash With China in Yellow Sea, Global Research, 16 de julho de 2010).

Os EUA conseguiram acordos de cooperação militar com alguns países do sul da Ásia Oriental, como Singapura, Vietnã e Indonésia, incluindo sua “ajuda militar”, assim como a participação em manobras militares, sempre dirigidas pelos Estados Unidos, na órbita do Pacífico (julho/agosto de 2010). Esses acordos são de apoio às implementações de armas dirigidas contra a República Popular da China. (Cf. Rick Rozoff, op. Cit.)

Do mesmo modo e mais diretamente relacionado ao ataque planificado contra o Irã, os EUA estão armando os Estados do Golfo (Bahrein, Kuwait, Qatar e os Emirados Árabes Unidos) com o interceptador de mísseis terra-ar Patriot Advanced Capability-3 (THAAD), assim como os baseados nos modelos de mísseis mar-3, interceptadores instalados em barcos de guerra de classe Aegis no Golfo Pérsico. (Cf. Rick Rozoff, NATO’s Role in the Military Encirclement of Iran, 10 de fevereiro de 2010).

Calendário de provisão e armazenamento militar
No que diz respeito à transferência de armas dos EUA para sócios e aliados, o crucial é o momento da entrega e do seu desdobramento. O lançamento de uma operação militar dos EUA ocorrerá, uma vez que esses sistemas de armas estejam em seu lugar mediante o desenvolvimento efetivo da aplicação e da capacitação do pessoal preparado. (Por exemplo, a Índia)

Estamos falando de um desenho militar mundial cuidadosamente coordenado e controlado pelo Pentágono, com a participação de forças armadas combinadas de mais de quarenta países. Esse desdobramento militar mundial é, com certeza, o maior desdobramento de sistema de armas avançados da história.

Por sua vez, os EUA e seus aliados têm estabelecido novas bases militares em diferentes partes do mundo. “A superfície da terra está estruturada como se fosse um enorme campo de batalha” (Cf. Jules Dufour, The Worldwide Network of US Military Bases, Investigación Global, 01 de julho de 2007).

O Comando Unificado da estrutura geográfica dividida em comandos de combate tem como base uma estratégia de militarização em nível global. “Os militares norte americanos têm bases em 63 países. E novas bases foram construídas a partir do 11 de setembro de 2001 em sete países. No total, existem 255.065 militares dos EUA distribuídos por todo o mundo”. (Cf. Jules Dufour, op. Cit.)
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O cenário da Terceira Guerra Mundial
Esse desdobramento militar se produz em várias regiões e ao mesmo tempo sob a coordenação dos comandos regionais dos EUA com a participação de aliados no armazenamento de arsenais norte americanos, inclusive antigos inimigos, como o Vietnã e o Japão.

O contexto atual se caracteriza por uma acumulação militar global controlada por uma superpotência mundial que está utilizando seus aliados para desencadear numerosas guerras regionais.

A diferença que se estabelece com a Segunda Guerra Mundial, que foi também uma conjunção de distintas guerras regionais, é que com a tecnologia de comunicações e sistemas de armas da década de 1940, não havia estratégia em “tempo real” para coordenar as ações militares entre grandes regiões geográficas.

A guerra mundial se apóia num desdobramento coordenado de uma só potência militar dominante, que supervisiona as ações de seus aliados e sócios.

Com exceção de Hiroshima e Nagasak, a Segunda Guerra Mundial se caracterizou pelo uso de armas convencionais. A planificação de uma guerra mundial se baseia na militarização do espaço ultra terrestre.

Se uma guerra contra o Irã se inicia, não somente o uso de armas nucleares, mas toda uma gama de novos sistemas de armas avançadas, incluindo armas eletrônicas e técnicas de modificação ambiental, seria utilizada.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas
O Conselho de Segurança da ONU aprovou em princípios de junho último uma quarta rodada de sanções de grande alcance contra a República Islâmica do Irã, que incluem o embargo de armas e “controles financeiros mais estritos”.

Em amarga ironia, esta resolução foi aprovada poucos dias depois da negativa pura e simples do mesmo Conselho de Segurança em adotar uma moção de condenação ao Estado de Israel em seu ataque à Frota pela Liberdade em Gaza em águas internacionais.

Tanto a China quanto a Rússia, pressionados pelos EUA, têm apoiado o regime de sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas em seu próprio prejuízo. Suas decisões no CS contribuem para enfraquecer sua própria aliança militar, a Organização de Cooperação de Xangai (OCS), onde o Irã tem o estatuto de observador. A resolução do Conselho de Segurança congela os respectivos acordos de cooperação militar e econômica da China e da Rússia com o Irã. Isto tem graves repercussões no sistema de defesa aérea do Irã que, em parte, depende da tecnologia e da experiência russas. A Resolução do Conselho de Segurança outorga, de fato, “luz verde” para liberar uma guerra preventiva contra o Irã.

A inquisição estadunidense: construção de um consenso político para a guerra

Em coro, os meios de comunicação ocidentais têm qualificado o Irã como uma ameaça à segurança mundial por seu suposto (inexistente) programa de armas nucleares. Fazendo eco com as declarações oficiais, os meios de comunicação estão exigindo agora a aplicação de bombardeios punitivos dirigidos contra o Irã, a fim de salvaguardar a integridade de Israel.

Esse mesmos meios de comunicação fazem soar os tambores de guerra. O propósito é incutir na mente das pessoas, a partir da repetição de notícias até a exaustão, a idéia de que a ameaça iraniana é real e que a República islâmica deve ser “banida”.

O processo de criação de um consenso para fazer a guerra é similar ao da Inquisição espanhola. Requer e exige submissão à idéia de que a guerra é uma tarefa humanitária.

Contudo, conhecida e documentada, a verdadeira ameaça à segurança global vem da aliança EUA-OTAN-Israel; na verdade, a realidade por um ambiente inquisitorial é exatamente o seu oposto: os belicistas parecem estar comprometidos com a paz, enquanto as vítimas da guerra se apresentam como protagonistas do conflito.

Considerando que em 2006 quase dois terços dos norte americanos se opunham a uma ação militar contra o Iraque, uma recente pesquisa feita em 2010 pela Reuter-Zogby, indica que 56% dos estadunidenses são favoráveis a uma ação militar da OTAN contra o Irã. A construção de um consenso político que se nutre de uma mentira não pode, contudo, confiar somente na posição oficial daqueles que são a fonte da própria mentira.

Os movimentos pacifistas nos EUA, que em parte têm sido infiltrados e cooptados, assumiram uma posição fragilizada em relação ao Irã. O movimento contra a guerra está dividido. A ênfase se coloca contra as guerras que estão em andamento (Afeganistão e Iraque) ao invés de se oporem vigorosamente a guerras que estão sendo preparadas e que se encontram sobre o tabuleiro de xadrez do Pentágono.

Desde a posse de Barack Obama, o movimento contra a guerra perdeu muito da sua força. Por outro lado, aqueles que se opõem ativamente às guerras no Afeganistão e no Iraque, não se opõem necessariamente à realização de “bombardeios punitivos” contra o Irã, nem consideram essas ações como atos de guerra. Guerra esta que poderia ser o prelúdio da Terceira Guerra Mundial.

A escalada de protestos contra a guerra em relação ao Irã tem sido mínima em comparação com as enormes manifestações que precederam os bombardeios de 2003 e a invasão do Iraque.

Mas a verdadeira ameaça à segurança do mundo vem da aliança EUA-OTAN-Israel. À operação Irã, não se opuseram, no âmbito diplomático, tanto a China quanto a Rússia, sendo que conta também com o apoio dos governos dos estados árabes de primeira linha que integram o diálogo OTAN - Mediterrâneo. Conta também com o apoio tácito da opinião pública ocidental.

Fazemos aqui um apelo às pessoas de todos os países, nas Américas, Europa Ocidental, Turquia, Israel, em todo o mundo, a levantarem-se contra este projeto militar, contra os seus governos que apóiam a ação militar no Irã, a levantarem-se contra os meios de comunicação que servem para dissimular as devastadoras conseqüências de uma guerra contra o Irã. Esta guerra será uma insanidade.

A Terceira Guerra Mundial é terminal. Albert Einstein sabia dos perigos da guerra nuclear e da extinção da vida na terra, que já começou com a contaminação radioativa resultante do urânio empobrecido. “Não sei com que armas se fará a luta numa III Guerra Mundial, mas na IV Guerra Mundial se lutará com paus e pedras”. Os meios de comunicação, os intelectuais, os cientistas e os políticos, em coro, ofuscam a verdade não contada, ou seja, que a guerra que utiliza ogivas nucleares destrói a humanidade e que este complexo processo de destruição gradual já começou.

Quando a mentira se converte em verdade, já não há volta atrás. Quando a guerra se invoca como uma “tarefa humanitária”, a justiça e todo o sistema jurídico internacional são tomados ao contrário: o pacifismo e o movimento contra a guerra são criminalizados. Opor-se à guerra se converte num ato criminoso.

A mentira deve ser exposta como aquilo que é e o que faz: sanciona a matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças. Destrói famílias e pessoas. Destrói o compromisso das pessoas com os seus semelhantes. Impede as pessoas de expressarem sua solidariedade pelos que sofrem. Defende a guerra e o estado policial como a única saída. Destrói o internacionalismo.

Impedir a mentira significa impedir um projeto criminoso de destruição global. Nela, a busca do benefício é a força primordial. Este benefício, movendo a agenda militar, destrói os valores humanos e transforma as pessoas em zumbis inconscientes. Vamos inverter essa maré.

Desafio aos criminosos de guerra em seus altos cargos e em suas poderosas corporações, bem como aos grupos de pressão que os apóiam: fim da inquisição dos Estados Unidos da América. Fim da cruzada militar EUA-OTAN-Israel.Fechem as fábricas de armas e as bases militares. Retirada das tropas dos campos de guerra. Os membros das Forças Armadas devem desobedecer às ordens e negarem-se a participar de uma guerra criminosa.

(*) Michel Chossudovsky é laureado autor, professor (emérito) de Economia na Universidade de Ottawa e diretor do Centro para Investigação sobre a Globalização (CRG), Montreal. É autor de ‘La Globalización de la Pobreza y el Nuevo Orden Mundial’ (2003) e de ‘La guerra de América contra el terrorismo’ (2005). Também é colaborador da Enciclopédia Britânica. Seus escritos são publicados em mais de vinte idiomas.

Tradução do espanhol de Izaías Almada.


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Anistia

Portal Vermelho
Brasil, sábado,14 Agosto 2010
Editoral
Anistia e reparação: questão de justiça
Qual é a abrangência de uma anistia política? Ela se limita ao "esquecimento" de acontecimentos que, na ditadura, foram considerados criminais por representarem a resistência contra o arbítrio, ou envolve também a reparação material de prejuízos causados pela perseguição política?

Estas são questões que voltam à pauta após a decisão do Tribunal de Contas da União de revisar pagamentos feitos a perseguidos políticos pela ditadura de 1964. A decisão envolve 9.371 benefícios já concedidos, com indenizações que atingem cerca de 4 bilhões de reais já pagos ou aprovados, entre eles a anistia a Carlos Lamarca e a reparação a seus familiares.

A decisão do TCU significa uma reinterpretação da lei que determina aquelas reparações. Ela não revê a condição de anistiado, mas os valores pagos, decisão que a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça considera anticonstitucional, chegando inclusive a encará-la como uma ameaça à Carta Magna. É uma tentativa de colocar limites - no caso, financeiros - à aplicação da lei que define a responsabilidade do Estado pelas violações de direitos humanos ocorridas sob sua égide.

As reparações são reguladas pelas leis 9140/95, que determina o reconhecimento pelo Estado por mortos e desaparecidos políticos, e 10559/02, que abrange todos os atos ditatoriais, incluindo tortura, prisão arbitrária, demissão e transferência por motivo político, sequestro, compelimento à clandestinidade e ao exílio, banimento, expurgos estudantis e vigia ilegal de adversários políticos. No caso de perseguidos políticos que perderam o emprego, a lei manda pagar os vencimentos retroativos a 1988, data em que a Constituição foi promulgada e considerada, assim, o marco final da ditadura militar de 1964.

A legislação brasileira que determina as reparações representa um avanço em uma área ainda marcada por limitações importantes, como a imunidade dos torturadores e agentes da repressão da ditadura militar, e a falta de acesso a informações completas sobre o destino de muitos que, em mais de vinte anos da Constituição de 1988, ainda são dados como desaparecidos.

Mas há um espírito democrático que orienta a legislação brasileira que obriga ao reconhecimento da responsabilidade do Estado e determina reparações simbólicas e materiais para as vítimas. Elas representam o ônus dos crimes cometidos por agentes da repressão e envolvem - diz o advogado Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça - um processo pedagógico de reconhecimento daquelas violações e também do direito aos povos de resistir contra a opressão, sendo por isso essencial para a democracia e sua consolidação.

Nesse sentido, qualquer restrição aos direitos dos anistiados a qualquer dessas reparações (simbólica e material) só pode ser avaliada como um atentado à democracia. A questão não é financeira, mesmo porque o volume dos valores envolvidos é proporcional ao número de pessoas anistiadas e à dimensão dos crimes cometidos pela repressão política da ditadura. A questão é política e diz respeito à responsabilização do Estado e seus agentes pelos danos causados pelos crimes da repressão. É uma questão de justiça.
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Portal Vermelho
Revisão das indenizações a anistiados é golpe contra democracia
“Quando o TCU se auto-concede competência que não está prevista na Constituição enfraquece a democracia”. A manifestação foi feita pelo presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Paulo Abrão, em entrevista coletiva nesta quinta-feira (12), para analisar a decisão do Tribunal de Contas da União, tomada ontem (11) de rever todas as reparações financeiras concedidas as vítimas da ditadura militar.O órgão quer revisar 9.371 benefícios já concedidos pela Comissão de Anistia, alegando que os valores são altos e que a medida representa economia para os cofres públicos.

Abrão apresentou justificativas jurídicas, políticas e históricas para se opor a decisão e disse que o Ministério da Justiça pretende adotar todas medidas cabíveis para evitar que ela se efetive. “A Comissão de Anistia manifesta preocupação no sentido de que a decisão do TCU incorra em um equívoco jurídico, político e um retrocesso histórico”, diz a nota da Comissão distribuída aos jornalistas

Para Paulo Abrão, a proposta do TCU, baseada no argumento de que as pensões dos anistiados políticos equivalem aos benefícios pagos pela Previdência Social, vai de encontro a lei criada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional. A lei, de 2002, diferencia as pensões pagas aos anistiados ao criar o “regime jurídico do anistiado político” e estabelece que os valores pagos são de caráter indenizatório.

E lembrou ainda as regras de decadência do Estado para rever atos, lembrando que se passaram 10 anos e já foram julgados 57 mil casos, faltando apenas nove mil, que devem ser concluídos no período de dois a três anos, encerrando o “projeto de reconstrução cívica entre o cidadão e o seu próprio Estado que o violou no passado”.

“Criar procedimento revisor, que não foi declarado às vítimas, causa incerteza e insegurança”, alerta ele, enfatizando que representa uma “dupla violação” às vítimas da ditadura.

Ponto positivo

Segundo o Presidente da Comissão de Anistia, se existe um ponto positivo nessa proposta é permitir o debate sobre o assunto. “O ponto positivo é criar oportunidade para que as vítimas do regime usufruam de mais palanque para contar suas histórias”, destaca Abrão.

Ele se queixa de que todos os casos de arbitrariedade e mortes cometidos pela ditadura julgados na Comissão de Anistia não receberam a mesma atenção da imprensa como fatos como esses, quando se questiona as reparações feitas pelo Estado brasileiro às vítimas da repressão.

A proposta do TCU assim como a decisão da Justiça do Rio de Janeiro de suspender o pagamento de pensão de 55 camponeses do Araguaia representam reveses na condução do processo de redemocratização do País. Segundo Abraão, “nós ainda vivemos um estado de negação. A ausência da abertura dos arquivos da ditadura mantém um estado de questionamento, que representa um prejuízo horroroso e dá espaço para essas atitudes”, avalia.

E acrescenta que a negação, a relativização (como a definição de ‘ditabranda’ pelo jornal Folha de São Paulo) ou transformação em questão contábil é justificação para as violações.

A coletiva foi acompanhada por dezenas de anistiados. Após a fala de Paulo Abrão, o vice-presidente da Associação de Ex-Presos Políticos de São Paulo, Ivan Seixas, também falou. E disse que “nós enfrentamos a tortura, os assassinatos, vamos enfrentar essa medida”.

De Brasília
Márcia Xavier

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Guerra Afegã

DIÁRIO DA GUERRA AFEGÃ

Chico Villela

Um site e um livro fazem mais que dez mil discursos para expor sem retoques o fracasso da política de guerra no Afeganistão e da política de alianças para a ‘Guerra ao Terror’ capitaneada pelos EUA e seguida, sem voz nem opinião, pelos aliados da OTAN. O site é http://wikileaks.org. O livro , “Diplomacia Suja”, do ex-embaixador britânico no Uzbequistão Craig Murray, escocês beberrão, namorador e de coragem digna de monumento, será analisado em texto próximo.


Pinçado de discurso de campanha de BHObama: "Eu não quero apenas pôr fim à guerra; eu quero pôr fim à atitude que nos leva à guerra em primeiro lugar".

No dia 25 de julho passado, simultaneamente, os jornais The New York Times e o britânico Guardian e a revista alemã Der Spiegel dedicaram várias páginas ao tema que abala os governos aliados no momento. Fornecidos pelo coletivo de ativistas políticos conhecido pelo nome WikiLeaks, fundado em dezembro de 2006, os três meios expuseram suas leituras de cerca de 75 mil registros militares dos EUA e de países da OTAN na guerra do Afeganistão, nomeados de Diário da Guerra Afegã. Os arquivos haviam sido passados aos jornais e à revista tempos antes, com a condição de que analisassem e só iniciassem a divulgação de suas leituras no dia 25 de julho.

WikiLeaks reúne um restrito grupo de jornalistas, especialistas em segurança eletrônica e analistas, apoiados por cerca de 800 voluntários em todo o mundo, que se dedicam a revelar segredos principalmente de governos, serviços de Inteligência e grandes corporações. O intuito do grupo é trazer ao debate público temas de elevada gravidade que, por isso mesmo, quase nunca chegam às fontes de divulgação. Em entrevista à Der Spiegel online, Julian Assange, 39 anos, fundador e condutor do Wikileaks, sumariza: “Não é Wikileaks que decide revelar algo. É um ‘whistleblower’ ou um dissidente que decide revelar. Nosso trabalho é garantir que essas pessoas sejam protegidas, o público seja informado e o registro histórico não seja negado”.

Em 2009, Wikileaks recebeu o prêmio Mídia da Anistia Internacional pela revelação das mortes extra-judiciais de responsabilidade da polícia do Kenia. Antes dessa maciça distribuição de registros secretos, o coletivo WikiLeaks havia revelado um vídeo militar gravado em Baghdad que mostra dois soldados dos EUA num helicóptero matando cerca de uma dezena de civis numa praça. Dois deles eram repórter fotográfico e auxiliar de fotógrafo da agência Reuters. O fato foi comentado em blog desta NovaE. A abertura do texto destaca os objetivos do Wikileaks.

Do total de cerca de 91 mil registros, pouco mais de 15 mil foram separados para posterior análise mais aprofundada e divulgação. Os 75 mil registros abordam temas como IED (mecanismos explosivos improvisados, maior responsável por mortes de aliados); operações ofensivas; fogo inimigo; encontros com possíveis forças hostis; diálogos com velhos líderes tribais em aldeias; número de feridos, mortos e detidos, entre civis, soldados aliados, tropas afegãs e combatentes inimigos; seqüestros; informação de inteligência mais ampla e avisos explícitos de ameaças interceptadas via rádio; relatos locais da polícia e tropas afegãs; considerações sobre falta de equipamentos e suprimentos. O período coberto vai de 2004 ao fim de 2009.

Encontram-se também registros de Inteligência dos marines, de embaixadas dos EUA, relatos de corrupção do governo local e trabalhos de desenvolvimento no país. Todos os 75 mil registros podem ser encontrados catalogados neste endereço, Diário da Guerra Afegã, que apresenta também, em inglês, esclarecimentos necessários à sua plena compreensão e um mapa com as locações dos fatos registrados. Uma tradução para português pode ser vista nesta edição do site resistir.info.



Alguns aspectos destacados

BHObama - O presidente BHObama foi praticamente forçado a vir a público dizer algumas palavras sobre o maior vazamento de informações secretas da história militar dos EUA de uma guerra em andamento. Previsivelmente, afirmou que as revelações não são originais, e que nenhum fato novo surgiu dos registros. Curiosamente, faz o percurso contrário de alguns dos seus mais altos conselheiros, que alegam ser o vazamento uma ameaça aos soldados em campo e à segurança do país. Não é bem assim. Não há fatos novos para o presidente e altos conselheiros, o que os coloca, aliás, em situação incômoda perante tantos crimes e acobertamentos.

Mas há uma realidade absolutamente nova: o mundo inteiro pode ter acesso aos fatos sempre ocultos que agora podem ser vistos nos registros. Não existem ameaças, e há revelações sem conta, algumas de elevada gravidade. E há fatos que, mesmo conhecidos, como a morte de civis acima do que a grande mídia divulga, ganharam peso decisivo pela magnitude dos números e a manipulação de informações.

Mortes de civis - Analistas enxergam a morte indiscriminada de civis como a grande fonte de recrutamento do Taleban: a cada aldeia atingida, mais e mais jovens aderem à guerra. E ganham para tanto, o que, num país miserável, é dado de relevância.A mídia só divulga raramente. O site destaca as vítimas civis, “pequenas tragédias”que nunca merecem notícia pela mídia, mas que formam a maior parte das mortes e dos ferimentos e nutrem o crescente ressentimento da população contra os invasores.
A análise mostrou que há gradações de ênfases e verdades conforme variam os focos dos registros. A falsificação de dados começa em campo. “No relato de suas próprias atividades, as unidades euamericanas inclinam-se a classificar mortes de civis como morte de insurgentes, reduzir o número real de mortos ou apresentar desculpas para si mesmos.” Os relatos sobre outras unidades são mais verdadeiros, mas com raro criticismo. Já relatos sobre ações dos aliados tendem à franqueza e ao criticismo. E relatos sobre o Taleban e outros grupos de combatentes trazem detalhes e exposição de comportamentos condenáveis.

Nas palavras de Assange em entrevista à ativista Amy Goodman: “Então esse gênero de relato corrupto começa no campo e então é movido para cima através do Pentágono e do pessoal de relações com imprensa e é então colocado em uma forma politicamente digerível”. Assange reage com ironia à afirmação de Goodman de que o Pentágono empenha-se na identificação criminal das fontes: declara que, antes de preocupar-se com as fontes, o governo deveria ocupar-se em investigar os crimes de guerra relatados nos registros.

Segurança pessoal - Sobre sua segurança, Assange revelou que pessoas informadas como o celebrado repórter investigativo Seymour Hersh fizeram chegar a ele recomendações para cuidar-se. Um ex-diplomata australiano e jornalista especializado em segurança nacional alertou-o de que o governo dos EUA tentou articular-se com o pessoal de Inteligência australiano (Assange é cidadão do país) para vigilância e posterior detenção do pessoal do Wikileaks na Austrália. Segundo a fonte, o governo australiano rejeitou com ênfase a colaboração, por razões políticas.

Quanto à vigilância no Reino Unido, que é conhecida e permanente e foca milhares de pessoas, Assange não teme conseqüências, pelas extensas repercussões que teria qualquer ação na mídia e nos meios políticos e de governo locais. E, claro, não pretende ir aos EUA.

Esquadrões da morte - Outra revelação de peso foi a confirmação do papel de grupos secretos, esquadrões da morte pesadamente armados formados por militares ou agentes das CIA, nas mortes de civis. A ação desses grupos tem origem no gabinete do ex-vice de Bush, Dick Cheney, que montou um grupo ligado ao Pentágono (as suas relações com a CIA não eram boas) dedicado a assassinatos de alvos escolhidos mundo afora, e entregou seu comando ao general Stanley McChrystal, anterior comandante das forças invasoras no Afeganistão. O tema já foi tratado em alguns artigos desta NovaE.

O que se torna transparente nos registros é a falta de informação segura e de critérios para os agentes, que se deslocam pelo país, em geral em ações noturnas, para assassinar líderes insurgentes. Em centenas de casos, mulheres e crianças e outros inocentes foram vítimas desses assassinos. Como anota o NYT, a CIA pagou durante o período as despesas da agência afegã de Inteligência, e usa seus serviços como se fosse os de uma subsidiária. Um erro reconhecido dos invasores foi instituir pagamento em espécie para denúncias de presença e operações inimigas. Na impossibilidade ou lentidão de verificação sobre a veracidade da denúncia, a máquina de matar move-se mais rápido.

Artigo do analista Alex Lantier no World Socialist Web Site descreve dois desses momentos colhidos nos registros. Em 11 de junho de 2007, na busca por um líder taleban próximo a Jalalabad, no leste afegão, um comando da Task Force 373 foi surpreendido pelas luzes de um holofote. Um helicóptero de combate chamado pelo comando à cena eliminou a ameaça e revelou a surpresa: sete policiais afegãos foram mortos e quatro, feridos, no que se conhece como “fogo amigo”.

Em outro evento comando da Task Force 373 aproximou-se da aldeia de Nangar Khel, província leste de Paktika, onde presumivelmente se encontrava abrigado o líder Abu Laith al-Libi. O plano previa o disparo de seis mísseis e posterior ataque por terra. Além de não encontrar o líder taleban, verificou-se que seis adultos locais e oito crianças de uma madrassa (escola muçulmana) foram mortos. Os adultos foram descritos como insurgentes do Taleban.

(Dia 5 de agosto o governo afegão liberou o resultado de um inquérito sobre um raid aéreo das forças da Otan durante uma batalha na região de Sangin, província de Helmand, segundo eles, com 'insurgentes'. Uma casa foi bombardeada. Dentro da casa, morreram 39 mulheres e crianças, que haviam se abrigado ali para fugir do fogo cruzado. Nenhum adulto, nenhum insurgente. A Otan havia declarado que haviam morrido 6 pessoas, a maioria, militantes.)



A voz de Julian Assange e a origem dos registros

Julian Assange concedeu recentemente entrevistas após o início da divulgação pelos três meios citados. Um dos aclaramentos de Assange é que o WikiLeaks, ao contrário do que se pensa e divulga, não é um site “colaborativo”, como a Wikipedia. Ninguém consegue postar revelações e denúncias, apenas encaminhá-las ao grupo de direção. O site só publica material inédito. Todas as informações são criteriosamente checadas. Não são aceitas, por exemplo, revelações de ordem pessoal, apenas políticas, econômicas, militares, de Inteligência, etc.

O Guardian estampou artigo de Nick Davies, um dia após o início das publicações pelo jornal, reproduzido pelo site ativista Countercurrents, com a história da origem dos registros da guerra afegã. Para Davies, o receio de Washington é que WikiLeaks detenha material mais sensível ainda, algo como dezenas de milhares de mensagens de embaixadas sobre acordos de armamentos, conversações de comércio, reuniões secretas e opiniões sem censura de governos. O Wikileaks nega a afirmação, atribuída a Manning pela revista Wired, de que tenha recebido “260 mil despachos de embaixadas” euamericanas de todo o mundo.

Assange relata que foi instado pela área de investigações criminais do Pentágono a auxiliar a interromper a corrente de informações, mas recusou-se. Nos dois últimos meses, WikiLeaks recebeu muita informação, “material de alta qualidade”, de fontes militares. Amparado por lei sueca (os provedores alojam-se em países que resguardam o sigilo das fontes, como Suécia e Noruega), Wikileaks jamais revela as suas fontes, e todo material encaminhado é cuidadosamente analisado para que eventuais pistas sobre fontes sejam eliminadas.

Davies relata que o Pentágono agiu devagar. Segundo o que se divulga e que a revista Wired publicou, em novembro passado, alguém a trabalho em uma unidade de alta segurança numa base militar do Iraque iniciou há meses a cópia de materiais secretos. Em 18 de fevereiro, Wikileaks publicou documento classificado altamente comprometedor da embaixada dos EUA em Reikjavik, Islândia. Alguns colaboradores de WikiLeaks no país passaram a informar sua impressão de estarem sendo seguidos.

Bradley Manning - Em maio, um hacker californiano, Adrian Lamo, amigo do editor da revista Wired, foi contatado por chat por alguém com nome Bradass87, que se abriu de imediato: “olá... tudo bem? ... sou um analista de inteligência do exército, alojado em baghdad... se você tivesse acesso sem precedentes a redes classificadas, 14 horas por dia, 7 dias por semana por 8 meses, o que você faria?” Davies (Assange) relata que, por uma semana, Bradass87 abriu seu coração com Lamo. Tinha acesso a duas redes secretas: Secret Internet Protocol Router Network, SIPRNET, que transmite informações diplomáticas e militares classificadas como “secretas”, e a Joint Worldwide Intelligence Communications System, que usa um sistema de segurança diferente para transmitir material classificado como “ultra secreto”.

Bradass87 declarava que via coisas terríveis, inacreditáveis, a versão não oficial de fatos e crises, e que aquilo precisava cair no domínio público. Bradass87 indicou a Lamo que “alguém conhecido intimamente”(logo após, contou que ele mesmo fazia o serviço) estava baixando, comprimindo e criptografando o material e enviando a alguém chamado Julian Assange. Em 23 de maio, Lamo (anteriormente condenado por invasão do site do NYT) contatou autoridades militares nos EUA; dia 25, encontrou-se com oficiais do Pentágono numa lanchonete e forneceu as pistas de Bradass87. No dia seguinte, 26, um jovem de 22 anos, Bradley Manning, analista de Inteligência numa base próxima a Baghdad, foi preso e enviado a uma prisão militar no Kwait.

Solidariedade - Manning acha-se hoje preso numa base nos EUA, em Virginia, e deverá enfrentar corte marcial. Pesam contra ele oito acusações que podem somar 52 anos de prisão. Seu nome já foi incluído em vários sites de ativistas militares (veja um exemplo de site) entre os perseguidos que necessitam defesa perante acusações como traição, deserção etc. Um trecho da carta enviada aos assinantes do site afirma: “Agora, o analista de Inteligência Bradley Manning está na berlinda e pode passar décadas na prisão por liberar um vídeo de um massacre em Baghdad”. A corrente se amplia, como se vê nesse movimento do site Courage to Resist.

Outra iniciativa é o blog criado pelo radialista Mike Gogulski, de Los Angeles, dedicado à defesa de Bradley Manning. Notícia da página do blog informa sobre um show promovido pela rádio KPFK com apoio de Scott Horton, titular do site Antiwar.com. O programa anunciou entrevistas com Daniel Ellsberg e Julian Assange. O site de Ellberg traz entrevista sobre os registros da Wikileaks.

O Pentágono ainda não sabe se há mais envolvidos, e quantos seriam, e o único acusado por enquanto é Manning. O analista do Pentágono que revelou nos anos 1970 os famosos “Papéis do Pentágono”, Daniel Ellsberg, anunciou que Assange corria risco físico, e que as agências de Inteligência euamericanas fariam tudo para tornar o caso exemplar. Por cautela, Assange cancelou uma viagem programada a Las Vegas e permaneceu na Europa.

Acerto - A estratégia de oferecer os dados aos dois jornais e à revista, com data marcada para o início do noticiário, mostrou-se acertada e segura, e garantiu divulgação mundial aos registros da guerra afegã. Agora, Assange confirmou ao Guardian que está de posse de milhões de registros de operações dos EUA pelo mundo, e que em breve irá publicar. Alega possuir informações de todos os países acima de 1 milhão de habitantes. Fica evidente que a estratégia da Wikileaks é condicionada e tornada possível pela existência e abrangência democrática da internet.

Assange manifesta receio de ver o site crescer e não poder honrar os materiais que, pensa, vão fluir cada vez mais ao WikiLeaks. Conta que, após revelar a morte de 51 civis num incidente no Afeganistão, houve aumento substancial de ofertas. Nas suas palavras, “a coragem é contagiosa”. E não vê diferenças entre os fatos do período dos registros e a situação atual sob BHObama: “As forças armadas dos EUA são um barco grande demais para fazer meia-volta”.

Mistério – Uma semana após a liberação do Diário da Guerra Afegã, o site do WikiLeaks passou a exibir um “arquivo de segurança”, de 1,4 gigabytes. Muitas especulações vêm sendo levantadas sobre o fato. Alguns imaginam que seja algo que possa ser aberto mediante senha em caso de ocorrer algo a Assange ou seus colaboradores. Nesse caso, constituiria uma medida preventiva, e a senha seria fornecida por alguém já designado. Outros imaginam que sejam os 15 mil registros que ainda não foram divulgados, ou mesmo os tais 260 mil memorandos e despachos de embaixadas citados como de Manning pela revista Wired e negados pelo WikiLeaks.



Paquistão e Inter-Services Intelligence – ISI

Uma das revelações, ou reforço de conhecimento, mais explosiva dos registros refere-se ao papel do ISI, agência de Inteligência paquistanesa, perante as forças combatentes no Afeganistão, em especial o Taleban. Durante a invasão soviética, entre 1980 e 1989, os combatentes muçulmanos foram armados e treinados por agentes do ISI, que intermediava verbas, armamento e orientações da CIA, e não raro os próprios agentes da CIA assumiam a frente dos eventos. O ISI fortaleceu-se sob as benesses da CIA e a colaboração com o Taleban. Afastado o ditador Pervez Musharraf, e após a morte de Benazir Bhuto em atentado, seu viúvo Azif Ali Zardari assumiu a Presidência. Havia sido ministro voltado para indústrias e empresas, em governo anterior de Bhuto, ocasião em que ficou conhecido pela vasta corrupção.

O Paquistão é uma sociedade dominada por poucas famílias com fortunas, também grandes proprietárias de terras, que residem nos EUA, em Dubai e no Reino Unido. Recente pesquisa mostrou que 6 em cada 10 paquistaneses consideram-se inimigos dos EUA e querem os invasores fora do Afeganistão. Boa parte do ISI é formada por profissionais, e são esses profissionais que emergem dos registros como apoiadores, orientadores e fornecedores de armamento para o Taleban. Criado em 1947 pelos britânicos, como solução para alojar a parcela muçulmana da região, o Paquistão tem fronteira artificial com o Afeganistão, e a maior parte dessa fronteira, a Linha Durand, montanhosa e inóspita, é habitada dos dois lados pelos mais de 20 milhões da milenar etnia pashtun, base social do Taleban.

Ajuda - A colaboração do ISI com o Taleban coloca problemas de difícil solução para o governo dos EUA. Bilhões fluem todo ano para os cofres do governo, e sem dúvida para bolsos também, em nome da “ajuda” dos EUA ao país, e seus atuais governantes e chefes militares são beneficiários dessas verbas. O Paquistão detém armas nucleares, e é um assunto delicado manter a fidelidade dos seus mandantes aos combalidos princípios da ‘Guerra ao Terror’, cada vez de mais difícil defesa.

A citada ajuda é sempre basicamente militar. Em entrevista há uns meses ao londrino The Times, o ex-ditador Musharraf declarou que boa parte das verbas para ações anti-terrorismo sempre foi empregada em compra e desenvolvimento de armamento. O analista Gulam Mitha sintetiza o significado da ajuda para a população: “a) inflação crescente; b) carência de alimentos; c) aumento de ataques terroristas; d) instabilidade em ascensão; e) pouca energia e combustíveis; f) mais pretextos de assassinatos de civis pelos drones”. O jornal paquistanês Dawn informa que a proporção que reflete a ineficiência desses bombardeios por drones é avassaladora: para cada 1 insurgente morto, morrem 140 civis. Como no Afeganistão, isso alimenta a oposição e o ódio da população aos EUA.

Amigos e pressões - Entre 17 e 24 de julho ocorreu na região intensa movimentação de autoridades aliadas. Mitha cita: enviado especial Richard Holbrooke, conhecido como “Bulldozer”, dia 17, um dia após os primeiros-ministros da Índia e do Paquistão se encontrarem / Hillary Clinton chegou dia 18, e ambos se encontraram com o presidente Zardari, o primeiro-ministro Gilani, o ministro do Exterior Qureshi e o chefe militar Kayani / O secretário da OTAN, general Anders Rasmussen, chegou dia 21 / O comandante geral euamericano Mike Mullen veio dia 24, após dois dias de visita à Índia. A movimentação pode ter relação com os rumores de ataques ao Irã e a “um país árabe”, talvez a Síria. Pouco antes, o primeiro-ministro britânico David Cameron havia cumprido visita oficial à Índia.

O combate das forças armadas paquistanesas aos insurgentes Taleban que se alojam do lado paquistanês da fronteira tem sido inconvincente aos olhos de planejadores da guerra euamericanos e aliados, e o fato de o ISI agir contra as diretrizes do governo-cliente dos EUA gera graves dúvidas sobre o desenrolar dos acontecimentos. As revelações dos registros sem dúvida reforçam a posição dos falcões que desejam ampliar a guerra sem fronteiras, incluindo até mesmo o Irã. Mas, ao mesmo tempo, abalam e relativizam os planos e jogam sombras densas sobre as certezas de quem é “amigo” e quem é “inimigo”, dado que nem mesmo no Afeganistão ocupado é claro.

A rede de comunicação árabe Al JAzeera analisou a questão em artigo recente. Apoiada na análise do NYT, Al Jazeera afirma que os documentos mostram que o Paquistão (leia-se áreas do ISI) “estimula representantes de seu serviço de Inteligência a contato direto com o Taleban em sessões estratégicas secretas para organizar redes de grupos militantes para lutar contra os soldados americanos no Afeganistão, e até mesmo empreender complôs para assassinar líderes afegãos”. O embaixador paquistanês nos EUA reagiu como se esperava: “Estados Unidos, Afeganistão e Paquistão são parceiros estratégicos e acham-se juntos dedicados a derrotar Al Qaeda e seus aliados Taleban militar e politicamente”.

A revelação de que o Taleban tem derrubado aviões e helicópteros com mísseis terra-ar surpreendeu os meios leigos que acompanham a guerra e levantou interrogações sobre a procedência do armamento, pela qual são acusados o Paquistão-ISI e o Irã, talvez para não se perder esta chance de demonizar o Irã mais uma vez. O ISI também é associado nos registros à formação e treinamento, a partir de 2006, da rede de combatentes suicidas que se explodem para eliminar tropas e outros alvos. O ex-chefe do ISI entre 1987 e 1989, general da reserva Hamid Gul, periodicamente é acusado, como neste momento, de manter laços com o Taleban.

Complicantes - Outros fatores complicantes são, além da citada presença de armas nucleares em mãos militares, o uso do território paquistanês como forte pólo de apoio logístico para abastecimento das tropas no Afeganistão e os citados bombardeios de partes do território paquistanês com aviões sem pilotos (drones), para "desalojar fortalezas da Al Qaeda e do Taleban". No panorama desvendado pelos registros, as resistências no governo e no país podem vir a afetar o desempenho das tropas aliadas nos combates. Morrem sempre mais civis inocentes que combatentes em qualquer bombardeio, principalmente nesses bombardeios pretensamente “cirúrgicos”, em todo o mundo.

Atores - Mas acima dos complicantes paira a situação estratégica do Paquistão e das forças apoiadas e as opostas ao seu papel regional. As facções afegãs armadas dos wardruglords Gulbuddin Kekmatyar e Jalaluddin Haqqani recebem apoio paquistanês, mas as forças da Aliança do Norte, basicamente compostas por tadjiques e uzbeques, que perfilam com o governo de Karzai e os aliados, são apoiadas pela Índia, adversária do Paquistão, com o qual já entrou em guerra três vezes desde 1947, e gozam da simpatia da Rússia. O imbroglio completa-se com o fato de o maior aliado do Paquistão ser a China. Um ataque às forças paquistanesas arrastaria toda a região para uma perigosa e incerta situação de confronto generalizado.

Para o analista indiano Aurobinda Mahapatra, em artigo no site russo Strategic Culture Foundation, pode ser que o recado principal das revelações dos registros seja indicar a necessidade inevitável de ações conjuntas regionais, acima da ação isolada dos EUA, para que a situação possa ter possibilidade de desenlace. Mahapatra cita também a essencial participação de Rússia, Índia e China numa aproximação multilateral para solucionar a complexa equação chamada Afeganistão.

Choques - Ao tratar do tema num dos artigos de lançamento mundial dos registros do dia 25 de julho, com a manchete “Paquistão ajuda insurgentes no Afeganistão, afirmam registros”, o NYT anota: “Os registros sugerem, no entanto, que os militares paquistaneses têm agido duplamente como aliados e inimigos, já que sua agência de espionagem age como o que oficiais americanos há tempos suspeitam ser um jogo duplo – concordando com certas demandas para cooperação enquanto se esforçam para exercer influência no Afeganistão por meio das mesmas redes de insurgentes que os americanos tentam eliminar”.

Na semana passada, agências noticiaram que o chefe do ISI, general Ahmed Shujaa Pasha, cancelou visita que faria a Londres acompanhado de experts seniores para discutir cooperação e segurança. A medida decorreu de declarações do primeiro-ministro britânico, David Cameron, em visita a Bangalore, Índia, de que o Paquistão exporta terroristas e faz “jogo duplo”. A declaração enfureceu os meios militares e de governo paquistaneses, não tanto pelo seu teor, sem novidade, mas pelo fato de ter sido feita durante visita oficial à arquiinimiga Índia. As acusações vêm sendo estendidas também aos agentes espiões do Afeganistão, já que há registros com informações de que alguns deles também colaboram com o Taleban. Ocorrem também deserções de tropas afegãs treinadas e armadas pelos invasores, com freqüência acompanhadas de armamento pesado a até mesmo veículos.

O atual comandante das forças armadas paquistanesas, autoridade suprema sobre as ações de combate à Al Qaeda e ao Taleban e homem forte do regime, general Parvez Ashfaq Kayani, dirigiu o ISI entre 2004 e 2007, período ao qual se referem muitos dos registros de cumplicidade da organização com o Taleban. Tudo indica que atualmente há satisfação da parte dos EUA com as medidas de “depuração de colaboradores do Taleban” dos quadros do ISI pelo general, o que confirma, aliás, a participação de áreas do ISI contra os aliados.



A face real da guerra

O que se destaca das análises paralelas e das leituras empreendidas por especialistas, jornalistas e estudiosos é uma seqüência de eventos de inexcedível violência e brutalidade repleta dos classificados ‘crimes de guerra’, com erros elementares de estratégia e operação, e com repetição de velhos comportamentos como o assassinato indiscriminado de civis, dado que já havia contribuído enfaticamente para afundar as forças armadas euamericanas no pesadelo do Vietnã. O que se situa no foco central não é mais a guerra apenas, é todo o sistema organizado que há décadas vem criando situações similares e movimentando sua economia em torno da guerra e seus desdobramentos.

Discursos - Uma constatação fundamental domina as análises: após a mais longa guerra externa da história dos EUA, que já acumula 9 anos, o inimigo nunca foi tão forte, nem mesmo quando enfrentou os invasores em 2001 e foi deposto do governo. Nesse cenário, falar em “vencer” a guerra é mero discurso para arrancar mais recursos do Congresso. Na última votação, e de modo surpreendente, os republicanos, menos 12, aprovaram mais algumas dezenas de bilhões de dólares para as tropas, e mais de uma centena de democratas, do partido do presidente, votaram contra.

A aparente contradição sinaliza que os democratas acham-se apreensivos com as derrotas que têm sofrido em eleições parciais e de olho nas próximas eleições de 2012, ocasião em que, espera-se, BHObama pleiteará reeleição. Se não se pode vencer, resta sair, e aí reside o dilema avassalador: sair como? O Great Game (Grande Jogo) que há séculos desenrola-se em torno da Ásia Central e adjacências não admite lances desse gênero.

Corrupção - Outra face é a da oceânica corrupção, campo no qual os contratados particulares euamericanos e aliados para trabalhos de toda ordem, civis e militares, e fornecedores de quase todos os insumos usados pelas tropas competem com o inacreditavelmente corrupto governo do fantoche Hamid Karzai. O próprio vazamento de documentos sensíveis e de registros parece ser tendência inevitável, já que a atividade de Inteligência do governo e das forças armadas euamericanas vem sendo apoiada, segundo pesquisas do jornal Washington Post, por 854.000 contratados com acesso a informações de segurança. O preço de cada litro de combustível, trazido por terra e ar, colocado em campo no Afeganistão, somadas todas as despesas das fontes ao destino, anda pela casa dos 400 dólares. O custo da guerra na região já ultrapassou 1 trilhão de dólares (hoje, US$ 1,022,919,408,133).

Drogas - Após cair a quase zero durante o odioso regime do Taleban, a produção de ópio voltou com força total após a invasão em 2001. Hoje o Afeganistão responde novamente por mais de 90% da produção mundial. Os senhores da guerra, warlords, que são os mesmos senhores das drogas, druglords, deixam crescentemente de exportar ópio e, agregando valor ao seu produto, vêm refinando no país mesmo e exportando heroína. Gozam de facilidades imensas para importar os produtos químicos usados no processo.

Um dos donos do tráfico é Ahmed Karzai, irmão do presidente, que governa uma província e colabora com a CIA. São estimados cerca de 1 milhão de consumidores apenas no Afeganistão, e 15 milhões em todo o mundo, dos quais morrem uns 100 mil todo ano. Os invasores, como precisam de muitos dos seus serviços e colaboração, além de seus exércitos bem armados, fazem vista grossa. Ultimamente, vem aumentando de forma veloz a produção de haxixe, conforme depoimento de Antonio Maria Costa, chefe do serviço da ONU dedicado ao combate a drogas e crime.

A heroína afegã escoa para Rússia e Irã e para a Europa, onde o narco-Estado balcânico de Kosovo é o maior distribuidor mundial da droga. Kosovo foi criado pelos EUA-OTAN, e desde então é dirigido pelos chefes do tráfico. O tema, considerado pela Rússia e outros países ameaça mundial, nunca foi sequer discutido no Conselho de Segurança da ONU. Ao mesmo tempo, cerca de 8% do comércio mundial, ou 600 bilhões de dólares, envolvem drogas. Segundo o chefe russo do combate ao tráfico de drogas, Viktor Ivanov: “A declaração antidrogas da ONU não tem efeito. A OTAN nunca agiu para combater o tráfico afegão de droga e não parece interessada em fazer algo a respeito”.

Divergências - Um dos aspectos que se destacam nos registros e nas análises é a constatação da ausência de diretrizes firmes e políticas sólidas. O ex-analista da CIA Ray McGovern, em artigo recente, descreve as opiniões do ex-embaixador no Afeganistão, general da reserva Karl Eikenberry, sobre o pedido de mais tropas pelo então comandante local, general Stanley McChrystal.

Eikenberry anota em despachos enviados à Casa Branca, que fazem parte dos registros revelados: “Mais tropas não vão pôr fim à insurgência enquanto os santuários paquistaneses continuarem – e o Paquistão enxerga seus interesses estratégicos mais bem servidos com um vizinho fraco”. E ainda: “[...] nós nos tornaremos mais profundamente envolvidos aqui sem meios de escaparmos”. Ao mesmo tempo, escrevia: “Não é um parceiro estratégico adequado”, referindo-se ao presidente Karzai. Veja aqui os dois originais dos memorandos de Eikenberry.

Logo após, o Der Spiegel publicou, em novembro de 2009, uma entrevista com o conselheiro de Segurança Nacional do governo BHObama, general da reserva da Marinha James Jones. À pergunta sobre o pedido de mais tropas de McChrystal, Jones respondeu: “Generais sempre pedem mais tropas; eu penso que não vamos resolver o problema com mais tropas apenas. Você pode colocar tropas, e você poderia ter 200 mil tropas lá, e o Afeganistão irá deglutir (swallow) eles, como tem feito no passado”. BHObama acabou concedendo mais 30 mil tropas.

Números - O objetivo de um comando de tropas que sai a campo hoje no Afeganistão não é mais ganhar a guerra: é não perder e, ao mesmo tempo, tentar realizar o discurso de “proteger os civis”, que morrem às pencas pelas suas próprias mãos. Apenas na semana passada, 50 civis foram mortos de uma vez num ataque da OTAN. Morrem também pelas mãos do governo, que abafa com massacres manifestações de protesto e resistência popular. Há 237 registros de manifestações populares contrárias aos invasores e ao governo, muitas delas reprimidas e com dezenas, às vezes centenas, de mortos.

Firma-se entre todos os níveis das tropas a certeza de que a guerra afegã não pode ser ganha, inda mais num país que tem longa tradição de derrotar todos os seus invasores desde Alexandre, o Grande, três séculos antes de Cristo, e cujos povos se enraízam em seus territórios. Isso pode ser lido com clareza nos próprios registros: são 13.734 de “ação amiga” (EUA-OTAN), contra 27.078 de “ação inimiga” e 23.082 de “eventos com explosivos”, principais responsáveis pelas mortes de tropas. Salta aos olhos a mentira oficial de atribuir a maior parte dessas dezenas de milhares de ações à minúscula Al Qaeda.

Nem mesmo unidade existe entre os aliados da OTAN e os EUA sobre os objetivos comuns. Um ex-comandante das forças britânicas retirou-se do comando no Afeganistão disparando severas críticas contra o governo britânico e o então primeiro-ministro Tony Blair. Recentemente, o presidente alemão foi forçado a renunciar por declarações feitas durante visita ao Afeganistão. O Atlantic Council, site ligado à OTAN, publicou dia 7 de julho declarações polêmicas do general francês Vincent Desportes sobre as operações afegãs. A repórter do jornal Le Monde, Desportes declarou que a situação da guerra “nunca havia sido pior”. Afirmou: “É uma guerra americana”. “Os aliados não têm voz na estratégia.” Desportes serápunido pelas declarações.

Para quê? - Em recente ensaio, em que analisa as guerras hoje e seus impasses, o professor de História da Universidade de Boston e militar da reserva Andrew Bacevich lembra pergunta famosa da ex-secretária de Estado Madeleine Albright sobre a inutilidade do arsenal nuclear, gigantesco, que nunca poderia ser usado. E apresenta a pergunta: de que adianta usar constantemente nossos soberbos recursos militares se isso hoje não funciona mais?

E complementa: “A recusa de Washington em encarar essa questão fornece uma medida da corrupção e desonestidade que permeia nossos políticos”.


extraído do sítio NovaE

http://redecastorphoto.blogspot.com/2010/08/diario-da-guerra-afega.html







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