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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Ruy Carlos Ostermann


Viajar no mesmo lugar
Ruy Carlos Ostermann

De nada vale um livro se o sentimento que nos faz aproximar dele não for acompanhado de uma curiosidade que fica um pouco adiante do leitor habitual. É um atrevimento, bem sei, e pode ser confundido com algum tipo de pretensão intelectual que, se me belisco, não tenho.



O fato é que somos leitores habituais, conduzidos pelo fascínio ou surpresa do autor, movidos por uma natural e espontânea curiosidade. E, como somos previamente leitores predispostos às descobertas do texto – simples, complexo ou rumorosamente poético –, quase indecifráveis a olho nu, somos servidores dessa experiência.



Uns mais, outros menos, mas todos, sem exceção, seguem esse rumo e, se desistem, acabam se recriminando de um modo ou de outro. Ou mentem que já leram e gostaram muito. Porque os livros a serem lidos têm pesos diferentes, os mais graves são aqueles que estorvam o ambiente, se acumulam sobre a tampa lisa da mesa e a cada instante parecem anunciar a sua presença intocada e fechada.



Estou com um desses livros à minha frente, Papéis Inesperados, de Julio Cortázar (Civilização Brasileira, 2010). São toda espécie de fragmentos que estavam numa gaveta por mais de 20 anos depois da morte do escritor, guardados com esse zelo que as viúvas, às vezes, sabem desenvolver. Foram editados em 2009, reaparecem agora na versão brasileira.



Eu, por mim, estou maravilhado, porque também abri essa gaveta inesperada e já estou me consumindo numa solidariedade que não podia ser mais cúmplice.

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