Rádio WNews

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Conto

Carta O Berro..............................................................................................repassem
 
H I A T O S
              

            PRIMEIRO MOVIMENTO


            PAULA:
            Eu bem que poderia descobrir um calmante e pingar umas gotas naquele chá que a Dona Vera toma aos baldes. E já que estou sonhando, eu gostaria de ganhar uma Honda, no Natal.
            Não sei por que, mas as coisas hoje andam devagar demais. Nem sei se quero ver o Caio, à noite. Ando meio sem paciência pra escutar debate na USP.
            O Flávio tem mais imaginação. Ruim eu ter deixado o Flávio, enquanto ainda gostava dele. Mas não agüento gente que fala e não realiza (que não me quer).
            A Mara. Ir pra casa dela. Mara é força e brilho, como o Caetano e o Gil. Ou a Clarice Lispector.
            Mas se ela fuma, ou bebe, fica meio estranha (começa a chegar muito perto). Por que uma pessoa descontrola, perde o eixo de repente? Eu não sei (não gosto).
            Bem diz o Nick, “quem queima fumo perde o rumo”.
            Detesto o ato de fumar. De fumar qualquer coisa, mesmo cigarro. Adoro o Nick... Quem será ele, por trás da cortina esfumaçada do Marlboro?

            CAIO:
            Acho ruim ser magro.
            Acho horrível esse nariz.
Mas se tem um quesito em que eu sempre ganho é nesse ar de  peixe-fora-d’água, de marciano despencado da nave.
E na in tel igência, ufa.

            PAULA:
            O jeito que eu mais me gosto é bronzeada, de camiseta e calcinha. Tenho umas pernas lindas.
            A primeira coisa que vou fazer, na casa da Mara: contar pra ela e Nick a briga com Dona Vera. Adivinho que vai ser a maior encrenca pra sair de casa, hoje.
            No livro do Mauro is tem uma personagem (Claire?) que apelidou a mãe de “Clitemnestra”. Achei perfeito e comprei a estória. Mas Dona Verusca pensou que fosse algum palavrão novo. Imagine se alguma vez ela ouviu falar de Clitemnestra?
            E Agamenon?
            Porra, onde é que foi parar minha boina azul?

            CAIO:
            Acho que vou pra casa da Mara. Minha avó pensa que eu tenho “um caso” com ela. E vou tentar explicar? Não vale a pena.
            Às vezes eu gosto de falar “não vale a pena”, porque dá um alívio.

PAULA:
Quem é que resolve entrar no banheiro justamente agora?
Parece de propósito, só pra me atrasar.
Essa estória de ser a maldita da família já está enchendo.
Take it easy, enquanto isso procuro a boina mais um pouco? Não. Melhor ficar lendo no corredor, de olho na porta.

CAIO:
Comentar com Paula o “Retrato do Artista Quando Jovem”.
Ela gostou, será? Eu, mais ou menos. Achei um pouco devagar.
É claro que Paula vai estar na casa de Mara e Nick. Onde mais?

PAULA:
Então Clitemnestra vai sair para fazer comprinhas, que ótimo. Finjo que estou no quarto estudando e depois deixo recado com a empregada. Melhor assim.
E Agamenon, o que vou dizer a ele? Paizinho querido, me conte uma daquelas estórias cabulosas do Hospital. E agora uma graninha, um beijo.
Mas, antes, um banho.

CAIO:
“Você sabia que o Joyce foi excomungado pelo Vaticano? Minha irmã tem o Ulisses, você querendo eu empresto.”
Paulita, meu amor para sempre, tudo isso vou dizer pra você, quando a Mara fechar a porta do quarto pra gente ficar, sem pressa... Sem pressa, Paulita, e nada de luz acesa, como nos interrogatórios.

PAULA:
Às vezes eu me pego achando o Caio muito lindo. Agora: do que adianta escolher uma calcinha bonita, se ele não perdoa nem a luz do abajur?

CAIO:
Sei muito bem como Paula é gostosa. Tenho mãos para quê?

PAULA:
“Os olhos são as únicas mãos que vão ficando a alguns de nós”, é o texto que mais gosto de falar, no espetáculo. É também uma das coisas mais bonitas que o Cortázar já escreveu.
            Mas eu diria a Caito: com as mãos no escuro, meu lindo, tanto faz se a calcinha é azul ou cor-de-laranja-furada-nos-fundilhos, como as de Clitemnestra.

            CAIO:
            Sair logo, antes do Velho chegar.
            O Velho. É um cara que (desprezo?) não deu certo.
            É um cara compactuante.

 

            PAULA:

            Acabou.

            Dona Vera já percebeu que estou armando pra sair. Vai me chamar daqui a pouquinho, pronta pra dar o bote.

            Tomar um banho bem demorado.
            Enquanto isso Agamenon fala com ela: porque os jovens precisam de liberdade, etc. etc., estão na idade de se divertir, pá pá pá, como sempre.
            Esse brilho sabor tutti-frutti deixa os lábios bem delicados...
            O Caio vai gostar, será?

           
            CAIO:
            Em que boa hora resolvi voltar e trocar de camisa.
            Agora não tenho como fugir do Velho.
            Por que ele não ficou mais dois minutos, only, no bar?
            Parece destino, mesmo. A eterna briga de todos os sábados. Lá vou eu.

            

            SEGUNDO MOVIMENTO

PAULA:
            – Mamãe, por favor, eu já disse que tenho ensaio. Você não pediu pra falar a verdade? Pois aí está, é toda sua.
– ...
– Então: eu bem que poderia mentir, dizer que ia pra Faculdade, mas prefiro jogar limpo.
– ...
– Escute aqui: esse... “teatrinho”, como você chama, é problema meu.
            – ...
            – Pois eu não passei no vestibular, como você queria? Então...
            – ...
            – Ao menos lá no grupo de Teatro as pessoas me tratam como gente, coisa que não acontece aqui em casa.
            – ...
            – Eu não estou falando do Agamenon; não começa a jogar cortina de fumaça pra cima de mim.

CAIO:
            – Pai, eu não posso conversar agora. A mamãe conta pra você, tá bom?  Vou usar o carro. Dá licença pra eu manobrar?
– ...
– A Mara pagou a gasolina.
– ...
– Não, é que eu levei o gato dela no veterinário. Porra, pai, é claro que ela foi junto.
– ...
– Eu sei, mas depois nós fomos tomar um chope, eu, a Mara, o Nick e o veterinário, que é amigo deles.
– ...
– Só nós quatro. Com o Poncho, cinco.
– ...
– É o gato, ora.

PAULA:
– Quem mandou você ligar pra Mara?
– ...
– E daí que ela é casada? Você só pensa nessas coisas?
– ...
– Não dá pra fazer um esforço, não dá pra perceber que algumas pessoas vivem longe desses preconceitos sujos?
– ...
– Isso! Bate mesmo! A violência é uma arma desprezível, própria dos fracóides de merda. A verdadeira força não precisa de porrada pra se firmar. Agamenon nunca me bateu.
– ...
           – Eu sei que ele é meu pai, e daí? Chamo do jeito que eu quiser.

Há meses, num delírio de febre, Paula sonhou-se Ifigênia. Agamenon tomava sua temperatura, ouvia o coração levantando-lhe a blusa, espetava a agulha na veia.
Ifigênia voltava o rosto, com a dor que era a morte em um segundo, enquanto ele murmurava desculpas, Paula, Paulita, amor meu.
Agamenon era lindo e fraco, também ele sucumbindo às teias da megera-mãe.    Conseguiriam um dia expulsar Clitemnestra e tomar posse, só Ifigênia e Agamenon, do duplex? Ou os deuses exigiriam que Agamenon sacrificasse a filha...?

Sonhei tanta bobagem, dissera Paula, ao acordar.
Agora, sim, tinha um motivo a mais para adotar os nomes gregos, que caíam como uma luva. Dona Vera não suportava ouvi-los; mais uma razão, portanto, para continuar com o jogo.
Por isso:
– A-g-a-m-e-n-o-n. Digo e repito Agamenon quantas vezes quiser. Afinal, ele é meu pai. Não sei como o coitado consegue te agüentar.
– ...
– Ele é muito melhor que você, Clitemnestra... Mas nem tudo está perdido. Sempre é tempo de crescer. E se você quiser mesmo começar, sugiro “Hair.”
– ...
– “Hair”, Clitemnestra. Let the sunshine in.

CAIO:
– Pai, eu não quero discutir.
– ...
– Então vou a pé. Mas pensei que esse carro fosse meu, também.
            – ...
            – Pelo menos nunca me meti num poste.
            – ...
            – Não adianta. Eu vou mesmo pra casa da Mara. Dá licença?

            PAULA:
            – Quer dizer: deixe o sol entrar... Sabe como? Ah, claro que não, claro que não.
            – ...
            – Então, adeus. Mas não espere que eu volte, como da outra vez.
            – ...
            – Era isso que você queria, não...? Me pôr pra fora de casa.
            – ...
            – Por que você não assume sua covardia? Assim, ficaria mais fácil encarar essa máscara horrível no espelho. Já pensou nisso?
            – ...
            – Não adianta, agora eu vou mesmo. É tudo tão inútil.

            CAIO:
            – Imagine, pai! A Mara nunca entrou pra nenhum partido.
            – ...
            – E daí? O que ela pensa ou deixa de pensar não é da conta de ninguém.
            – ...
            – Eu nem sei; a gente não conversa sobre essas coisas.
            – ...
            – Ora, do que, porra. De livros, do ensaio, do espetáculo... O que mais? Não, de jeito nenhum. Eu até acho a Mara e o Nick um pouco... Um pouco desligados demais para o meu gosto, sabe?
            – ...
            – Tá, tá, tá bom.

            PAULA:
            – Já chega, Dona Vera. Eu não caio mais na sua teia de aranha (Será que vou pra casa da Mara, de vez? Mas pra dormir onde? Na sala? Por que não?). Quer soltar a porta do elevador, please? Estão chamando, no andar de baixo.
            – ...
            – E daí, eu não me importo com escândalos. Oh, sim, um condomínio familiar, isso aqui? É um cortiço muito mal transado, bem no estilo da classe média-medíocre. Ai, solta logo essa merda... Ufa.

CAIO:
– ...
– Não me venha com essa. Achei tremendamente sujo o que vocês fizeram no CRUSP.
– ...?
– É, vocês, mesmo. Nesses tempos de obscurantismo, quem não reage compactua. A estória só tem dois lados e eu sei muito bem qual é o seu.
– ...
– Ah, agora fui eu quem provocou? Por mim, já teria ido embora. Tchau.

 

            TERCEIRO MOVIMENTO


           CAIO finalmente o carro, trânsito de sábado à noite, irritação que desaparece à lembrança de uma outra noite, de estréia, um mês atrás, quando foi tomar vinho com Paula:

– Meu Deus, Paulita, pena que acabou.
– Nada, bobo. Agora é que a coisa começa.
– Mas aquela beleza que correu entre todo mundo, na hora do espetáculo, será que repete na próxima vez?
– Diz a Mara que sim, só que de um jeito diferente.
– Tomara. Quer mais vinho, minha linda?
– Não. Tenho de ir pra casa, Caito.
– O que será que a Mara está fazendo agora?
– Dormindo, acho.
– Ou então comemorando, com Nick.
– Pode ser.
– Porra... Tanto tempo de ensaio e então a estréia, uma hora de espetáculo e kaputt, acabou, the end.
– Pois a Arte é assim mesmo, Caito... Escuta, você viu a Clitemnestra morrendo de orgulho, na platéia? Pois ela vai acabar comigo, quando eu chegar em casa.
– Não acredito. É capaz de hoje ela dar uma trégua.
– Sei! E o seu pessoal, não foi por quê?
– Nem convidei. Eles não entenderiam, mesmo.
– Hum, que amargura, garoto.
– Não me chama de garoto. Não gosto.
– Mara e Nick te chamam assim.
– Mas é diferente. É carinho e não gozação.
– Desculpa, Caito.
Claro que desculpava, claro que tudo naquela primeira noite de Paula e delírios rabiscados em guardanapos, Paula de repente já não precisava ir para casa, era só tel efonar dizendo que não tinha mais ônibus, e que tal se visitassem Mara e Nick?
– Mas e se eles já estiverem dormindo?
– A gente dorme também. Vamos?
A Avenida Paulista deserta, o vento gelado nos cabelos, Paula encolhendo-se como um papelzinho de seda amassado.
– Veste a minha jaqueta.
– E você?
Ah, que bom caminhar assim até a Vila Madalena, bom encontrar a luz acesa, Mara e Nick ainda acordados, tomando vinho branco (que nem a gente fez agora há pouquinho, Paulita), o gato Poncho no colo de Mara aconchegada em Nick, a noite e o fogo
na lareira, Paula recolhendo os copos para lavá-los na cozinha, tudo ali, tanta magia espalhada, era estender as mãos e pegar. Tudo tão inteiro.
Caio e a primeira vez com Paula, medo que alguma coisa desse errado, mas como poderia, já que Mara e Nick haviam saído de mansinho, a porta fechada suave e só Paula devagar e nua contra o fogo, as sombras, escuros flashes pelo teto e paredes, Poncho
dando tapinhas nos cordões dos tênis jogados no tapete, tudo bonito e assustador num tempo único.

– Tá bêbado, corno? – grita o motorista do ônibus que Caio acaba de fechar, com seu pobre fusquinha azul.
– Porra, desculpa. – E Caio ri, presa da memória apaixonada que o roubou da hora presente, que por pouco não o matou, com essa molecagem. Era bom lembrar aquela noite e melhor ainda chegar à casa de Mara e Nick, uma vez mais.

PAULA, andar de robozinho pela calçada, o sapato novo incomodando, mas ficava tão chique.
O pensamento na palavrinha pu-bli-ci-da-de, idade, cida, idadecida, ida, lida, dia, cidade, ade, um H e eu teria o inferno, inferno lembra Dona Vera, era, cera, dera, fera, gera, hera, lera, mera, Nera, um abecedário inteiro de nada, essa minha mãe é mesmo um
karma. Clitemnestra é a própria mãe desnaturada.
Olha que menino bonito. Eu adoro gente bonita e limpa. Ah, se o Caio me pega pensando assim, agora que anda metido até a alma (o rabo) nas reuniões da Faculdade, resolvendo os problemas do povo brasileiro. Bom, eu até respeito, mas não ponho fé.
O Caio é um idealista.
É bonito ser i-d-e-a-l-i-s-t-a, se bem que inútil.
Às vezes eu me preocupo com o Caio. Se bem que os caras do Movimento não vão dar nada perigoso pra ele fazer; já perceberam que ele fala demais, será? Ou Caito não me conta tudo (será?).
Caito. Ao menos ele não me olha como os outros, como se fosse devorar uma lasanha.
Ah, que bom chegar à Rua Harmonia.
O fusca do Caio está na porta, melhor ainda.
Mara já me viu, da janela, enquanto abro o portão.

           

          

           QUARTO MOVIMENTO


            A casa de Mara e Nick era sempre o aconchego. Noite de lua cheia e alguma nuvem embaçando, panquecas-vinho-fumo-cigarros, Paula e Caio pela primeira vez um banho comprido e promessas de gozo, a cama já pronta na sala, o gato Poncho na lareira,
            pequeno-novelo-amarelo-claro, como a calcinha de Paula no varal do banheiro.
            Paula: – Que horas são? Quase duas? Que bom não ter que ir pra casa, pra lugar nenhum. Desta vez saí mesmo. É sério, agora não volto mais.
            E a Paula, para quem tudo ali era harmonia, ocorreu pintar uma aquarela com aquele cenário que a seus olhos ganhava em magia e dimensão, embora a sala comum, os objetos de cena baratos, o vinho razoável.
            (Perto de Mara, até a vulgaridade ganha um toque original. E perto de Nick? Se Nick quisesse, eu... Acho que Mara não se importaria... Não sei.)
            Caio: – Gente, e uma fumadinha?
            Paula: – Quem queima fumo perde o rumo.
            Caio: – Às vezes sim, às vezes não... Pois eu quero mais é me soltar.
            Paula nem ouve a resposta e teimosia de Caio, mas ouvirá Mara dali a pouco, dizendo a Nick que alguém chamado Horácio já deveria ter chegado.
            Paula: – Quem é Horácio? Eu conheço?
            Não, Horácio era um amigo, que estava a caminho.
            Paula: – E ele vai dormir aqui? Claro, que pergunta, a minha. Já é de madrugada e... Ele vai passar alguns dias? Ah. Então, posso ir pra casa da minha irmã. Acho que não vai ter acomodação pra todo mundo, não?
            Mas Mara sorria, dizendo que ficasse, que tudo se ajeitaria.
            Então Paula, em pleno alívio:
            – Obrigada, mas eu não quero atrapalhar, tá?
            E teve a impressão que Nick se aborrecia... Com sua presença ali? Com Mara, que achava melhor tel efonar para saber de Horácio, que estava tão atrasado? E Nick meio ríspido dizendo que não, o jeito era esperar, não se podia fazer muito mais que
           isso.Então Paula ganhou a certeza de que entre Nick e Mara corria algo incompreensível, mas não era a primeira vez que os ouvia conversar assim, numa espécie de código indecifrável, embora usassem palavras comuns como “você há de ser sempre a...”
            Sempre o quê? Por que Caio resolvia falar justamente agora?
            – Quer fumar, Paulita?
            – Não.
            – E você, Mara... Nick? Então, pito sozinho.
            Paula e a tentativa de um olhar cúmplice com Mara.
            Claro que o garoto ia também recitar, sozinho, o discurso anárquico-romântico de sempre, repetir pela enésima vez a estória da invasão do CRUSP pelos gorilas, os detalhes absurdos:
            – Paulita?
            – Hum?
            – Eu já te contei que na invasão do CRUSP os homens apreenderam um livro sobre Cubismo, pensando que tivesse a ver com Fidel?
            – Já, Caito. Você já me contou.
            Mara levantando-se, pondo uma fita de flamenco no velho aparelho de som e voltando para junto de Nick.
            Caio, a corda toda:
            – Mara, você gosta do Brecht? E se a gente montasse alguma coisa dele, depois da temporada?
            Paula: – Ele está engavetado, Caito, proibido.
            Caio: – Eu sei, mas mesmo assim, Paulita. Seria um ato revolucionário.
            Paula adiantando-se, precisava mesmo salvar a pátria, mudar o rumo da conversa. Detestava quando Caio, divagando, fazia papel de besta, mesmo na frente de Mara e Nick, que sabiam que ele era um menino de muito valor, não? (Ai, ai, ai, lá vai o garoto   
           despejar as doutrinas, com casca e tudo.)
            Paula: – Caito, por que a gente não muda de assunto? A Mara e o Nick não são ligados a... como se diz? A essas... coisas.
            Caio: – Ao Movimento.
            Paula: – Isso.
            Caio: – E você, por que não se engajou em nada, Paulita ?
            Paula incomodada, a noite começa a fugir do roteiro imaginado. E essa conversa do Caito...
            (Mas nem Mara nem Nick parecem atentos ao meu garotinho que, aliás, está ridículo. Droga, por que Caito não é como Nick? Por que não se recosta na almofada, com os olhos semicerrados, cara serena-madura-bonita, ouvindo Paco de Lucia? Por que     eu              mesma não faço isso?)
            Caio: – Tem uns lá que não são de nada, sabe?
            Paula: – (forçado ar distante) Quem?
            Caio: – Uns caras da Sociologia. Não agüentam uma porrada. Um bando de cagões.
            Paula: – Mas você não disse que todos eles eram incríveis?
            Caio: – Errei. Agora já abri os olhos. Claro que muitos se salvam. São puro cerne, como se diz por aí. Com esses, eu pulo de cabeça em qualquer onda.
            Paula: – Sei (é engraçado, mas também angustiante, ficar ouvindo Caio e ao mesmo tempo observar a sombra de Mara e Nick na parede, no canto oposto da sala, enquanto ambos falam de um tal Cinci e Pirandello. Mas é como se falassem de outra coisa,   
            porque se olham de um jeito e comentam de repente que o tempo está passando).
            E como para Paula o tempo é um pássaro apenas esboçado, sem endereço nem rota, ela desiste da carona e volta a ouvir Caio.
            – Você leu a carta da Dilma Alves, no Le Monde, Paulita? Um amigo meu conseguiu uma cópia, você querendo eu empresto. Porra, você nem está me ouvindo.
            E Caio, olhar teatral de criança incompreendida, reacende o diminuto cigarro.
            O velho aparelho de som desliga sozinho no final da fita.
            Um grupo chega pelo portão e Mara abre a cortina:
            – Mas Horácio não vinha sozinho?
           

            QUINTO MOVIMENTO


            Nos segundos de infinito horror, no momento em que tudo fica suspenso e as linhas finalmente se enroscam para compor a malha de simultâneos hiatos, um imaturo escritor fotografa os flashes que passam num instante interminável pelos olhos dos personagens.

            NICK olha Mara com uma já inútil reprovação: por que não havia ela concordado em dispensar aquelas duas crianças, antes que a coisa ficasse perigosa demais? Já não tinham recebido tantos tel efonemas da chorosa-furiosa Dona Vera, ordenando que
           parassem de receber Paula? Por que Mara, conhecendo muito bem o Q.G. onde Paula vivia, tinha ignorado o risco, os avisos?

            MARA responde com um também inútil olhar de perdão, mas isso não importa nem adianta, agora.

            PAULA não pensa em nada. Apenas tenta sufocar uma voz que de longe sopra, talvez, a explicação de tudo. Mas Paula consegue, ao menos por enquanto, obliterar o que não quer ver. Nem ouvir.

            CAIO se lembra por um instante do Encouraçado Potenkim, a seqüência da escadaria de Odessa e o carrinho de bebê que deslancha pelos degraus, como acontece agora com a bicicleta de Nick, que um dos homens tira do caminho com um pontapé. Então  
           Caio recorda um trecho lido já-não-sabe-onde sobre Danton, uma crônica que falava de Sandino, Sacco e Vanzetti e uma cena de Roda Viva. Caito quase se sentiria um herói, mas não sabe ao certo como agir ou pensar. O medo lhe rouba todo o espaço. Se
           pudesse acordar, se ao menos e mais pudesse acordar, ele se diz, infinitamente, piscando os olhos míopes para aquele quadro que não vai mudar.

            Num apartamento duplex, os que Paula chama de AGAMENON e CLITEMNESTRA discutem:
            A solução encontrada não teria sido um tanto, digamos, excessiva? Talvez, mas já se sabe... Não há mais como deter os fatos, pensam, eufemisticamente. A essa altura a coisa deve estar a pleno vapor, por assim dizer.
            A moça, a tal Mara, já não fora advertida antes, e tantas vezes? – comenta Do­na Vera com o marido, que responde com um “sim” e um olhar cansado onde uma dúvida, quase uma culpa, tenta se instalar. Mas enfim era preciso pôr um paradeiro naquela fase de
            Paula. Era preciso livrá-la o quanto antes da influência daquele casal, que ameaçava não apenas a inexperiente-ingênua Paulita, mas todos os jovens cheirando-a-cueiro que freqüentavam a casa e o tal grupo de Teatro. Apenas, ficava a dúvida: a moça, a tal       
            Mara, não era contratada da Secretaria de Cultura?
            Sim, claro – confirma Dona Vera. Aliás, é nesses Órgãos do Governo que eles se infiltram. O marido acaso não se lembra daquele jornalista que trabalhava na Prefeitura? Pois é assim que estamos, já não se pode confiar em ninguém.
            Sem dúvida – o marido concorda, recordando-se vagamente de uma tal Sara, que atendera num porão, há dias. Sim, qualquer jogo para salvar Paula dessa horrível probabilidade. Qualquer ato, sacrifício ou pessoa. Mesmo a tal Mara, que vira uma vez, na
           estréia da pecinha de Teatro. Bonitinha, ela.

            SEXTO MOVIMENTO

            Paula olhos arregalados, os homens revirando armários, Caio um gesto trêmulo, o baseado jogado às pressas na lareira que ele mesmo ajudara Nick a construir, meses atrás.
            Nick e Mara, por enquanto, mais surpresos que assustados. Nick se adiantando e o primeiro tapa. Sthendal-Cortázar-Nietzche arrancados da estante e Caio:
            – Por favor, senhores – numa voz que parece a de um homenzinho valente.
            – Você cala a boca, moleque; o nosso caso é com eles.
            Três horas da madrugada, um vizinho que acende a luz, o primeiro grito sufocado de Mara, o carro que parte silencioso como chegou, levando mais dois passageiros.
            Paula quase à histeria, olhando a casa já vazia de Nick-Mara-os homens.
            Dona Vera que tel efona:
            – Filhinha, você está bem?
            Caio engolindo um riso nervoso, cãibras:
            – Vai ficar tudo bem com eles, Paulita. A Mara e o Nick não são ligados a nada. A nada mesmo.
            E a lucidez, num segundo: Paula a mão nos olhos à chegada da compreensão que ainda tenta evitar. Mas agora não há como deter a voz, que já se insinuou em sua distraída in tel igência.
É algo que dói e que a faz tão perto daqueles homens e quase inimiga de Mara. É como se sua presença ali fosse um pouco o carro que chega e parte na madrugada.
Mas, então... A briga daquela tarde, a vingança de Clitemnestra, a traição de Agamenon... Compreende que estava enganada, que é Mara a Ifigênia, é ela que Agamenon sacrifica para que os ventos soprem e levem Paulita de volta a seus braços, tudo se
entrelaçando como se num mesmo bloco, na mesma roda que gira e emplaca os inseparáveis atos isolados.
            De novo o tel efone e Caio se adianta para atender, pensando que se for alguém perguntando por Horácio, ele dirá que não:
            – Não tem ninguém aqui com esse nome... Quem está falando é o Caio. Espere aí. Escute, acho que Horácio não virá. Levaram Mara e Nick. Não sei, eu não sei mesmo. De nada.
            – Nada – Paula repete, só para si, pensando que pode ser aí que Mara e Nick estejam, agora. Num infinito nada. É esta a imagem mais próxima que consegue para a palavra que não ousa pronunciar.
fim

[Este conto de Yara Camillo faz parte de seu livro, “Volições” (Massao Ohno Editor, 2007), e também de “Hiatos” (RG-Editores, 2004), ambos ilustrados por Wilson Neves.]

***

-----Anexo incorporado-----

Arquivo de Noticias

Carta O Berro..............................................................repassem
 
 
DEBATE ABERTO
A visão sagrada de Israel
Duas coisas chamam a atenção nesta ultima guerra: a inclemência de Israel, e sua indiferença com relação à comunidade internacional. Mas existe um aspecto desta história que quase não se menciona, como se as “visões sagradas” do mundo e da história fossem uma característica exclusiva dos países islâmicos.
“Se o Hamas quer acabar com Israel, Israel tem que acabar com o Hamas antes”.

(Efraim, 23 anos, estudante de uma escola religiosa de Jerusalem, FSP 24/01/2009)

Durante vinte e um dias de bombardeio contínuo, Israel lançou 2500 bombas sobre a Faixa de Gaza – um território de 380 km2 e 1.500 milhão de habitantes - deixando 1300 mortos e 5500 feridos, do lado palestino, e 15 mortos, do lado militar israelita. A infra-estrutura do território foi destruída completamente, junto com milhares de casas e centenas de construções civis. E é provável que Israel tenha utilizado bombas de “fósforo branco” - proibidas pela legislação internacional com conseqüências imprevisíveis, no longo prazo, sobre a população civil, em particular a população infantil.

Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, se declarou “horrorizado”, depois de visitar o território bombardeado, e considerou “escandalosos e inaceitáveis” os ataques israelitas contra escolas e refúgios mantidos em Gaza, pelas Nações Unidas. Richard Falk, relator especial da ONU sobre a situação dos Direitos Humanos em Gaza, também declarou que, “depois de 18 meses de bloqueio ilegal de alimentos, remédios e combustível, Israel cometeu crimes de guerra, e contra a humanidade, na sua última ofensiva contra os territórios palestinos. Crimes ainda mais graves porque 70% da população de Gaza tem menos de 18 anos” .

Dentro de Israel, entretanto - com raras exceções - a população apoiou a operação militar do governo israelita. Mais do que isto, as pesquisas de opinião constataram que o apoio da população foi aumentando, na medida em que avançavam os bombardeios, até chegar a índices de 90%. E no final, na hora do cessar-fogo, metade desta população era favorável à continuação da ofensiva, até a reocupação de Gaza e a destruição do Hamas. (FSP, 24/01/09).

Seja como for, duas coisas chamam a atenção – de forma especial - nesta ultima guerra: a inclemência de Israel, e sua indiferença com relação às leis e às críticas da comunidade internacional. Duas posições tradicionais da política externa israelita, que têm se radicalizado cada vez mais, e são quase sempre explicadas “escalada aos extremos” do próprio conflito. Mas existe um aspecto desta história que quase não se menciona, ou então é colocado num segundo plano, como se as “visões sagradas” do mundo e da história fossem uma característica exclusiva dos países islâmicos.

Desde sua criação, em 1948, Israel se mantém sem uma constituição escrita, mas possui um sistema político com partidos competitivos e eleições periódicas, tem um sistema de governo parlamentarista segundo o modelo britânico, e mantém um poder judiciário autônomo. Mas ao mesmo tempo, paradoxalmente, Israel é um estado religioso, e uma grande parte da sua população e dos seus governantes, tem uma visão teológica do seu passado, e do seu lugar dentro da história da humanidade.

Israel não tem uma religião oficial, mas é o único estado judeu do mundo, e os judeus se consideram um só povo, e uma só religião que nasce da revelação divina direta, e não depende de uma decisão, ou de uma conversão individual: “se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis uma propriedade peculiar entre todos os povos. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Êxodo, 19, 5-6).

Alem disto, o judaísmo estabelece normas e regras específicas e inquestionáveis que definem a vida quotidiana e comunitária do seu povo, que deve se manter fiel e seguir de forma incondicional as palavras do seu Deus, mantendo-se puros, isolados e distantes com relação aos demais povos e religiões: “não seguireis os estatutos das nações que eu expulso de diante de vós...Eu Javé, vosso Deus, vos separei desses povos. Fareis distinção entre o animal puro e o impuro..não vos torneis vós mesmos imundos como animais, aves e tudo o que rasteja sobre a terra” (Levítico, 20, 23-25).

Para os judeus, Israel é a continuação direta da história deste “povo escolhido”, e por isto, a sua verdadeira legislação ou constituição são os próprios ensinamentos bíblicos. O Torá conta a história do povo judeu e é a lei divina, por isto não pode haver lei ou norma humana que seja superior ao que está dito e determinado nos textos bíblico, onde também estão definidos os princípios que devem reger as relações de Israel com seus vizinhos e/ou com seus adversários. Em Israel não existe casamento civil, só a cerimônia rabínica, e os soldados israelenses prestam juramento com a Bíblia sobre o peito e com a arma na mão: “Javé ferirá todos os povos que combateram contra Jerusalém: ele fará apodrecer sua carne, enquanto estão ainda de pé, os seus olhos apodrecerão em suas órbitas, e a sua língua apodrecerá em sua boca.” (Zacarias, 14, 12-15)

As idéias religiosas dos povos não são responsáveis nem explicam necessariamente as instituições de um país e as decisões dos seus governantes. Mas neste caso, pelo menos, parece existir um fosso quase intransponível entre os princípios, instituições e objetivos da filosofia política democrática das cidades gregas, e os preceitos da filosofia religiosa monoteísta que nasceu nos desertos da Ásia Menor. Mas o que talvez seja mais importante do ponto de vista imediato do conflito entre judeus e palestinos, e do próprio sistema mundial, é que Israel - ao contrário dos palestinos – junto com sua visão sagrada de si mesmo, dispõe de armas atômicas, e de acesso quase ilimitado a recursos financeiros e militares externos.

Com estas idéias e condições econômicas e militares, Israel seria considerado – normalmente - um estado perigoso e desestabilizador do sistema internacional, pela régua liberal-democrática dos países anglo-saxônicos. Mas isto não acontece porque no mundo dos mortais, de fato, Israel foi uma criação e segue sendo um protetorado anglo-saxônico, que opera desde 1948, como instrumento ativo de defesa dos interesses estratégicos anglo-americanos, no Oriente Médio. Enquanto os anglo-americanos operam como a âncora passiva do “autismo internacional” e da “inclemência sagrada” de Israel.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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DO GENOCÍDIO FASCISTA ISRAELENSE
À HERÓICA SAGA PALESTINA (*)

Miguel Urbano Rodrigues
agressão israelenseO genocídio que atinge o povo da Palestina será recordado pelo tempo adiante como uma mancha repugnante na historia da humanidade.

Menos transparente é outra realidade. A criação do Estado de Israel, responsável pela tragédia que nos reúne nesta Conferencia, assenta sobre mitos que deturpam a historia.

A acumulação e difusão desses mitos está na origem de situações, actos políticos e crimes que tornaram possível a repetição no inicio do século XXI de uma monstruosidade civilizacional. Apoiado pelos EUA o Estado construído por vitimas do holocausto nazi concebe e executa um moderno holocausto.

Uma pirâmide de falsidades e mentiras sinaliza a estrada do tempo que conduziu a chacinas como as de Sabra, Shatila e Jenin.

Na base delas está o mito básico, o mais trabalhado de todos, aquele que desencadeou o movimento do regresso dos judeus à «Terra Santa dos antepassados».

A esmagadora maioria dos israelenses que vivem no Estado de Israel e se assumem como judeus não descendem do povo que invocam. A saga da diáspora judaica, alavanca das teses de Theodor Herzl que promoveram a «volta à pátria perdida», foi edificada sobre uma inverdade histórica.

Jerusalém era uma cidade pequena quando, por duas vezes, a sua população, maioritariamente de judeus, foi expulsa pelos Romanos. Não eram mais do que alguns milhares os que dela saíram após a revolta esmagada por Tito, no ano 70. Adriano, no século II, arrasou totalmente Jerusalém como castigo de nova insurreição. Os judeus deportados após a mortandade foram também poucos.

Não ha milagres na multiplicação dos seres humanos. Olhamos hoje para os askenazis, vindos da Alemanha, da Polónia, da Europa Ocidental e para os sefarditas, chegados de países muçulmanos, e tudo nos seus traços fisionómicos difere, a denunciar origens étnicas diferentíssimas. Nuns e noutros, a percentagem de sangue judaico, após cruzamentos processados ao longo dos séculos, é mínima. Os primeiros tratam aliás os segundos com sobranceria, considerando-os cidadãos inferiores. E os judeus negros da Etiópia e de outros países africanos?

É a religião e não o sangue que estabelece a ponte do judaísmo entre essas comunidades e a suposta pátria de origem.

Mas, porventura, será hoje a religião o denominador comum aglutinador da nação que se diz descendente de Abraham? A resposta é negativa. Muitos judeus israelenses não praticam actualmente a religião hebraica e as suas convicções religiosas são, pelo menos, débeis.

A tradição, o culto dos antepassados, o acervo de uma cultura defendida com tenacidade e condensada na Bíblia (o Antigo testamento) aí estão as raízes do sionismo e a explicação da especificidade contraditória de um estado confessional cujos filhos duvidam (uma percentagem considerável) da existência de Deus.

É inquestionável que os antepassados dos palestinos árabes chegaram à Palestina há uns 5000 anos, subindo da Península Arábica, muito antes das primeiras comunidades hebraicas. Eram aparentados, como povos semitas vindos de um tronco comum. Uns e outros assumiam-se como descendentes de Sem e falavam idiomas muito parecidos que ainda hoje apresentam grandes afinidades.

Os primeiros fundiram-se rapidamente com algumas das tribos que povoavam a região; os segundos muito menos.

O processo de miscigenação dos antigos palestinos foi tão complexo que a própria palavra Palestina deriva dos Filisteus, descendentes dos chamados Povos do Mar, invasores arianos e não semitas.

Não cabe aqui acompanhar a história dos primitivos hebreus e as suas aventuras desde o Nilo ao Eufrates, com passagem pelo vale do Jordão. Encontramos uma síntese muito interessante no livro de Ernesto Gomez Abascal ,que foi embaixador de Cuba na Síria e na Jordânia (1).

O que me parece útil recordar é que a agressividade genocida do estado de Israel tem um precedente na agressividade expansionista dos judeus vindos do Egipto. Actuavam então por mandato divino, como «povo especial». Segundo o Antigo Testamento, Jeová informou Moisés de que seria dos hebreus todo o território desde o deserto até ao mar e ao Eufrates, isto é, a Palestina, o Líbano, a Síria e parte do Iraque, isto é, o hoje chamado Crescente Fértil.

Como tentaram apossar-se de tão vasta e povoada Região?

O livro de Josué iluminou-lhes o caminho: «Quando tiverdes atravessado o Jordão entrando pela terra de Canaã, afastareis do vosso caminho todos os moradores do país e destruireis todos os seus ídolos de pedra, e todas as suas imagens fundidas e destruireis todos os lugares elevados: e expulsareis os moradores da terra e residireis nela porque eu vo-la dei para que seja a vossa propriedade (cap. 33, vers 50 a 53 ). Porque tu és povo santo para Jeová, o teu deus. Jeová, o teu deus te escolheu como povo especial, mais do que todos os povos que estão sobre a terra (cap. 7, vers 6). E destruíram a fio de espada tudo o que havia na cidade; homens e mulheres, moços e velhos, até os bois, as ovelhas e os burros.» (cap. 8, vers 24 e 26 (...) Subiu logo Josué e todo Israel com ele de Eglon a Hebron e combateram esta (...)matou tudo o que tinha vida, como Jeová, deus de Israel, lhe tinha ordenado.(cap. 10, vers 34 e 40).

Não faltam a Ariel Sharon, como se verifica, fontes bíblicas de inspiração. Jeová nada tinha de humanista, era um deus violento, racista, que fazia da guerra e das chacinas alavanca da historia.

A agressividade actual dos dirigentes israelenses não é, portanto, um fenómeno circunstancial. Tem raízes antiquíssimas.

O movimento sionista nasceu agressivo numa época em que contou com a simpatia da intelligentsia europeia, justamente indignada com o anti-semitismo que se manifestava nos repugnantes pogroms da Polónia e da Rússia.

Nos finais do século XIX, na Palestina, então submetida ao domínio turco, 91% da população eram árabes palestinianos. Os judeus, de imigração recente, não ultrapassavam 50 mil. Quase 99 % das terras pertenciam aos camponeses árabes. Mas os pioneiros do sionismo já projectavam o futuro Israel. Theodor Herzl no seu livro «O Estado Judaico», de 1896, escreveu: «em Basileia fundei o estado judaico (se hoje dissesse isso em voz alta todos me responderiam com uma gargalhada). Talvez dentro de cinco anos, mas certamente dentro de cinquenta toda a gente o saberá.»
Em 1914, Chaim Weizman, que seria o primeiro presidente de Israel, escreveu nas suas Memórias: «Na actualidade somos um átomo mas é razoável afirmar que se a Palestina cair na esfera da influencia britânica, e se a Grâ Bretanha incentivar o estabelecimento de um estado judaico, então como dependência britânica, podemos esperar ter ali dentro de 25 a 30 anos, um milhão de judeus, pelo menos, e eles se encarregarão de constituir uma guarda eficaz para o Canal de Suez».

Weizman tinha os dons dos antigos profetas. O que não previu foi que ao decadente império britânico sucederia o vigoroso império norte-americano e que o Estado de Israel, imaginado por ele, se transformaria no seu cão de guarda para todo o Médio Oriente.

Israel, gerado por decisão do imperialismo britânico ao criar o chamado Lar Nacional Judaico, nasceu, não se pode negar a evidencia, de um facto colonial.

Entretanto, transcorrido mais de meio século sobre a partilha da Palestina aprovada pelas Nações Unidas, Israel é uma realidade. Os próprios revolucionários palestinos reconhecem essa evidencia. Os mais de cinco milhões de israelenses que vivem hoje no Estado judaico ali implantado não são colectivamente responsáveis pelas políticas que tornaram possível a sua formação. Israel não pode ser apagado do mapa, por mais monstruosos que sejam os crimes dos seus actuais dirigentes.

Mas a solidariedade com a Palestina árabe exige a desmontagem do edifício de mentiras históricas montado pelo imperialismo e pelo sionismo na tentativa de justificar o injustificável.

Genocídios como os de Sabia e Shatila e o recentíssimo de Jenin não foram tragédias ocasionais.

Nos últimos anos do mandato britânico as organizações terroristas israelenses Haganah, Irgun e Stern cometeram incontáveis crimes numa escalada de violência dirigida contra os árabes palestinos, então amplamente majoritárias. Segundo o censo de 46, os árabes palestinos residentes eram 1 237 000 e os judeus apenas 608 mil. E somente 8% das terras pertenciam aos segundos. O Plano de Partilha aprovado pela ONU atribuiu entretanto ao futuro estado judaico 56% da superfície da Palestina.

E que aconteceu? Os israelenses ocuparam 75% do território, inviabilizando a criação do Estado Palestino. Quando a ONU tentou fiscalizar o cessar fogo, o bando terrorista Stern assassinou em Jerusalém o conde Bernardotte, secretario geral da organização. Em tempo brevíssimo 400 mil palestinos foram expulsos das suas terras. Quase 500 aldeias foram arrasadas numa orgia de barbárie. Em poucas horas a Irgun massacrou 254 palestinos na aldeia de Deir Yassin. Aterrorizar as populações, esvaziar a Palestina de árabes era o objectivo dessas acções de terror. Mais tarde, Menahem Beguin, que foi primeiro ministro, comentou assim a chacina por ele comandada: «O massacre não somente se justificou como o Estado de Israel não existiria sem essa vitoria».(2)

Sob essa apologia do genocídio transparece a política que Yossef Weitz, dirigente do Fundo Nacional Judaico, ondenou numa sentença monstruosa: «Entre nós deve ficar claro que não existe espaço para dois povos neste país(...) não ha outro caminho que não seja a transferencia dos árabes para os países vizinhos, a mudança de todos eles; nenhum deles, nenhuma tribo deve permanecer aqui(3)

Três guerras com estados vizinhos irromperam desde a criação de Israel.

Uma Resolução das Nações Unidas, entre todas famosa, a 242, de 22 de Novembro de 1967, intimou Israel a devolver os territórios ocupados pela força das armas. Outra, fundamental também, determinou o regresso dos refugiados aos lugares de onde haviam sido expulsos pelo exercito de Israel.

A posição israelense sobre essas questões cruciais encontramo-la condensada num cínico comentário de Golda Meier: «Como vamos devolver os territórios ocupados? Não existe ninguém a quem devolver algo. Essa coisa a que chamam palestinos não existe».(4)

A historia recente é melhor conhecida.

Se ha uma palavra que defina bem os acontecimentos que nas ultimas décadas tiveram por cenário a Palestina é a palavra tragédia.

O Estado comandado por Ariel Sharon não renuncia ao cumprimento das profecias da Torah que apontam o caminho da violência para a realização do sonho de Eretz Israel, ou seja, a Grande Israel.

Em Tel Aviv as tácticas e o discurso político mudaram ao sabor do ocupante da Casa Branca, sempre o grande aliado. Mas o objectivo de aniquilar a nação palestiniana manteve-se.

A Primeira Intifada demonstrou claramente que o povo árabe da Palestina não renuncia ao direito inalienável de construir o seu próprio futuro como nação independente, plenamente soberana, no que resta –Cisjordania e Gaza– dos territórios povoados pelos seus antepassados muitos séculos antes da chegada ali das primeiras tribos de judeus.

Seria uma solução aceitável simultaneamente por palestinianos e israelenses. Mas para isso seria, obviamente, necessário cumprir os Acordos. Ora essa nunca foi a intenção dos dirigentes israelenses.

O aparecimento exibicionista, em acto de provocaçao, de Ariel Sharon na Esplanada das Mesquitas, na velha Jerusalém, assinalou o inicio da Segunda Intifada e da actual escalada genocida contra o povo árabe da Palestina.

Nem a imaginação de um Sófocles ou de um Shakespeare concebeu tragédia comparável à que se abateu sobre as cidades e aldeias dos territórios governados pela Autoridade Nacional Palestiniana. Os bombardeamentos diários de áreas urbanas e rurais, a destruição das estruturas básicas da sociedade, como escolas, hospitais, edifícios administrativos, estabelecimentos comerciais, serviços de luz, agua e comunicações, o assassínio de mulheres e crianças, o cerco à sede de Yasser Arafat em Ramallah, e chacinas colectivas como a de Jenin – serão pelo tempo afora recordados como exemplos da barbárie de um estado confessional responsável por uma das paginas mais repugnantes da história da humanidade.

James Petras encontra para Jenin, como analogia, o gueto de Varsóvia destruído pelas SS de Hitler. A José Saramago, a aldeia palestiniana eliminada traz à memória Auschwitz, paradigma da loucura assassina nazi.
A mim faz-me recordar ambos. O buldozer Sharon, como já lhe chamam, é, pelos, métodos e pela ideologia, um discípulo eficiente de Hitler. Creio enunciar uma evidência ao afirmar que em cada um de nós, aqui reunidos no México, por iniciativa do Partido do Trabalho e da OSPAAAL, a angustia e a indignação provocadas pelo genocídio que atinge a nação palestiniana são acentuados pela consciência de que esse crime de lesa humanidade não seria possível sem a cumplicidade e o apoio ostensivo dos EUA

Por si só, Ariel Sharon não teria condições mínimas para empreender o seu plano de destruição da Palestina. Os seus crimes contam com o respaldo de Washington, mais exactamente do sistema de poder que governa os EUA, um sistema igualmente monstruoso cuja estratégia de dominação mundial deixa já transparecer o perigo de uma ditadura militar planetária, ou seja uma ameaça global á humanidade.

Os povos condenam com firmeza crescente o genocídio palestiniano. Mas a matança prossegue.

É financiada. Ultrapassa 3 mil milhões de dólares anuais a ajuda norte-americana ao estado assassino de Ariel Sharon. A passividade dos governos da União Europeia perante o genocídio é outra indignidade. Afirmam lamentá-la, mas a sua atitude é de submissão à estratégia dos EUA, que transformaram o Conselho de Segurança da ONU em dócil instrumento da sua política imperial.

A intima aliança entre a extrema direita israelense e o governo dos EUA contribui para evidenciar o significado internacionalista e humanista da luta heróica do povo árabe da Palestina. Essa pequena e valente nação, ao resistir com firmeza homérica à tentativa de holocausto contra ela comandada pelos filhos e netos das vitimas do holocausto judeu da Segunda Guerra mundial -- essa Palestina de raízes milenárias assume na realidade a defesa de valores eternos da humanidade.

A Palestina resiste. O seu povo sobrevive e multiplica-se sob o vendaval de metralha do fascismo israelense. Segundo um estudo da Universidade judaica de Haifa, no ano 2020 a população total de Israel ,da Cisjordania e Gaza terá ultrapassado os 12 milhões. Desse total 58% serão árabes palestinos. De maioria que são hoje os israelenses terão nessa época passado a minoria.

Represento nesta Conferencia o Partido Comunista Português . É com orgulho que aqui lembro ter sido permanente, fraternal e incondicional ao longo do tempo a solidariedade dos comunistas portugueses com o povo épico da Palestina. Ao reafirmá-la calorosamente desta tribuna, expresso a nossa confiança inabalável na vitoria final desse pequeno-grande povo que se bate hoje pela humanidade inteira.
Vocês vencerão, companheiros da Palestina.
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(1) Ernesto Gomez Abascal, Palestina – Crucificada la Justicia, Editora Politica, Havana, Abril de 2002
(2) OB.ctda, pg 203
(3) Idem, pg 32
(4) Idem, pg 54

(*) Intervenção na II Conferencia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano, realizada no México em 15/Maio/2002.



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